A filosofia do adeus
para me despedir do diabo
pra me despedir de deus
Em um lugar mais calado

O caos me chama


Não sei qual de mim redige isto neste momento, nem sei quem termina este verso. Cada linha um eu, cada verso um pensamento, cada pensamento um universo. Senhor diário não escrito diariamente, acho que utilizo meus pseudônimos para me esconder de mim mesmo.

Em diversos personagens reprimo meus sentimentos — sou mestre nisso. E, como sempre, a madrugada faz eu me abrir a esses breves textos sem sentido.

Talvez este seja um novo eu. Se for, trate de arrumar um bom nome, querido pseudônimo.


Era um domingo de manhã. Ao acordar, olhei pra meu barulhento relógio na parede oposta à minha cama. Os ponteiros marcavam 08h15.

Levantei, minha infeliz esposa e meus filhos não estavam em casa. Estranhei. “Devem ter ido à missa”, pensei.

Coloquei três dedos de café em um copo e tomei tudo num gole.

Peguei meu maço e cigarros que estava sobre a mesa, caminhei até a varanda e deitei em minha rede de taboa. Li rapidamente as manchetes do jornal enquanto fumava um cigarro barato, provavelmente trazido da China e ainda pior que os outros.

Depois, ainda deitado e fumando…


Um espectro ronda-me — o espectro da paixão. Todos meus potenciais sentimentos unem-se em uma maldita aliança para conjurá-lo: amor, ódio, ansiedade, amargura, ambição, angústia, coragem….

Que sentimento não foi acusado de ciúme por causa da loucura que causam? Que outro sentimento, por sua vez, não lançou-me contra o amor?

Duas conclusões decorrem esses fatos:

1- A paixão já é considerada uma força maligna por todos os outros sentimentos existentes.

2- É tempo do amor se expor, à face do mundo inteiro, tudo que causa, seus fins e suas tendências, opondo um manifesto do próprio pensamento à lenda do espectro da paixão.

Com esse fim, reuniram-se em mim todos as emoções e redigiram o manifesto seguinte, que será publicado para ninguém.

(CONTINUA)


Eu tava lá, de boa, quando ela apareceu.

Ela me desafiou e me bateu, me espancou mas não doeu.

Ela me deu dois tiros, um em cada olho, mas não me cegou.

Ela arrancou minha lingua mas não tirou meu paladar.

Ela arrancou minha mão mas ainda pude escrever esse texto.

Ela enfiou uma haste de metal em cada uma de minhas orelhas mas não fiquei surdo.

Ela encheu meu nariz de cola mas ainda pude respirar.

Ela me deu uma marretada na cabeça mas não desmaiei.

Ela deu uma facada no lado esquerdo de meu peito mas meu coração…


“O que é isso? Estou confuso, com medo, com frio…”

Foi a primeira coisa que pensei nesse mundo esquisito. Eu estava confortável, quente, suprido. Esse novo mundo é estranho, abstrato. Após meses no conforto, houve uma mudança repentina… foi o primeiro soco que tomei da vida.

“Qual é o sentido da vida?”

É o que penso hoje, principalmente em minhas crises niilistas, cada vez mais frequentes.

Caminhando por uma estrada, sigo paralelamente ao tempo. Nessa estrada não há retorno, mas há bifurcações. “Qual a correta?” Na verdade a questão é: “há uma correta?”

“Qual é o sentido da vida?” —…

Felipe Miranda

um louco esvaziando a mente com suas loucuras — ah, também sou meu único leitor

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