NINGUÉM VAI LER ISSO

porque espero que as pessoas ainda tenham preguiça de ler um texto com mais que 400 caracteres.

“Houve em Mileto uma guerra entre os ricos e os pobres. Estes inicialmente levaram a melhor e forçaram os ricos a fugir da cidade. Mais tarde, no entanto, lamentando não terem podido degolá-los, tomaram seus filhos, reuniram-nos nos celeiros e os moeram sob os pés dos bois. Em seguida, os ricos retornaram à cidade e retomaram o poder. Pegaram, por sua vez, os filhos dos pobres, untaram-nos de pixe e os queimaram vivos.”

Isso não foi escrito na Bíblia. Foi escrito por Heráclides do Ponto, em Ateneu, XII, e citado na Cidade Antiga de Fustel de Coulanges.

Veja bem, antigamente já existia uma dualidade partidária em Roma, e antes que Republicanos ou Democratas (aliás, isso data de antes que inventassem a República e a Democracia), antes que houvesse Direita e Esquerda, existiam os pobres e os ricos. Os ricos detinham o poder por um privilégio especial de terem nascido descendentes dos antigos fundadores da Roma antiga. Mas antes de serem ricos, eram cidadãos (sempre que fossem homens, primogênitos, acima de X idade, etc). Mas era uma revolta entre ricos e pobres.

A revolta principal nos tempos antigos era pela conquista de direitos citadinos, pelo direito de ser cidadão, de ter voz ativa na comunidade política. Em dezenas de gerações, esses direitos foram conquistados.

A História é muito comprida, mas nos ensina coisas interessantes. Curiosamente, no final do livro, Coulanges fala de Jesus Cristo. Cristo foi um terrorista subversivo que fez uma revolta ideológica, de amor.

“Com o cristianismo, não só o sentimento religioso foi revivescido, mas assumiu também uma expressão mais alta e menos material. (…) Enquanto antes cada homem fazia para si mesmo o seu deus, e havia tantos deuses quantas as famílias e as cidades, Deus apareceu então como um ser único, imenso, universal, único a animar os mundos e o único a dever satisfazer à necessidade de adoração que existe no homem.”

Antes do cristianismo não era qualquer um que podia participar de um culto, porque os cultos estavam associados às famílias — deuses lares — e só podiam usufruir das leis quem tivesse uma religião, excluindo assim muita gente. Essas eram as diferenças sociais de a.C.


Pois bem, no contexto atual está emergindo um movimento que cobra a moral política. É certo que exista moral na política, mas é bom lembrar também que a corrupção está em todas as esferas da sociedade. Como dizia o tal Cristo maluco: “aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra.”

É certo, é humano até, eu diria, que a moralidade cobrada não seria encontrada na vida dos mesmos que a cobram. Aliás, é importante fazer uma reflexão sobre a moral também. Você sabe o que é moral? Sabia que é um traço cultural? Tem culturas que tem uma moral bem mais rígida que nós, ocidentais. Tem coisas que não aceitamos que outras culturas aceitam, e coisas que não aceitamos e que outras aceitam, é assim. Aliás, o próprio livro do Coulanges nos explica como era o cotidiano político dos antigos povos mediterrâneos (gregos e romanos) pra nos mostrar como foi criado o Direito, as primeiras leis das cidades antigas. É um livro que recomendo muito, e bem atual.


Agora, pensando num campo mais macro.

Você manja de SimCity, aquele jogo de computador de construir cidade?
No jogo, o jogador era como prefeito de uma cidade. Como em qualquer jogo, existem dificuldades, eram elas furacões, enchentes, invasão alienígena e revoltas populares. As revoltas populares, se você não reprimia, se viralizavam e sua cidade acabava falindo, e você perdia o jogo.

No mundo real, o jogo continua, tem que continuar, porque as pessoas são de carne osso, e se sai um governo, entra outro.
Nesse documentário, que tá no Netflix, eles mostram a Primavera Árabe no Egito.

Eu lembro que em todo o doc, a gente vê pelo menos 3 governos passando. De uma ditadura pra outra. É possível, porque todo o povo acaba virando massa de manobra pra debilitar um Estado de Direito (é assim que se chama?), um governo democraticamente eleito, pra que outro grupo entre, beneficiando SEMPRE o grupo que entra a dominar.

A gente não se dá conta, porque esse tipo de controle se dá no campo informacional.
Usando uma analogia que um amigo usou esses dias pra mostrar a situação, imagine que vivemos em um condomínio e você é presidente do condomínio e eu tenho uma empresa que limpa esgotos. Aí você é casado e começa a sair com a minha irmã. E eu te chantageio, porque só eu, você e minha irmã sabemos que você trai a sua esposa, e por isso você vai contratar a minha empresa pra prestar serviços. Ninguém mais sabe desse acordo, e eu fico muito rico por ter essa informação valiosíssima sobre você.

Isso também poderia acontecer no campo da política internacional, sabendo tudo sobre contratos, fusões, e todo tipo de informação financeira sigilosa que pode fazer o dólar subir ou descer. E isso acontece, é só dar um chega nesse post que fiz sobre o doc que fala da NSA e do Edward Snowden (http://on.fb.me/1AdiCfv).

Passo 1: desestabilize um governo usando todo tipo de informação que provoque revoltas, crises sociais e econômicas.
Passo 2: é possível que o governo não ceda à pressão popular, e que justamente acusem à CIA e forças internacionais de mexer os pauzinhos (o Chávez sempre dizia isso). Aí você entra com os mercenários encobertos:

“A menos de que Estados Unidos decida retirar significativamente su participación militar en el extranjero o restablezca el servicio militar, la privatización de la guerra continuará siendo una tendencia.(…)
Esta tendencia está apareciendo lenta, pero seguramente. Un mundo de guerras privadas significa más guerra.”
Sean McFate, para Vice.

Essas empresas de mercenários tem ações na bolsa de valores. Isso significa que se as ações delas sobem e se valorizam em Wall Street, de certo modo é ótimo pros Estados Unidos, porque gera mais empregos, mais renda, o PIB sobe de novo. Ou não?


O momento que vive o Brasil é crucial. Vamos da frigideira pro fogo, essa é a sensação que tenho. E estamos criando uma oposição entre vizinhos e entre irmãos.
Talvez devêssemos pôr o Beto Richa pra presidente do Brasil.

Texto escrito para um post no Facebook, de 10/03/15.

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