Black Mirror (2011-)

Durante as últimas três semanas a série que mais vejo sendo comentada e indicada é Black Mirror, considerando o fato de que a série teve sua estreia em 2011 pelo canal Channel 4 poderia ser estranho ela estar sendo comentada como se estivesse sendo lançada agora, mas compreensível pelo detalhe de que quem possui seus direitos no momento é a Netflix.

Até o momento a série possui três temporadas, sendo que as duas primeiras são compostas apenas por três episódios e a última por seis, além de um episódio extra para o natal de 2014.

Toda a “propaganda” que eu li sobre Black Mirror é que era uma série que falava sobre a tecnologia, os problemas e riscos que ela poderia trazer para a humanidade, como pode interferir nas nossas relações, mudar a maneira como vemos o mundo… enfim, uma série sobre a tecnologia.

Ok.

Claro que a ambientação da maioria dos episódios nos dá a ideia de histórias que se passam em um futuro distante (ou nem tão distante) e que a tecnologia está bem envolvida com tudo isso, mas há um foco muito maior nos personagens, nas relações estabelecidas entre eles e eles com a tecnologia.

Não diria que Black Mirror é uma série sobre a tecnologia, mas sim sobre o comportamento humano, sobre nós mesmos. O problema não é a tecnologia, mas o que fazemos com ela, qual é o limite? Até onde vamos por likes nas fotos? Até que ponto podemos responsabilizar ou não responsabilizar as pessoas que fazem linchamento virtual, comentários de ódio, incentivo a violência?

O próprio nome da série já dá uma ideia de que vai refletir alguma coisa, Black Mirror ou espelho negro (?) e é o agora, mesmo que se fantasie de futuro as questões levantadas são atuais, um reflexo um pouco distorcido, pela silhueta talvez.

Vi a série enquanto lia Universo Desconstruído, um compilado de contos que também explora a tecnologia e seus avanços (mas isso seria uma outra discussão) e onde senti uma enorme influência das produções de Isaac Asimov, um senhor que é uma das principais referências (senão a principal) sobre a ficção cientifica. Influência que de certo modo também parece estar presente na série, uma visão que pessimista sobre o futuro, enquanto avançamos tanto em algumas questões, temos tanto suporte tecnológico, ainda estamos presos ao nosso passado, preconceitos, posse, ganancia, ódio, não considerar o outro…. (isso seria mais uma dica de leitura a quem se interessou pela série, a temática dela e quem sabe a abertura para um novo tópico de conversa)

Os 13 episódios não precisam ser assistidos em sequência, cada um trata de uma história própria sem ligação com a outra. Todas as histórias te deixam bastante reflexiva, algumas são muito atuais como a Nosedive (primeiro episódio da terceira temporada) onde a vida é controlada de acordo com a popularidade virtual, de acordo com os likes que recebidos (que vão de 0 à 5 estrelas), para você ter determinada casa tem que ter um número mínimo de popularidade, se você desce muita suas estrelas portas param de abrir pra você (literalmente, um personagem é impedido de entrar onde trabalha porque a porta da empresa abre com um número mínimo de popularidade), você deixa de ser alguém confiável se sua nota é muito baixa, as pessoas te evitam (e não é apenas Simpsons que prevê o futuro, Black Mirror me previu sendo a caminhoneira desse episódio); e outros parecem uma realidade bem distante como Be Right Back (primeiro episódio da segunda temporada) onde há um programa que simula a personalidade de um ente falecido, você conversa com o programa como se de fato estivesse conversando com a pessoa, o aplicativo faz uma compilação de informações e recria a personalidade de quem se quer, por meio de gravações de áudio e vídeo ele consegue até imitar a voz da pessoa e te colocar pra falar com ela por telefone.

Todas as histórias influenciam a questionar o limite, Nosedive a qual ponto a popularidade virtual, likes em foto, essa busca por impressionar os outros, demonstrar uma felicidade plena via redes sociais vai influenciar nossas vidas? Em Be Right Back até que ponto o avanço é bom, aceitável como “saudável”? E se não considerarmos saudável devemos controla-lo? Impedir isso?

Queria discorrer sobre cada episódio, comentar os personagens, sobre como eles me fizeram querer tacar meu celular na parede, tapar a câmera do meu computador e sair gritando pela rua que a tecnologia é assustadora, como o ser humano é um bicho assustador, mas seria um texto longo (as pessoas já reclamam de textão com umas dez linhas no Facebook) e recheado de spoilers porque seria muita tortura me conter.

Se com todo esse texto até aqui você ainda não sentiu uma vontade incontrolável de parar o que está fazendo (porque cê sabe que ficar descendo o Facebook uma hora fica bem tedioso e ninguém vai ler sobre a sua vida no Twitter), se com todos os comentários que estão sendo feitos pela internet você ainda não se convenceu ou se simplesmente não gosta ou evita assistir a série que todos estão vendo no momento… não serão os comentários sobre dois episódios que farei a seguir que vão te convencer, mas do alto das minhas séries assistidas os próximos episódios que vou comentar tratam-se de uma exigência para serem assistidos, eu queria espalhar a palavra desses episódios de porta em porta, mesmo que seja às 9h da manhã de um domingo de baixo desse sol de Goiânia.

Episódio 2 da 2º temporada — White Bear (18/02/2013)

Mini Sinopse: Uma mulher acorda num quarto sozinha, sem nenhuma lembrança pessoal e com fortes dores de cabeça, pela TV é transmitido um sinal estranho. Ela não demora a perceber que está numa sociedade bizarra cheia de perigos e telespectadores. aqui

Metade do episódio você passa tentando entender o que está acontecendo. A personagem principal tem apenas pequenos flashbacks sobre sua vida, um esposo, uma filha… ela não tem tempo pra tentar lembrar toda sua história, entender o que está acontecendo. Há os caçadores, pessoas que ficam andando para atormentar os outros, assustar e até matar, mascarados com armas sem nada para impedir o que eles estão fazendo. Há os telespectadores, pessoas que simplesmente filmam o que está acontecendo e não fazem nada para salvar a personagem principal, para explicar o que está acontecendo… esses telespectadores não interferem na violência que acontece.

No inicio eu achei que seria uma crítica sobre essas pessoas que ao invés de tomarem uma ação apenas gravam para postar no Facebook, cansei de ver vídeos de homens encochando meninas em transporte público e a pessoa só filmar enquanto deixa a menina ali naquela situação, vídeo de gente apanhando… a exploração da tragédia 24h online enquanto ninguém faz nada, como isso nos deixa um pouco anestesiados e começamos a achar aceitável esses vídeos passando por nossa timeline, muitas vezes acompanhados de algum discurso.

Ao fim acontece a famosa reviravolta (para não dar maior spoiler). No inicio do episódio sentimos pena da personagem, é horrível ver ela sendo caçada, seu desespero ali sem entender nada e tendo que fugir dessas pessoas que não têm impedimento em torturar alguém enquanto tudo isso é assistido pelas pessoas com seus celulares ao redor. É uma tortura, tanto pra gente quanto para o personagem. Mas em uma cena de menos de cinco minutos é possível destruir esse nosso sentimento pela personagem, partimos da raiva para o ódio, cheguei a ler em comentários que era merecido tudo que a personagem passava.

A série joga muito com o julgamento, com o limite e espera (ao menos eu espero) que gera uma reflexão em quem esteja assistindo. Quem somos nós para torturar alguém? Quem somos nós para aceitar a tortura de alguém e assistir a isso como um prêmio? Se concordamos com isso, se aceitarmos… o que nos separa dos “vilões”? Se você acha merecido a famosa justiça com as próprias mãos o que te diferencia da pessoa que “mereceu” apanhar até morrer, ou ser estuprado na cadeia por não sei quantos homens?

Episódio 3, da 3 º temporada — Shut Up and Dance (21/10/2016)

Mini Sinopse: Um vírus ataca um computador e seu usuário tem uma difícil escolha a fazer: executar as ordens que recebe ou ter sua intimidade exposta? aqui

Esse episódio é maravilhoso para quem já é paranoico com o computador, fica pensando nas possibilidades de alguma dessas propagandas que abrem sozinhas estarem invadindo o sistema, já pensa que um email estranho é algum querendo acessar seus dados, roubar suas senhas. É excelente para algum que tem certeza que se vai trocar de roupa na frente do computador vai ter o respectivo vídeo em algum site porno (porque as pessoas são estranhas e tem gente que gosta até de só ver pessoas se despindo).

Esse episódio trabalha com a mesma lógica do que eu tratei mais acima. Eles te incentivam a construir a imagem dos personagens, a criar afeição por eles, se colocar no lugar (se for parar pra relembrar todos temos ao menos um momento na frente da câmera do computador que se alguém expor vai ser o cumulo da sua vergonha).

Nesse não temos alguma espécie de tortura física, temos um adolescente que se masturbou na frente do computador e agora está sendo forçado a obedecer a uma série de mensagens se não quiser que esse vídeo venha a público. Acompanhando esse adolescente vemos que não é apenas ele que está sendo ameaçado, há uma série de outras pessoas que também estão sendo, que estão tendo que cumprir tarefas sem sentido.

O episódio é construído de um modo que você se identifique com os personagens, que pense que ali poderia estar sendo você sendo ameaçado seja por qual motivo. Torna humano o que nos desumanizamos, talvez porque seja muito difícil a gente realizar que o personagem dessa série podia ser nosso vizinho, seu amigo de escola.

Esses dois episódios levantam a questão de que nem todo mundo que anda assistindo esteja levantando essas questão, se perguntando o que torna justo você dar a sentença em alguém? Ao fim deles fui ler os comentários e estava recheado de gente falando que era merecido, que sentiam nojo e se fossem eles iriam fazer pior, o que remete ao Hated in the Nation (3x6–21/10/2016) e esse ódio que é destilado virtualmente, o incentivo a violência que fazemos em comentários de redes sociais.

Pra finalizar, de bônus coloco como indicação: The Entire History of You, nem toda a série é preenchida por episódios tão pesados como os que eu comentei, a episódios leves, mas todos de certo modo abordam algum tabu social.

Episódio 3, 1º temporada — The Entire History of You (18/12/2011). A história é sobre um casal, o homem em uma crise de ciúmes explora uma tecnologia que é acoplada na sua cabeça, lá reúne vídeos de toda sua existência, você pode assistir algo que aconteceu há 20 anos atrás, pausar, dar zoom em determinada cena, analisar tudo que preenche essa sua “memória”. Indico o episódio mais por apego emocional, ele me remeteu ineditamente ao Eternal sunshine of the spotless mind, enquanto no filme temos algo para apagar as memórias, na série elas estão ali pra sempre, podendo serem revistadas quando você quiser. E mais uma vez vem a questão de que não é a tecnologia, o problema não está nela, mas sim no modo como a usamos, em nossas relações. O episódio trata basicamente do ciúmes sem controle.

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