Você me desculpa se não fui. Me desculpa se não te disse o que você queria ouvir e se não consegui tomar ar pra dizer o que tava entalado na garganta.

Me desculpa se fui e parecia que tinha ido porque me senti na obrigação de estar lá.

Me desculpa se pareci sufocar, se sufoquei e não te disse, me desculpa se minha única reação era travar o maxilar e ficar monossilábica e ríspida.

Me desculpa se me mudei pro teu apartamento e não demonstrei como aquela primeira noite em meio a caixas e gatos pulando foi tão singular e como tentei gravar cada detalhe da tua voz, canto dos teus lábios quando você sorria. Se não deixei me flagrar enquanto observava tuas manias, te via toda manhã deixar um dedo de café frio na xícara pra terminar de se arrumar e depois de escovar os dentes, antes de bater a porta, virar ele como quem aceita uma penitencia da vida.

Me desculpa se fui mais medo que coragem, mais cautela que pulo no escuro.

Me desculpa por pegar na tua mão sem fechar os dedos com força, de te deixar apoiar em mim, mas preferir dormir com meu próprio travesseiro.

Me desculpa se enquanto sentia teu cheiro na minha roupa já pensava na despedida.

É que sou assim. Meio sem jeito, te quero já esperando que vá embora, torço pra não me comparar com as outras, mas te olho e te vejo indo embora como as que já foram.

Cê me entende?

É só medo.

Eu estava tão bem. Estava com tudo no lugar, lista de leitura, ingressos solitários para o cinema, fins de semana livres para fechar qualquer coisa que aparecesse. É que sou tão boa sozinha e tenho tanto medo de ser tão boa com alguém e quando acabar não conseguir ser tão boa sozinha quanto sou, não conseguir mais apoiar a cabeça no travesseiro ou sentir só o meu cheiro na minha roupa.

Meu problema não é me entregar, mas a volta.

Porque eu sei que se me entregasse, se fechasse minha mão na tua, se apoiasse minha cabeça em ti e me acostumasse a sentir segurança no teu cheiro na minha blusa eu seria tua. Faria o possivel pra você ver isso, cada parte minha iria te querer, te colocar no bolso, arrumar uma rotina que batesse com a tua e encaixar nossos jeitos, nossos livros na instante, nossos silêncios no meio dos domingos. E me assusta saber que amaria alguém assim, me assusta saber que seria preenchida com tudo isso e invadida, assusta pensar que deixaria de ser um eu pra ser um nós porque o que sobraria depois?

O que sobraria depois que essa invasão fosse embora? O que eu faria com o resto do que ficou? Entende? Eu seria tua mesmo sem acreditar que as pessoas se pertencem. O que eu faria quando você não entendesse a minha liberdade? O que eu faria quando você não conseguisse compreender que antes de tua eu seria minha e não confiasse na minha entrega por completo ao mesmo tempo que me pertenço?

O que eu faria quando você decidisse partir?

É por isso que não fui, por isso não demonstrei e nem apertei tua mão tão forte quando achei que fosse embora. Porque eu não saberia voltar a ser somente minha quando você fosse, tu ia ser um vendaval na minha vida e eu ficaria no meio da bagunça sozinha, você seria importante demais e quando fosse deixaria um vazio que eu não sei se teria como preencher.

Foi puro medo e insegurança de te ter e não saber seguir depois, me desculpa.

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