Dia 5: Faça uma lista de 5 coisas que você tenha medo de que aconteça a você. Escreva uma história em que cada uma delas aconteça com o seu personagem.

1.

Morgana tinha muito medo de se apaixonar e ter seu coração partido, todas as suas amigas já tinham passado por isso e parecia que era um ritual de iniciação na vida adolescente de toda e qualquer menina. Mas ela não, ela não tinha se apaixonado ainda, nem mesmo havia dado seu primeiro beijo, não podia dar um azar tão grande de na sua primeira vez acontecer justamente esse infortúnio. Não, não com ela. Ela calculava cada passo que dava com cada pessoa que conhecia, pra não ser carente demais e nem fria demais, pra não afastar e nem grudar ninguém a si. Prezava muito por sua liberdade e independência e pretendia continuar assim, não ia ser uma menina boba apaixonada igual as meninas do colégio. Não, ela era mais madura do que isso, mais forte, mais esperta.

Até que ela conheceu Júlia.

Júlia era uma menina baixinha, de cabelo enrolados e nariz pontudinho que parecia uma curva de pista de skate.

Uma menina doce, carinhosa, meiga, daquelas meninas típicas da nossa adolescência que parecem viver num mundo cor de rosa, no qual nada dá errado e tudo já tá destinado a ser maravilhoso.

Não havia uma pessoa sequer que não gostasse de Júlia. Não fazia sentido, não tinha porquê não gostar dela, ela sempre era muito gentil e educada com todos, pedia licença e dizia “obrigada”, “boa tarde”, “como vai?” sempre com um sorriso doce e afetuoso.

De cara ela se aproximou e gostou de Júlia, ficaram amigas, andavam para cima e para baixo por todo canto. Estudavam juntas literatura toda quarta-feira no grupo de leitura da escola, gostavam de pinturas, a Júlia preferia as renascentistas, enquanto Morgana sempre se admirou com as surrealistas.

Eram total e completamente diferentes uma da outra e ainda assim se descobriram melhores amigas.

Até que Júlia um dia disse que Morgana que estava apaixonada por ela e que não mais poderia ser só amiga, que não havia dito nada antes pois não sabia como Morgana receberia a notícia e se ficaria brava e se afastaria.

Morgana ficou confusa de início, pois não imaginava que sua melhor amiga a amasse de um modo diferente de como amava suas outras amigas. Não estava acostumada com casais lésbicos. Seu melhor amigo era gay, e ela nunca teve o menor problema com isso, mas não imaginava que pudesse acontecer com ela.

Os dias se passaram e elas continuaram tão próximas quanto antes, porém Morgana percebia crescer dentro de si um sentimento novo, desconhecido. Uma palpitação frenética quando sabia que encontraria Júlia, as vezes até uma leve dor de barriga, psicológica, nada demais.

Depois percebeu que um dia sem falar com Júlia era um dia vazio, sem cor, sem graça. E pouco a pouco foi se dando conta de que finalmente havia acontecido: estava apaixonada. No início teve medo, mas depois decidiu se declarar.

E foi como ela imaginava, elas ficaram juntas por 2 anos, iam para todos os lugares que dava vontade: parque, cinema, shopping, praia, faziam trilhas e dançavam juntas. Até na formatura elas foram em par, Morgana quis ir de smooking recriando a imagem de Frida na foto de família. Eram um casal lindo, todos estavam apaixonados por elas e muito felizes.

Até que chegou a tarde ensolarada de verão, pega de surpresa, ao se encontrarem para um picnic no parque no dia do aniversário de Júlia. Morgana havia planejado tudo, a comida, as flores, o presente, até a tela que tinha pintado durante o curso de pintura renascentista que fizeram juntas. Foi quando Júlia a olhou nos olhos com um olhar melancólico e disse a ela que teria que viajar, ia morar na França por conta do tão sonhado intercâmbio que tinha finalmente conseguido. Passaria dois anos fora e não queria prender Morgana numa relação a distância que elas nem sequer saberiam quando poderiam se ver.

Morgana engoliu o choro, abraçou-a e não tocou no assunto até o dia da despedida. Depois chegou em casa e chorou, chorou por uma semana inteira, sem intervalos. Não tinha mais apetite, não tinha vontade de sair, não queria visitar nenhum lugar que era delas sabendo que Júlia não estaria lá. Não tinha mais ânimo pra pintar, nem escrever e evitava os filmes de romance água com açúcar que seus amigos a chamavam pra assistir. Passou a odiar e praguejar cada casal apaixonado que passava por ela na rua e decidiu que nunca mais se apaixonaria outra vez.

Passaram-se dias.

Semanas.

Verões.

E num outono, ela conheceu Eduarda, e começou tudo outra vez.

2.

Era um dia normal como qualquer outro, eu acordei, fui ao banheiro, mijei e lavei o rosto como de costume, desci pra tomar o café e dei bom dia pra minha mãe. ela ignorou. não entendi e repeti, e ela continuou sem responder. balancei a mão na frente dela e nada, até apelei pra assoprar o ouvido e nem isso chamou a atenção dela. aí resolvi dar um susto nela e quando gritei ela permaneceu imóvel, parecia que não estava me vendo. tentei tocá-la, ela não pareceu sentir. comecei a me desesperar, seria algum tipo de brincadeira? mas ela não conseguiria disfarçar o incômodo com essas implicâncias, elas costumavam ser certeiras com ela. fui até a geladeira buscar um iogurte, mas ao tentar pegar eu não conseguia segurar nele, era como se eu fosse algum tipo de fantasma que não conseguia tocar e nem ser vista, mas que estava ali presenciando tudo como sempre. não conseguia me comunicar com ninguém, ninguém me via ou ouvia, ninguém sequer sentia minha presença. e não era como se eu fosse um desses fantasmas zombeteiros que arrastam correntes e conseguem fazer barulhos pra assustar as pessoas, desses que a gente vê em filmes de terror pastelão. nem isso eu conseguia fazer. comecei a me desesperar, tentei berrar, empurrar as pessoas, derrubar coisas, bater portas, janelas, tentei até me comunicar com meu cachorro, mas nem ele parecia me ver. será que eu morri e não sei? e pior, ninguém percebeu, ninguém parecia dar por minha falta. será que eu sou tão desimportante assim? será possível que ninguém parou pra se perguntar onde eu estou e o que estou fazendo que até agora eu não apareci ainda? ninguém foi me procurar, nem uma pessoa sequer. é como se eu nunca tivesse existido. como se tivesse sido apagada do mundo e comigo todo o registro de qualquer participação minha na memória de todas as pessoas que convivi. minha família não sentia minha falta, meus amigos tampouco, nem meu cachorro! que golpe pesado esse, nunca pensei que pudesse me sentir tão sozinha e tão triste como estou agora… acho que vou pro meu quarto, ao menos lá eu me sinto em paz, no meu lugarzinho pessoal, único, se é que ele ainda existe né? porque se eu tiver sido apagada da face da terra então provavelmente meu quarto também foi! flutuei pelas escadas e ao chegar lá me deparei com a cena que eu menos esperava… eu estava lá! de carne e osso! deitada na cama, dormindo, até chequei minha respiração pra saber se havia mesmo morrido durante o sono, e não havia, estava lá, respirando suavemente durante o sono. foi quando me dei conta, todas as vezes que escutei que durante o sono nosso espírito levanta e sai vagando por aí pra voltar pouco antes de acordarmos pode ser verdade! só que alguma coisa obviamente deu errado, porque não era pra eu ter consciência disso, ou era? a gente nunca lembra dessas coisas, ou então elas ficam bem guardadas no nosso inconsciente de modo que não podemos acessar… sei que agora só me resta a espera angustiante do despertar para saber.

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