Dia 4: Pense em uma palavra qualquer e pesquise imagens no Google sobre ela. Escreva uma história sobre a 7ª imagem.

Então eu resolvi pesquisar a palavra “bissexual” no google imagens porque é uma questão que me inquieta há algum tempo sobre mim mesma e que eu só me permiti viver há 2 anos.

A minha vida amorosa não é muito longa, eu comecei tarde, os pequenos flertes, paixões platônicas e aqueles casos de paixonite aguda da adolescência foram poucos, acho que posso resumir mesmo em dois, os dois foram homens.

Eu nunca me peguei pensando numa menina como pensava num menino. Quando mais nova eu achava muitas meninas bonitas, inteligentes, charmosas, simpáticas etc etc etc mas nunca pensei que isso pudesse ir além de uma amizade, afinidade ou admiração mesmo. Eu tinha paixões platônicas por mulheres famosas e costumava brincar sobre isso, não levava muito a sério, afinal de contas elas eram completamente impossíveis pra minha realidade então nem precisava pensar muito nisso.

Professoras eu não tive como paixões, e professor eu só tive um, no pré-vestibular, completamente platônico que só de pensar em tentar de fato algo concreto já me dava embrulho no estômago e desespero imediato. Então acho que esse tipo de paixão não conta muito pra influenciar nisso.

Na faculdade que eu comecei a ter mais consciência da minha atração por mulheres tão intensa e possível quanto por homens, mas sempre adiava a experiência e sempre enterrava numa gavetinha escondida e não contava pra ninguém. Não sei se por medo, vergonha ou desconhecimento mesmo. Eu nunca tive uma referência real no meu convívio de alguém que fosse bissexual. Eu sabia que existiam pessoas assim, pessoas famosas e pessoas comuns, mas não tinha contato com ninguém.

Na verdade, até pessoas homossexuais eu não tinha contato. No Colégio até tinha um ou dois meninos que todo mundo desconfiava que fossem gays mas que não eram assumidos, hoje, por acaso, eles são. Mas meninas não, não me lembro. Então era praticamente como se não existisse a remota possibilidade disso acontecer comigo. Não fazia parte do meu dia a dia mesmo.

Na faculdade o ambiente muda bastante, conheci muitas pessoas homossexuais e bissexuais, de diferentes experiências e compreensões sobre a sexualidade, e aí comecei a me questionar sobre isso, mas engatava uma relação após outra com homens e sempre deixava pra pensar nisso depois.

Até que depois de terminar meu namoro a distância decidi que ficaria um tempo sem namorar sério com ninguém porque queria esse tempo pra explorar e me conhecer melhor, e foi aí que abri a opção “mulheres” no tinder, e também em mim mesma.

Fiquei com algumas meninas, um beijo em festa ou coisa assim, gostei e vi que aquele beijo era tão bom e tão atraente quanto os beijos que eu tinha dado em homens tinham sido.

E aí conheci uma mulher que acredito ter me apaixonado por um curto período de tempo, uma pessoa incrível, inteligente, que era tanto do mundo das biológicas como das artes, feminista como eu e que teve toda paciência do mundo com uma pessoa que estava assustada e ao mesmo tempo curiosa em se redescobrir. Foi uma das melhores experiências da minha vida e foi decisiva pra me fazer entender que gostar, me apaixonar, me atrair e amar mulheres era algo não só possível como real pra mim. Eu passei a ser a minha própria referência nesse sentido.

Mas não é tão simples, ser uma pessoa que se atrai por outras independente do gênero é algo muito complexo, tanto pros outros que estão de fora da situação como pra mim. É difícil aceitar que eu não preciso me definir o tempo todo e que eu não preciso provar nada pra ninguém. Que hoje eu posso amar um homem e me relacionar com ele e que daqui há um mês ou um ano ou sei lá quanto tempo eu posso me encontrar apaixonada por uma mulher e viver uma relação intensa com ela.

É interessante pra mim descobrir o sexo com ambos, compreender o que me agrada, me dá prazer e o que eu não gosto tanto com homens quanto com mulheres. As pessoas costumam me perguntar qual é melhor ou qual eu prefiro e eu sinceramente não vejo muito sentido nisso, não sei responder essas perguntas, porque eu compreendo uma experiência como boa ou ruim dependendo do nível de intimidade e reciprocidade com a pessoa e não acredito que seu gênero importe muito nesse caso.

Eu ainda estou lutando pra aceitar a minha sexualidade do jeito que ela é, afinal ela também é uma novidade e uma constante descoberta pra mim. Ainda luto pra não me colocar em caixinhas e prisões de com quem eu devo me relacionar e simplesmente deixar as coisas fluírem. Ainda luto pra entender que não devo satisfação alguma a quem quer que seja sobre por quem eu me apaixono ou não. Ainda luto pra entender que eu não preciso escolher um ou outro e que isso não me torna mais ou menos vulgar do que as outras pessoas.

A jornada me parece bem longa, mas aos poucos estou percebendo que cada passo dela importa muito e deve ser aproveitado e vivido intensamente e não só a expectativa de chegar ao final.

Compreender e amar a mim mesma tem a ver com me permitir viver todas essas experiências livremente e despreocupadamente e também a dizer “não” pra pessoas que querem interferir e me definir contra a minha vontade.

Demora, é longo, mas o importante é que eu já comecei.

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