Jovens brasileiros apresentam posicionamento político bem definido

Reportagem entrevistou 500 jovens, entre 16 e 29 anos. 78% afirmam possuir ideologia política determinada.

Texto: Aristoteles Junior e Paula Estivalet

Foto: Marri Nogueira/Agência Senado/Creative Commons

A s Eleições 2016 marcaram o maior número de eleitores da história do país: 144 milhões de brasileiros estiveram aptos a votar, um aumento de 5,5 milhões desde 2012, ano do último pleito municipal. Na contramão deste cenário, o número de votos nulos e brancos bateu recorde. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Porto Alegre, a soma dos votos brancos (46.537), nulos (109.693) e das abstenções (277.521) foi de 433.751, número 31.586 maior que os votos recebidos pelo prefeito eleito, Nelson Marchezan Júnior (PSDB).

A capital gaúcha teve a menor taxa de adolescentes aptos a votar na última eleição (apenas 0,33% do eleitorado tinha 16 ou 17 anos, quando o voto é facultativo). No Rio Grande do Sul, também houve queda de 32% no número de eleitores dessa faixa etária desde 2012. O cenário nacional também é preocupante: de 2012 para cá, caiu em 591 mil o número de eleitores com idades entre 16 e 17 anos.

A reportagem ouviu 500 jovens, através de um formulário na internet, e em duas escolas públicas da capital gaúcha: o Colégio Estadual Júlio de Castilhos, localizado no bairro Santana, e o Colégio Estadual Padre Rambo, no bairro Partenon. Apesar das estatísticas alarmantes, os resultados mostram uma geração que não possui medo de se posicionar politicamente: 78% dos entrevistados afirmam possuir ideologia política definida.

“É importante estar sempre ligado no que está acontecendo na política do teu país e na política mundial”, conta a estudante de medicina Carolina Oliveira, de 21 anos. Assim como ela, a grande maioria dos jovens entrevistados se informa sobre política. A grande preferência da geração é pela internet, com redes sociais e portais de notícias liderando o ranking.

O cientista político José Henrique Westphalen enxerga um subaproveitamento da tecnologia, por parte das instituições políticas. “Os partidos continuam arcaicos e amadores, quando se fala no relacionamento interpessoal via internet. Então o jovem, que já nasceu conectado, entra na política sem relação com um partido, ou uma ideologia. Ele se conecta com uma pessoa”, afirma.

Westphalen considera o deputado estadual Marcel Van Hattem (PP/RS) como um exemplo de político que sabe trabalhar a sua imagem na internet. Este trabalho atrai os eleitores mais jovens para a sua base eleitoral. “Ele é muito coerente na sua posição política, e transmite ela de forma muito clara nas redes sociais. Quem se identifica com os ideais que ele apresenta acaba o apoiando, independentemente do partido”, diz.

“Em casa, finjo não me interessar por política. Mas, na rua, discuto bastante e participo de movimentos sociais”

Enquanto isso, as diferenças entre os jovens e suas famílias continuam representando um obstáculo na busca de informações e engajamento político. Este é o caso de Maria Isabel Bittencourt, de 19 anos. Ela e sua mãe possuem visões completamente diferentes. “Ela é favorável ao (Deputado Federal Jair) Bolsonaro, por exemplo”, conta. A ausência de diálogo em casa não impede Maria de expor as suas opiniões. “Em casa, finjo não me interessar por política. Mas, na rua, discuto bastante e participo de movimentos sociais”, afirma.

“Eu e minha família concordamos sobre os nossos posicionamentos, conversamos e debatemos sobre política e temos uma visão muito parecida”, relata o estudante de direito João Vitor Flores, de 18 anos. Seu interesse pelo cenário político foi precoce e provocado por sua mãe, que o levava em comícios desde seus 6 anos.

Contudo, Flores ainda se preocupa com seus núcleos de amizade, evita postagens polêmicas nas suas redes sociais. “Há pessoas que não sabem separar a questão política da questão pessoal/amizade”, considera. Hoje, para não pessoalizar as questões político-partidárias, João deixa de adicionar muitos amigos em seus círculos virtuais.

“Em todo ambiente de crise há um acirramento de determinadas posições. Principalmente quando dois grupos políticos muito fortes colocam-se um contra o outro”, lembra Westphalen. Desde os protestos realizados em julho de 2013, as redes sociais se tornaram ainda mais fundamentais para o cenário político nacional. Lá, articulam-se protestos e ocupações, como as que pautavam o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) e o fim da PEC 55, proposta pelo presidente Michel Temer (PMDB). O cientista político ressalta, contudo, que a imensa maioria dos usuários não possui este engajamento político. “Estes movimentos representam menos de 5% da população”, categoriza.

Os dados coletados mostram que as mulheres discutem mais sobre o tema. “Acho importante que exista esse debate. Não acho que a discussão, em si, atrapalhe. Mas sim as pessoas desinformadas que tentam opinar sobre algo que elas não sabem”, pontua Carolina.

55% dos jovens entrevistados engrossaram a massa de votos brancos, nulos e abstenções no segundo turno das Eleições 2016, em Porto Alegre. O discurso, contudo, não é de omissão, mas sim de oposição. O desejo de mudança e insatisfação com a atual situação do Brasil é a cara desta geração, que se informa mais, discute mais e luta mais do que seus pais.

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