O passado está mais oco,
e o presente mais opaco.
translúcida construção civilizatória,
em que o eco de muitos gritos e palavras
documentos de processos, conflitos e passagens
estão agora suprimidos em escombros.
somos filhos órfãos da própria história,
primeiro apaga-se o patrimônio indígena,
depois desconsidera-se os negros,
mais tarde os imigrantes pobres e camponeses,
e, por ironia, o fogo chegara também no tesouro imperial.
permanecemos órfãos de um passado esquizofrênico,
de muitas caras, versões e perspectivas,
e nosso corpo é um corpo sem nome, indentidade, solitário, de formação confusa e deturpada.
o tempo perceptível roeu as estruturas,
que roeu a própria marca e deu adeus ao mundo.
abandonou a condição de história,
tornou-se cinza.
todo o pó que viemos e todo pó que seremos,
o que há no meio disso tudo ninguém mais sabe,
nossa história, meus caros,
está carbonizada.
03/09/2018
Pelas ruínas do Museu Nacional da UFRJ.
