Vik Muniz abrirá escola inovadora em morro carioca

Artista Plástico quer alfabetizar as crianças do Vidigal “sem matar a criatividade”

No meio de tanta notícia ruim, nesse momento difícil do Brasil, é muito bom saber que tem gente trabalhando e investindo para garantir um futuro melhor para as próximas gerações. É o caso do artista plástico Vik Muniz, conhecido mundialmente por usar em suas obras materiais inusitados como lixo, açúcar e chocolate, que está construindo uma escola de artes e tecnologia para crianças carentes no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

Os rostos das crianças do Vidigal em instação do artista francês JR

O projeto surgiu a partir da teoria da alfabetização visual. Essa teoria diz que quando a criança inicia a alfabetização, ela começa a construir uma linguagem simbólica e para um pouco de desenhar, de mexer com massinha e outros elementos criativos. É quando você passa a ligar o lado esquerdo do cérebro mais do que o direito. A ideia da alfabetização visual é manter os dois lados crescendo em paralelo, mantendo a importância da base abstrata mesmo com essa nova linguagem simbólica que está chegando.

Vik e a aula de alfabetização visual

“Eu sei que essa período dos quatro aos oito anos pode ser traumático e definidor. No início do aprendizado a criança entra num mundo de signos. Para mim, esse momento de troca simbólica deve passar pelo visual, pela imagem”, afirma o artista plástico.

A estrutura conta com dois prédios em um dos pontos mais conhecidos do morro, o “Arvrão”, local com uma espetacular vista do mar. Apesar de ser um projeto arquitetônico de uma arquiteta americana, as construções com acabamento em tijolos e ferros cor de cobre aparentes, se mesclaram com naturalidade na paisagem local. Em um dos prédios funcionará o Laboratório Pedagógico, que oferecerá residência para voluntários e professores brasileiros e internacionais participantes, e uma Plataforma Web que servirá para compartilhamento de experiências. Tudo que for realizado na Escola será filmado e disponibilizado na Internet pra que professores do mundo inteiro possam replicar em suas salas de aula.

“Essa plataforma nos dá uma condição de mão dupla. Vai servir tanto para promover e trazer pessoas com ideias novas e interessantes para perto do projeto, quanto para mostrar para um outro grupo, interessado em desenvolver um trabalho em outro local, o que e como estamos fazendo as coisas aqui dentro”, explica Fábio Ghivelder, diretor do Studio Vik Muniz no Rio de Janeiro.

No terraço do Laboratório Pedagógico

É no segundo prédio, do outro lado da rua, que acontecem as aulas, onde os educadores desenvolveram um conceito mais abrangente a partir da teoria de alfabetização visual, chamado de alfabetização multipla. Ele consiste em desenvolver as crianças do ponto de vista visual, musical, emocional e digital. Para o desenvolvimento desse método de ensino, eles contaram com a participação de Edith Akermann, do Lifelong Kindergarden do MIT (Massachusetts Institute of Technology), da Blue School de Nova Iorque, da Green School de Bali e de Sir Ken Robinson, que ficou conhecido pela palestra “Do schools kill creativity?”, a mais assistida até hoje no site TED. Além disso, a UNESCO vem ajudando com orientações estruturais e acompanhando todo o desenvolvimento do projeto.

Descobrindo novas formas de se expressar

“A Escola do Vidigal não é uma escola de formação, é uma escola de orientação, um curso complementar que as crianças vão fazer antes ou após as aulas tradicionais. Nosso objetivo principal não é formar artistas. Queremos oferecer uma bagagem pra essas crianças terem ferramentas para resolver problemas e viver melhor”, diz Fábio.

Por isso mesmo que a parceria mais festejada por Vik e Fábio é com a Dona Zezé, a responsável pela Mini Creche Santo Amaro, no alto do Vidigal. “Sem dúvida, essa é associação mais importante que a gente fez. A Zezé é uma senhora incrível e muito querida por toda a comunidade. Ela facilitou muito a nossa relação com pais e alunos e aumentou o interesse pelo que a gente tá construindo ali”, conta Fábio.

São justamente os alunos da creche da Dona Zezé que participaram dos três dias de “aulas-teste” realizados e que formarão as primeiras turmas da Escola Vidigal. Serão quatro turmas de 15 alunos cada uma. As aulas acontecerão de segunda a sexta-feira nos turnos da manhã e da tarde.

Galera orgulhosa e animada

“Vamos ter duas horas de intervalo entre os dois turnos, que vão servir para a integração dos professores e troca de experiência entre pessoas envolvidas nas aulas. Existe ainda a intenção de abrir a escola, durante o tempo ocioso, para outros projetos sociais e culturais, já que existe uma comunidade criativa muito vibrante no Vidigal”, diz Fábio.

Até esse momento, a Escola foi 100% financiada pelo Vik, mas o projeto acaba de ser aprovado na Lei Rouanet e assim terá maior facilidade em buscar o apoio da iniciativa privada. Eles precisam de um provedor de internet, como parceiro estratégico, para o bom funcionamento da Plataforma Web e buscam outros dois ou três patrocinadores para viabilizarem todo o planejado para a inauguração ainda no primeiro semestre de 2016.

“Já trabalhei na recuperação de adolescentes, mas agora vamos fazer um trabalho preventivo, ajudar na formação deles. Ao invés de deixar as crianças em casa assistindo a desenho e jogando videogame, vamos ensiná-las a criá-los, explica Vik antes de concluir que “Uma criança que começa a ser estimulada cedo é capaz de fazer qualquer coisa. Quero contribuir para uma mudança na cara da educação contemporânea, que se preocupa mais em produzir consumidores que criadores.”

Desenvolvendo a percepção do mundo

Se a solução para os nossos problemas passa obrigatoriamente pela educação, precisaremos muito de pessoas e projetos como esses por aí, propondo soluções inovadoras para desenvolver os pequenos brasileiros.

Nesse vídeo, do projeto Fonte da Juventude, realizado pelo Novos Urbanos — Lab Inovação Social em parceria com o Vik Muniz, vocês poderão ver uma amostra de tudo que foi dito aqui.