Sobre o extermínio

Os Estados Unidos celebraram recentemente o Dia de Ação de Graças. Como inúmeros filmes já nos mostraram, trata-se de um feriado em que os norte-americanos agradecem pelos bons acontecimentos do ano na presença de amigos e familiares. A confraternização geralmente se dá à mesa e o peru faz as vezes de prato principal. Só em 2015, estima-se que 46 milhões de aves morreram para honrar a tradição. Num único dia e num único país, 46 milhões de aves… Reflita um instante sobre o quão gigantesco é o número. Pense também no quanto a matança deverá crescer se considerarmos a infinidade de perus — e de frangos, bois, peixes, cordeiros, porcos — que o mundo irá abocanhar durante o Natal e o Réveillon. Procure tornar a cifra bem palpável. Uma ajuda: a Espanha abriga hoje 46 milhões de habitantes. Em questão de horas, portanto, o “Thanksgiving Day” devora uma Espanha inteira.

“Que comparação idiota!”, reclamarão muitos. “São apenas perus, não espanhóis.” Sem dúvida, apenas perus… Mas por que valeriam tão menos que espanhóis — ou holandeses, canadenses, indianos, paraguaios, brasileiros? Por que não gozam da comiseração e das imunidades com que blindamos cães, gatos e outros animais de estimação? O que define a importância de cada ser vivo? Que pré-requisitos garantem às criaturas o direito de ter proteção: o fato de sentirem dor e medo? De ansiarem desde o nascimento por liberdade? De zelarem pelas crias? De se afeiçoarem à própria existência? Segundo tais critérios, que me parecem nobilíssimos, não há nenhuma diferença entre nós, humanos, e os bichos que costumamos matar. Então por que ainda julgamos moralmente defensável apreciá-los mortos em almoços e jantares que pretendem festejar a vida?

Texto publicado originalmente no Blog das Perguntas

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