Brasil 2014: bolso pra que te quero!

Armando Júnior
Sep 9, 2018 · 4 min read

A espera acabou?! Longos sessenta e quatro anos depois de ter sediado uma Copa, o Brasil ganhou enfim o direito de comandar a organização do segundo maior evento esportivo do mundo. Anunciado como país sede em 2014, o país do futebol vêm dando verdadeiros vexames fora das quatro linhas.

Atrasos em construções de estádios, de estradas, de portos/aeroportos, de hotéis, dentre outras, colocam em xeque a real competência dos governos locais em gerir obras de tamanho porte.

Incompetência ou falta de vontade? Para a FIFA, entidade maior do esporte, não importa se é A ou B. Em maio a organização se revelou preocupada com o andamento das obras e chegou a cogitar, pela primeira vez, a “cortar” cidades que não estejam se esforçando para melhorar sua infraestrutura.

Perdido em décadas de defasagem estrutural/tecnológica, em outubro de 2007 quando se firmou como sede do mundial, os brasileiros se viram diante de uma oportunidade inadiável para enfim fazer do Brasil o país do “presente”. Passaram-se quatro anos e nada foi feito.

Em reportagem da revista inglesa The Economist, de maio de 2011, a organização local é posta à prova. Segundo a revista, o país pagará um preço alto para sediar o mundial. São Paulo e seu governo são criticados pela falta de capacidade de promover melhorias em sua infraestrutura.

Prova da evidente falta de vontade dos governos é a situação do estado mais rico do país. Paulistas concentram cerca de 30% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil e em maio de 2011 sequer tinham definido qual estádio representaria o estado no mundial. Fruto de tantos atrasos é que “sampa não será uma das sedes da Copa das Confederações, em 2013. A reportagem ainda revela que o Maracanã se transformou, palavras da The Economist, um “engolidor de dinheiro”.

A situação mais grave parece estar se direcionando para as regiões Norte e Nordeste. Nenhum dos estados ( Amazonas, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco), apresenta bom desenvolvimento das obras que estão previstas.

Segundo o IPEA ( Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), das treze obras em aeroportos planejadas, apenas três ficariam prontas para 2014. Ainda segundo o Instituto, o tempo médio que o Brasil leva para implementar obras de transporte, desde o projeto até a entrega final, é de sete anos, mas faltam menos de três para os jogos.

Com poucas obras dentro do cronograma, o país já foi inúmeras vezes advertido pela FIFA. O executivo maior, Joseph Blatter revelou que “o Brasil não está pronto para a Copa do Mundo. Não deveria ser dito, mas é um fato. Gostaria de explicar aos meus colegas brasileiros que a Copa do Mundo é amanhã, porque eles pensam que é justo depois de amanhã”, disse.

Em meio à turbulências que não acabam mais, até a Presidenta parece ter entrado na “onda” do improviso. Em junho, Dilma Rousseff encaminhou ao congresso brasileiro uma medida provisória na tentativa de acelerar os projetos para a Copa (a MP previa o sigilo no orçamento de algumas obras). Segundo a oposição tal medida serviria para facilitar o desvio de verba pública. “Com a necessidade de se cumprir as entregas das obras, que são improrrogáveis, as empresas acabam adotando aditivos contratuais e os governos se veem obrigados a liberar verbas com dispensa de licitação. Tudo isso provoca o encarecimento das obras e mesmo assim não garante a qualidade nos equipamentos construídos”, disse o presidente do Crea-RJ (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro).

Afundado em questionamentos morosos o Brasil continua o mesmo, preso no passado. Se preocupa muito mais com o quanto que vai gastar do que com a qualidade dos investimentos. Já que parece inevitável gastos exorbitantes a palavra de ordem deveria ser qualidade, a fim de evitar que grandes obras fiquem ao relento depois do evento. Experiência nós temos para evitar “elefantes brancos”. Após os Jogos Pan-americanos de 2007, realizados na cidade do Rio de Janeiro, o que mais se viu foram obras a serviço do nada. A arena que sediou jogos de basquete e ginástica no Pan hoje serve muito mais como palco de espetáculos artísticos do que como sede de eventos esportivos, seu real propósito de construção.

Pelo visto a experiência não acrescentou em nada para o Comitê Organizador comandado pelo excelentíssimo senhor presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Ricardo Teixeira, “afogado” em acusações de corrupção “mundo a fora”. A arena da Amazônia, como está sendo chamado o estádio da cidade de Manaus, custará cerca de R$500 000 000 e, servirá após a competição como centro de shows e afins para a região. O mesmo destino será dado a chamada arena Pantanal, com sede em Cuiabá. Custo da construção: R$ 463 000 000, até agora.

Com uma economia latejante, não dá para negar que o Brasil está perdendo o “fio da meada”. O que seria uma ótima oportunidade para serem efetuados investimentos de médio/longo prazo, essenciais ao desenvolvimento do país, está se transformando na verdade em um imenso antro de corrupção. Segundo Sérgio Magalhães, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), a ausência de discussões pela sociedade tem induzido a decisões centradas, autocratas, pouco transparentes, que ignoram a identidade cultural e a representatividade coletiva de cada cidade-sede, indo na contramão da tendência nas principais metrópoles mundiais. Os eventos deveriam gerar debate, de onde surgem as melhores propostas.

Contudo, cabe-nos nesse momento fiscalizar e acima de tudo cobrar para que daqui para frente haja melhores planejamentos em investimentos, centrando-se principalmente na qualidade e funcionalidade dessas obras num âmbito social arraigado em desleixo por parte tanto dos governos quanto da população. Que a Copa vai acontecer, não resta dúvida. O velho “jeitinho brasileiro” é o que fala mais alto. O questionamento a ser feito é: os benefícios deixados por ela serão equivalentes aos gastos empregados para realizá-la? Em breve teremos a resposta.

Texto produzido em 2011, para a disciplina de português, no ensino médio.

Armando Júnior

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