Literatura policial brasileira: falta entender que a polícia é o que menos importa
Não são raras as vezes em que tais questões surgem: por que o Brasil não tem tradição em literatura policial? Por que há poucos bons livros policiais brasileiros? Onde estão os romances policiais brasileiros? Já adianto que a visão de que o Brasil é o túmulo da literatura policial é, no mínimo, preguiçosa. Poderia elencar aqui uma dezena de grandes autores nacionais do gênero e outra de novos autores brasileiros talentosos, ainda desconhecidos, mas deixarei para outra ocasião. Talvez não haja dúvida, porém, que o brasileiro consome muito mais ficção policial estrangeira — basta abrir o catálogo do Netflix ou fazer uma breve pesquisa nos mais vendidos de qualquer livraria virtual para se certificar disso.
Seria correto dizer, portanto, que o brasileiro rejeita o que é produzido aqui em matéria de ficção policial ou qualquer que seja a narrativa de mistério? Talvez haja certo preconceito, é verdade, mas nunca é demais lembrar que o mais bem-sucedido produto de ficção brasileira, exportado para todo mundo, adora flertar com o gênero. A novela televisiva traz com certa frequência para o último capítulo a célebre pergunta “quem matou?”. À época da exibição de Vale Tudo, o Brasil parou para descobrir quem matou Odete Roitman. Poucos anos depois, o grande mistério era o assassino de A Próxima Vítima. E tem mais: quem explodiu o shopping em Torre de Babel? E quem era a verdadeira assassina em A Favorita: Flora ou Donatela? (Spoiler: era a Patrícia Pillar.) Há outros exemplos, certamente, mas acho que já basta para mostrar que o brasileiro é bem chegado a um suspense.
Mas por que, afinal, é preciso importar tantos livros, séries e filmes policiais para agradar nosso público? Acredito que haja certo receio tanto em consumir como em produzir ficção policial no Brasil e o motivo me parece claro: no mundo real, polícia e investigação são, inacreditavelmente, palavras que não combinam.
É o que mostra um estudo publicado pelo Instituto Sou da Paz no ano passado. Há no país um baixíssimo índice de esclarecimento de homicídios. O instituto pediu para todos os Estados enviarem informações sobre o número de casos solucionados e, para começar, apenas seis mandaram dados. Nesses, os números não eram nada animadores. Em São Paulo, suspeitos foram denunciados pelo Ministério Público — quando o caso entra na esfera do Judiciário — em apenas 38,6% dos casos de assassinatos. No Rio de Janeiro esse número cai para 11,8% e, no Pará, para 4,3% (só para ilustrar, escrevo 173 dias depois da morte de Marielle Franco e, até agora, nada). Nos Estados Unidos, dos casos de homicídios ocorridos entre 1965 e 2016, 66,54% foram solucionados. No Canadá, de 1961 a 2010, a média sempre esteve acima dos 70% e em um ano chegou a 95%.
Os dados nacionais revelam quão grave é o problema da impunidade. Se você matar alguém aqui, a chance de se safar é altíssima (não entenda isso como uma dica, por favor). Segundo o Instituto Sou da Paz, a causa está na fragilidade das provas apresentadas, problema por sua vez originado por uma série de fatores, tais como “a preponderância de investimentos públicos no policiamento ostensivo, a escassez de servidores nas polícias civis e técnico-científicas e condições ruins de trabalho, que desembocam na precariedade de procedimentos técnico-periciais chave, tais como a delimitação, isolamento e preservação dos locais de crime”. Não se pode omitir ainda que o número de homicídios por ano no país já chega a 60 mil. De fato, seria preciso muito mais investimento para investigar tudo isso.
Tal realidade acima apresentada contribui muito para a formação de uma imagem negativa da polícia brasileira. Se tem uma imagem que as corporações não passam à população é a de inteligência. A polícia brasileira é muitas vezes vista como violenta e corrupta e, mesmo quando exaltada, nunca é a inteligência que está em questão, mas sim a força e a capacidade de enfrentamento dos criminosos. A questão, é bom que se diga, não está no nível dos agentes propriamente, mas parece ser muito mais um problema estrutural.
Ora, a polícia que aparece na ficção policial precisa ser inteligente. O detetive precisa ter bom raciocínio lógico dedutivo e saber entrar na mente dos investigados para formular hipóteses. Precisa ainda do auxílio técnico-científico para provas periciais. Precisa de um banco de dados para cruzar informações. Precisa, sobretudo, de tempo disponível para se debruçar sobre o caso. O que o detetive definitivamente não precisa ser é forte, bom de briga, uma metralhadora ambulante. Pode até ser, mas isso não é fundamental.
Aí está a grande questão: como apresentar ao público um protagonista que não representa lá muito bem a realidade dos “protagonistas” da vida real?
Um dos caminhos mais adotados é a construção de um detetive que se diferencie de seus pares, seja pela capacidade intelectual ou pelos princípios morais, e lute contra as estruturas para levar a cabo uma investigação que, se não fosse por seu esforço pessoal, possivelmente seria arquivada. É um detetive geralmente imerso em um ambiente que lhe é hostil, por exemplo, uma delegacia onde nada funciona.
Outro caminho óbvio, embora ainda haja dificuldade em entender isso, é ter um protagonista que não é policial e não tem qualquer relação com a polícia. Pode ser, por exemplo, um parente da vítima, o que aliás já acontece muito no Brasil tendo em vista o panorama exposto acima. Amigos e familiares da pessoa assassinada juntam esforços e, à margem da polícia, vão atrás de testemunhas, câmeras e o que mais for preciso para elucidar o crime. O detetive pode ser qualquer pessoa que receba a motivação para esclarecer o homicídio. É claro que algo precisa ficar explicado ao leitor/espectador: por que uma pessoa comum está fazendo o trabalho da polícia? Motivos não faltam. Na literatura, são inúmeros os detetives não-policiais de sucesso. Dentre os meus favoritos estão Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, o jornalista e a hacker da trilogia Millenium (e olha que estamos falando da Suécia, onde, imagino, a polícia local não tenha os mesmos problemas que a nossa).
Mas a grande questão a se compreender — e isso vale tanto para escritores e produtores como para o público — é que ficção sempre será ficção e não há problema algum se a polícia retratada no livro, série, filme ou novela for completamente diferente daquela com a qual convivemos. Ficção policial não tem a obrigação de ser estudo sociológico sobre a polícia local, nem uma radiografia das forças de segurança nacionais. A obsessão de quem produz de tratar a “realidade tal como ela é” como a de quem consome de ter acesso a essa mesma “realidade” esquece o básico: ficção é criação imaginária. Ficção não é jornalismo (sim, eu sei, a muitos ainda falta compreender que jornalismo não é ficção), não é ensaio, não é tese, não é tratado. Ela pode até ser tudo isso, mas nunca deixará de ser ficção. Seu romance policial pode retratar uma delegacia bem equipada, com profissionais competentes, tecnologia avançada e um banco de informações completo mesmo no Brasil. E a verossimilhança? A verossimilhança é a coerência interna do texto, não externa, um acordo tácito entre autor e leitor. Numa delegacia decadente, por exemplo, daquelas onde até o cafezinho foi cortado por contenção de despesas, não seria lá muito verossímil que o investigador tivesse disponível um software dos mais avançados. Como não seria verossímil que nada fosse flagrado num crime cometido num local repleto de câmeras de segurança. Certifique-se antes de dizer ao seu leitor que o local não tem essas câmeras, que elas estão quebradas, que não gravam ou que, possivelmente, o assassino as burlou.
Em suma, a obra de ficção policial não é, essencialmente, sobre polícia. É muito mais sobre lógica, psicologia, moral, enfim, sobre a natureza humana do que sobre polícia. Não estranhe quando ler um romance policial nacional e o investigador não reclamar do estado da viatura.
Quando isso ficar claro para todo mundo, poderemos curtir muito mais nossa produção nacional. Quem sabe não viramos uma potência do gênero como a Escandinávia, um lugar, aliás, onde quase não ocorrem assassinatos na “vida real”, e a ficção parece não se importar com isso.
