Sobre viver

A chegada de um filho, ainda mais um que chega do dia para a noite, provoca reflexões profundas a respeito de escolhas do passado e para o futuro. Minha vida não é mais só minha e o conceito de sobreviver pode ter um sentido bem mais amplo do que o conhecido.

Por Arno Duarte

Sempre fui um cara muito preocupado com dinheiro. Desde que comecei a trabalhar, nunca passei por aperto financeiro, mas também, meu foco era exclusivamente o trabalho. Eu tinha pânico de passar por alguma necessidade, principalmente, de não ter onde morar.

Para não chegar a esse ponto, eu trabalhei muito e acabei por esquecer de viver. O lado bom é que guardei dinheiro, e com 22 ou 23 anos eu já tinha comprado um apartamento. Depois vendi e construí uma casa, depois vendi e comprei outro apartamento. Essa sempre foi a minha necessidade mais básica, que garantiu a sobrevivência do meu inconsciente.

Nos últimos anos relaxei mais com essa coisa toda de dinheiro e diminuí o peso que o trabalho tem na minha vida. Não parei de trabalhar, claro, apenas procuro aproveitar mais os dias, ao mesmo tempo em que desenvolvo atividades que me proporcionam certo conforto e sustento financeiro.

Há 30 dias me tornei papai adotivo. Ao me deparar com a situação de ter uma criança de oito anos em casa, e com a grata função de alimentar, vestir, educar, brincar e cuidar, a busca por saciar as necessidades básicas e o instinto de sobrevivência voltaram a gritar dentro de mim.

Até então, eu era dono apenas do meu nariz, cuidava das minhas continhas, fazia o que eu queria na hora em que eu queria. Tinha uma certa comodidade construída ao longo do último ano, depois que me tornei um profissional autônomo.

Sigo sendo dono do meu nariz, mas, e o outro narizinho adorável que me olha com olhar de admiração a todo instante?

Hoje me pergunto se minhas escolhas foram as melhores, se preciso rever algumas delas, que alternativas tenho para prover tudo o que meu filho precisa sem deixar de ser quem eu sou. Já me passou pela cabeça voltar para um emprego formal, ter a estabilidade da carteira assinada, o plano de saúde, seguro de vida, previdência social e o dentista pagos pela empresa. Até o auxílio funeral estaria garantido.

Nesse vai e vem de sentimentos sobre necessidades básicas, me dou conta de que não sou apenas responsável pela sobrevivência do pequeno Cadu. Meu papel vai além disso. Preciso também passar valores e ser uma referência para ele. Afinal, eu sou o cara que diz que o sentido da vida é amar. Amar quem sou, o que faço, com quem me relaciono e o que quero ser.

De que adiantaria ser “bem-sucedido”, ter garantias e estabilidade, e também ser infeliz, triste, preso em um salário. Que aventuras coloco em minha vida que podem inspirar meu filho a querer ser o seu melhor, voar livre pelo mundo, sendo também o dono do seu próprio nariz.

Outro dia ele me disse: “é bom ser teu próprio chefe, né pai”? Na hora eu pensei, sim, eu defino minhas metas, eu trabalho para atingi-las, eu recebo pelo sucesso ou fracasso dos meus projetos. Mas o melhor de ser chefe de si mesmo é poder viver a vida que eu quero, ser o pai que preciso ser sem deixar de ser o homem que quero ser.

Impossível garantir que este é o ponto final desta história, que nunca vou mudar de ideia, que dessa água não mais beberei. Só sinto que esse é o caminho que eu quero seguir agora, e cada um com o seu caminho, tudo bem se o seu é outro. O meu caminho é o de aproveitar o momento para ser mais eu, ser mais pai, ser mais amigo, ser mais parceiro.

Quero falar mais sobre viver do que sobreviver.

ARNO DUARTE, além de papai adotivo, é coach e consultor organizacional na Favoo Desenvolvimento Humano e mobilizador do movimento Geração Mais Amor. Adora o que faz, mas não deixa de se aventurar em peças de teatro, videoclipes, música, fotografia, meditação ou em qualquer coisa que estimule expressão e criatividade. Acredita que o sentido da vida é amar e se divide entre projetos pessoais e profissionais buscando a felicidade autêntica nas 30 horas do seu dia.

Originally published at papaiadotivo.com on January 14, 2016.

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