Capítulo 42 — O Negão: “Prazer, pode me chamar de objeto”

Homem. 21 anos. Negro. 22h:03min. Chega o 917H/Metrô Vila Mariana. 90 minutos até a catuaba gelada. 90 minutos para encher a mente de memória e reflexão. 90 minutos de música no fone, sem ouvir uma nota se quer. Só ouvindo um pensamento: “Eu sou um objeto”.

22h:05min. 8 pessoas. Ele senta. Olha através da janela e esquece o mundo. Tenta entender o porquê esse pensamento ecoa no fundo de si. Lembra de sua história e dos dizeres que a marcaram: “Ela quer ficar com o negão mano, cê vai ou nem?”

22h:10min. 13 pessoas. Olha a senhora que entra e lembra da sua vó. Volta pra dentro e se pergunta: “Ela queria ficar com o negão ou comigo?”. Se despedaça mais um pouco. Quantas vezes isso já aconteceu na vida dele?

22h:17min. 20 pessoas. Tenta entender. Tenta ver. Mas resolve apenas sentir. Por que fez isso? Tudo veio. Todos os comentários. Todos os olhares. Tudo. Sim, ele é um objeto. Ele é “O NEGÃO”, pelo menos para uma grande parte da sociedade. Aumenta a música tentando diminuir sua ansiedade e angústia.

22h:30min. 31 pessoas. Sente aquela raiva cotidiana. Mais um estereótipo travado na sua imagem. Lembra de uma palestra que uma colega da escola deu “Objetificação da mulher negra”. Como ele não refletiu antes? Tudo isso deve ser a “Objetificação do homem negro”. Mas…o que esperam desse objeto? Pinto grande. Pegada Forte. Musculoso. Marrento. A cor do pecado.

22h:44min. 23 pessoas. Percebe que ele vestiu esse estereótipo. Percebe mais uma vez o quanto ele não se conhece. Percebe que era muito mais fácil ser “O Negão”. Difícil é ser ele mesmo. Uma senhora desastrada bate a bolsa na sua cara. Deixa cair o celular. O fone sai e ele ouve o mundo de fora. Lembra que esqueceu de tirar dinheiro.

22h:59min. 25 pessoas. Faltam 5 pontos e um pouco de trânsito. Ele não quer ser objeto. Ele é mais que isso. Sim, ele não é “O Negão”. O que ecoava no fundo, fazia anos, agora está face a face com ele. Só depende dele. Cansado de sempre ouvir: “Se meu pai soubesse que eu to ficando com você, ficaria louco”. Cansado de ouvir: “Qual o tamanho? É verdade o que dizem?”. Cansado de ouvir: “Você sabe sambar? Não? Então faz uma rima”. Cansado.

23h:35min. 19 pessoas. Dá sinal. Desce de sua reflexão. Vê o mar de gente. Esquina Paulista com Augusta. Seu amigo o espera. Compram dois latões. Juntos esperam uma garota que ele vinha trocando mensagem desde o dia anterior. Ela chega. Abraça ele forte por alguns segundos e fala em seu ouvido: “Sabia que eu nunca fiquei com um negão?”