Como entrei e porque saí do Vigilantes do Peso

Já aviso de antemão que esse [enorme] texto é bem pessoal e corresponde a uma experiência vivida por mim, podendo ou não ter acontecido com mais alguém. Minha intenção não é dar conselhos e não me proponho aqui a difamar a empresa, nem incentivar pessoas a largarem um processo de emagrecimento. No entanto, acho importante compartilhar essa história, pois ela fala de um relacionamento tóxico que estabeleci com uma empresa, que chegou a esse ponto e se tornou uma relação de dependência e culpa, que não me beneficia em mais nada agora.

Muitos não sabem, às vezes por escolha minha de não contar, mas em maio do ano passado comecei a frequentar o Vigilantes do Peso. Pesava 81kg, resultantes de anos oscilando entre comer descontroladamente e se privar de tudo, para não aguentar e voltar ao descontrole, em um ciclo que àquela altura parecia infinito. Tinha muitos preconceitos com a empresa, pois pensava que iriam fazer cobrança vexatória de resultados na balança, e vamos combinar que ninguém precisa disso, menos ainda alguém que está insegura e frustrada com o próprio peso. Porém, conhecia uma pessoa que frequentava e estava feliz, não se sentia mal e estava se alimentando bem. Inspirada, resolvi tentar. Vai que. Verdade seja dita, havia muitas lendas que não foram confirmadas: você não se pesa em público. Portanto, ninguém bate palminha quando você emagrece, pelo menos não hoje em dia. Não existem prazos e a presença do discurso gordofóbico varia mais conforme a orientadora, não é totalmente institucionalizado.

Foi um ano de negociações comigo mesma, de entender — em análise — os motivos para o comer sem pensar e de mudar a minha alimentação e adotar uma rotina mais saudável e menos sedentária. Fiz isso porque odiava meu corpo e sentia que precisava ser magra? Às vezes. Ninguém está livre desse pensamento, por mais desconstruída e feminista que seja. Acho, porém, que se esse fosse meu único incentivo, teria parado no início. Se continuei, se passei um ano nesse processo e, principalmente, se completei o ano com 20kg a menos, foi porque durante esse processo resolvi me aceitar e gostar do meu corpo do jeito que ele estivesse no momento. Entendi que almejar um corpo magro como o de pessoas que já nasceram assim e não são anoréxicas ou bulímicas era um convite à sabotagem e ao auto-ódio, pois meu organismo não funciona igual ao delas. Fora isso, o problema da auto-estima vem de outros lugares, e não se foi junto com o peso.

Emagreci os 20kg sem vomitar, sem passar fome, mantendo a vida social no fim de semana, e eu continuo atribuindo isso também à relação que estabeleci com o VP. Fui às reuniões, manifestei minha discordância do programa quando quis, fugi de orientadora gordofóbica que fazia piada com gordo, fugi de orientadora que cobrava “melhoras”. Encontrei uma que falava de uma forma mais positiva pra mim: não cobrava resultados, não associava gordura a infelicidade e não vendia um discurso de que você precisa ser magra para ser feliz. Foi um bom ano pra mim de um modo geral, e as mudanças na alimentação e na quantidade de atividade física também foram muito boas de se fazer. Virei vitalícia ao atingir uma meta de 61kg que eu escolhi, pois percebi que para ir além disso precisaria fazer sacrifícios que não estava disposta a fazer.

Aí começa o problema.

Para explicar como funciona de maneira breve: você pesa X e quer emagrecer. Para frequentar as reuniões e seguir o programa, você paga um valor de passe mensal e pode ir uma vez por semana lá, tem acesso à orientação, ao aplicativo e ao sistema de nutrição deles. Passou uma semana, emagreceu? Ótimo. Engordou ou ficou na mesma? Sem problemas, a vida é assim mesmo, você recupera. Chegando à meta que você queria, você passa a ser vitalício e a partir daí você não paga para conferir o peso na balança deles uma vez ao mês, desde que frequente todos os meses e continue mantendo seu peso. Meu primeiro alerta soou nos detalhes dessa regra. Somos considerados em manutenção pelo VP quando estamos até 1,1kg acima da nossa meta, mas não há um limite mínimo. Ou seja, caso eu perca 10kg em um mês — e aos 61kg com o meu metabolismo isso não tem como ter acontecido de maneira saudável — ainda é considerado como manutenção de peso. Isso não deve ser minimizado pela assunção falsa de que alguém que teve tanta dificuldade de chegar a 60kg jamais poderia entrar em uma magreza não saudável, pois quem desenvolve anorexia e/ou bulimia é capaz de forçar muito o próprio corpo.

A partir daí foram alguns meses em que a situação se repetia: passava o mês antecipando o dia em que eu teria que ir ao VP me pesar para manter minha cartelinha atualizada. Eu, que me pesava uma vez por semana, passei a me pesar quase todos os dias. Afinal, eu nem sabia o que poderia acontecer caso eu aparecesse lá 1.5kg acima da minha meta. Como isso nem foi conversado — e eu admito, também não perguntei — pensei que seria algo parecido com “você está acima da sua meta, no próximo mês se essa situação se mantiver você passará a usar o programa de novo, então terá que pagar caso queira continuar o acompanhamento aqui”. Pensando bem, nem isso está mais me soando muito razoável, mas na hora entendi que é assim que funciona e tudo bem.

Ontem, ao chegar em casa pensando em nem mesmo comparecer na reunião do dia seguinte por medo do que poderia ter acontecido com o meu peso nas férias, vi o informativo da semana que minha mãe havia trazido da reunião dela (minha mãe começou a frequentar o Vigilantes depois de mim, que indiquei o programa para muita gente). Nele, o tema da reunião da semana: “você não é apenas um número”. Lindíssimo discurso. Exceto quando apareci lá, subi na balança, e havia passado 1.3kg da minha meta de 61kg. Ops. A regra nesse caso é pagar já na reunião em que você viu que ultrapassou, o que eu contestei na hora. E se eu estivesse inchada? Se tivesse acabado de comer? Se tivesse problemas de intestino preso? Uma mulher perto da data da menstruação também pode ter alterações gritantes no peso! Não seria mais justo esperar o aumento se confirmar no mês seguinte, para concluir que não se trata de um ganho ocasional e me fazer pagar? Aparentemente não. Aparentemente, não sou só um número enquanto meu número está “certo” ou no caminho para se “acertar”. Depois disso, a história muda.

Os argumentos deles são os melhores: vão desde “são as regras da empresa” a “isso é uma forma de você se autossabotar”. Que é uma empresa capitalista que visa lucro e quer o meu dinheiro eu já sabia, mas a gota d’água pra mim é dizer que me rebelar contra ela é autossabotagem. Claramente o Vigilantes do Peso não faz muita ideia da dimensão que tem uma afirmação dessas. Veja bem: pessoalmente, nada contra as orientadoras que foram as porta-vozes desses argumentos. Não é minha intenção brigar pessoalmente com elas, podem ser ótimos seres humanos e estarem cheias de boas intenções. Mas, ali dentro, são funcionárias de uma empresa que estão representando a posição desta. Podem até concordar, em algum grau, mas eu ainda acredito que o feitiço de ser um bom funcionário é forte o bastante para nos fazer dizer coisas que não diríamos se não trabalhássemos nesses lugares. A cultura — insalubre — do “vestir a camisa da empresa” é forte, capaz até de nos colocar numa posição de achar que podemos dizer para alguém o que é autossabotagem dela ou não.

No fim das contas, por causa do barraco, me ofereceram um “vale-fiança”, alterando o peso registrado no cartão para eu não ter que pagar nada e esquecermos que isso aconteceu — relaxem, eu já não pretendia pagar. Não se trata do dinheiro, afinal, não estamos falando de nenhuma fortuna. Se trata de ter me dado conta de que é ruim pra minha saúde me manter amarrada a uma empresa que depende da minha insegurança e culpa para crescer. Da mesma forma como eu não gostaria de manter um relacionamento amoroso que me fizesse infeliz, não quero manter uma relação de clientela que provoca em mim a sensação de culpa o mês inteiro, que me obriga a voltar a ter alguém externo a mim determinando se meu peso está certo ou errado. Caso eu pise fora da linha, minha penitência é em dinheiro.

Se você se deu ao trabalho de ler até aqui e está num processo de reeducação alimentar, não me entenda mal. Não sou contra o emagrecimento, nem quero convencer ninguém a deixar o Vigilantes do Peso. Se você frequenta e gosta, se te faz bem agora, continue. Meu relato apenas serve para mostrar que nem todos são felizes nessa dinâmica.

Na minha trajetória foi o VP, mas poderia ter sido um nutricionista, um endócrino, uma musa fitness. O importante é que isso diz também da minha mudança: quando me incomodou, eu contestei e saí sem aceitar o discurso da autossabotagem. Sei que somos todos livres para cancelar qualquer serviço e que a porta é a serventia da casa, mas quando envolve um processo como esse, aquilo toma um significado para nós que vai além de uma relação cliente-empresa. O VP trabalha com nutrição, motivação e emagrecimento, mas trabalhar com essas coisas significa trabalhar com a insegurança e com a neurose de muita gente. Fazer isso displicentemente é impossível.

Tenho certeza de que vou encontrar outras formas de manter os hábitos saudáveis que adquiri durante esse tempo, quem sabe até ampliá-los. Só não podia mais permitir que capitalizassem em cima do meu sofrimento. Desculpe, mas isso minha convicção não permite.

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