última vez que escreverei sobre tarot, acho

Niklitschek
Aug 31, 2018 · 5 min read

Quando passa-se pelas 22 cartas de tarot, os arcanos maiores, passa-se pela totalidade de experiências (de forma semelhante, quando passa-se pelos 12 signos do zodíaco, se passa pela totalidade de formas de ser e quando se passa por toda a Ciência da Lógica de Hegel, você deve ter ao final todos os movimentos (lógicos) que se pode fazer na linguagem). Ou seja, os arcanos maiores são todas as experiências em 22 nomes (com os arcanos menores, diria que é, proporcionalmente, a totalidade de experiência em 78 cartas). Nada ficaria de fora do que já está nas 22 cartas.

The CARNIVAL at the END of the WORLD

Existem figuras que jogam as cartas como adivinhação. Me lembrando do que me ensinaram, o passo mais importante para jogar dessa maneira é convocar seus respectivos espíritos, como guardiões ou daemon, embora a logística disso não esteja clara para mim.
(Como a divinação faz sentido?
Quando era menor eu tinha uma posição: todos os sonhos que te incomodarem a ponto de você se perguntar se tinham algum significado mais profundo provavelmente tinha um significado mais profundo — e provavelmente os sonhos menos impactantes não tinham significado mais profundos. Isso pela ideia que o cérebro, enquanto o órgão que pensa ou órgão do pensamento, é onde ocorrem os sonhos, esse entendimento, essas sensações e tudo com profundidade de significado, ou seja: fazia sentido pensar que a sensação sobre o sonho era verdadeira porque a origem da sensação, a origem do sonho e a origem do “lugar mais profundo”, de onde ele pode ou não ter saído, são o mesmo lugar: o órgão de pensamento. Não é como se tivesse alguma coisa, por acaso, te perturbando no sonho, mas sim exatamente a mesma organização que sabe o que te perturba, que é perturbado e que faz o sonho. Não é o mesmo que ficar impactado com algo na externalidade que tem ressonância com você: o sonho é da sua autoria.
Imagino que é de forma semelhante que as cartas funcionem como divinação: como faz sentido na existência em geral, na infinidade do cosmos e do great outdoors, que essas cartas possam realmente dizer como as coisas serão reais ou são reais ou foram reais? Nós somos da mesma autoria, ou tão autor quanto, do funcionamento das coisas; parece inegável que temos algo em comum até com o movimento dos planetas, com todas as pessoas que puderam e poderão existir e com outras grandes escalas)
(talvez faça mais sentido pensar as cartas como algo que faz-se sem diferenciação entre passado, presente e futuro, ou pelo menos sem certas diferenciações desse tipo — embora a gente saiba que muitas pessoas jogam só interessadas no futuro)

The Wild Unknown

Eu costumo jogar menos interessado na futurologia: as cartas apresentam uma nova possibilidade enquanto atividade literária-narrativa-linguística. (o que é uma nova possibilidade? é a qualidade que 0->1 tem que 1->2 ou 3->4 não tem, uma diferença radical, sempre nova, o que não poderia ter sido pensado até ser realmente pensado, mudança qualitativa. Em apresentar novas possibilidades, só precisa-se de um).
Ou seja, o tarot, em sua aleatoriedade autoral de jogar suas cartas, apresenta uma nova forma de entender e organizar os eventos, logo, uma resinificação do que aconteceu, do que está passando e do que pode acontecer. Um exemplo bem simples: talvez seja interessante afirmar que alguma dificuldade, onde caiu a carta da Morte, é, plausivelmente, um “fim necessário” ou uma “criação que vem da destruição”. E ainda que todas essas etapas, presente e passado especialmente, embora pareçam decisivas, são datadas, equivalentes a outros momentos, como um futuro. Mudar o que um evento significa, o que ele faz na vida e como ele se articula é, na prática, mudar o evento, logo, o tarot também prevê o passado e o presente — e isso é, inclusive, muito mais difícil de prever o futuro. Um artigo que gostei muito fala praticamente isso sobre I Ching, um jogo oriental também normalmente entendido como adivinhação, chamado “Esqueça profecias: o I Ching é uma máquina de incertezas” (The uncertainty machine)

…ao passar pelo ritual de fazer uma pergunta ao I Ching, não estou procurando por alguma orientação mística irracional. Em vez disso, estou à procura de uma libertação da prisão de certezas concorrentes, uma maneira de deixar escapar as dúvidas e confusões que acompanham todo o pensamento, para que eu possa tirar proveito de sua riqueza criativa. Em outras palavras, eu uso o I Ching não como uma máquina de certeza, mas como uma máquina de incerteza.

Mas eu juro que já jogava assim antes de ler esse artigo.
(Qual é uma dificuldade dessa forma de jogar? Citando um amigo, mas não lembro bem da frase: “é difícil ler algo e não encontrar lá só o que já se leu antes o que já se esperava”)

Marselha; Thoth (Aleister Crowley); Rider-Waite
Animals Divine; Tarot de St. Croix; Tarot del Fuego

comentários pontuais:

não deixe que façam parecer que uma carta é absolutamente ruim, má ou desinteressante

existem formas de jogar em que o aspecto negativo de cada carta é apresentado quando a carta é jogada de cabeça pra baixo — eu prefiro jogar com elas sempre apresentando algo fechado e coerente com negativo e positivo (como entendemos normalmente as “coisas da vida”?), mas, claro, as duas formas são válidas. esse “aspecto negativo” é recorrentemente nomeado como “sombra”. o que é a sombra? é quando não nos reconhecemos em nós mesmos.

a carta Mundo representa a totalidade, já que a totalidade é um elemento da totalidade de experiências (algo como o que o Jung falava do centro da mandala representar a mandala inteira, imagino) (ou seja, o tudo é exemplo de tudo, então tem que ser algo que está nas cartas, uma que nomeie o tudo)

existem cartas que são, provavelmente, mais únicas (como o Louco, sem nº, a Morte, que não costuma ter nome escrito como as outras, etc). meu modo de entender tem como mais fundamental a equivalência e complementaridade de todas as cartas (sem uma carta, todas as outras que sobraram estão inutilizadas)

sinto que “Papa Subterrâneo” é um título muito maneiro que usaria pra mim

minha avó me ensinou a jogar: eu me lembro que a primeira pergunta era de graça, depois começa a cobrar, já com a pessoa engajada

tenho hábito de não me incomodar em saber a “questão” da pessoa: ela embaralha, mentalizando, e joga as cartas; eu leio. nesse sentido, a pergunta, as cartas e a resposta são dela.

    Niklitschek

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    Sinto que posso ser tudo, exceto suficiente

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