europa
eu me sentia perdido. estava tudo um verdadeiro caos. amizades, amores, família, obrigações, rotina. a cidade me rejeitava, e eu sentia-me cada vez menos pertencente àquela realidade que outrora fora bela e cativante. já havia muito que me encontrava naquela situação, mas a ida à terra prometida se aproximava, e eu estava tentando ignorar a dura realidade exterior, apenas me preocupando em conviver com minhas doses homeopáticas de autodepreciação, sem as quais eu não sobreviveria. os preparativos da partida foram dignos de meu estado emocional, com poucas pessoas presentes e sem a necessidade de demonstrações de afeto descartáveis. enfim, a hora chegara.
e, subitamente, cá estava eu, em um daqueles cafés antigos de lisboa, cujas paredes e pilastras já vivenciaram mais tempo do que a história do meu próprio país é capaz de contar, saboreando uma xícara de chocolate quente enquanto meu celular se conectava à rede wifi do local. ah, o velho continente… tenho eu dó daqueles que pensam assim de ti, amada europa. é claro que cá existem traços de uma vida que, há muito, não é mais vivida, mas esquecem-se que todo o charme daqui vem da conexão do mundo ancião com os frutos verdes desta geração. sítios tecnológicos em edifícios milenares, carros possantes em estradas de pedra e jovens “millenials”, que não fazem ideia do que fazer com suas vidas, esbarrando com idosos que acreditam que sabem demais para darem ouvidos a qualquer um que atrever lhes dirigir a palavra… a europa é uma dança de contrastes temporais que, em sincronia, apresentam uma viagem no tempo fascinante para aquelas que se doarem o suficiente para observar.
entretanto, como toda grande exibição, existem elementos de seus bastidores que podem ser sombrios e até aterrorizantes. no caso da terra antiga, o que chamou-me a atenção, da maneira mais triste que poderia ocorrer, foi o melancólico e tempestuoso frio. é claro que um cidadão carioca recém chegado é suspeito para falar de tal assunto, mas não acredito que, nem no decorrer de um século, eu estaria satisfeito com as temperaturas deste inverno. ora pois, o frio atinge os ossos, destrói as esperanças e degrada a alma. ele deixa-nos mais tristes, menos carinhosos e mais racionais. deve ser o instinto de sobrevivência. sinto-me mais inteligente, mais capaz, minha cabeça funciona melhor. isso deve explicar o progresso e avanço deste lugar. no entanto, uma profunda tristeza emana do meu interior, e as pessoas comportam-se como diários trancados cujas chaves foram perdidas antes mesmo destes edifícios homéricos terem sido construídos. oh, amada europa, não me leve a mal, mas não daremos certos juntos. eu te amo, mas meu coração já pertence a outro. sinto falta do meu rio de janeiro.
- tutti
