aristóteles

era uma vez um rapaz que andava enquanto falava algumas palavras bonitas. outros rapazes gostavam de ouví-lo — e tudo que sabia foi deixado em livros para outras pessoas que gostassem de ler e andar.

tantas coisas se perderam e tantas perguntas se fizeram acerca de aristóteles — acredito eu que ele queimou tanto quanto as bruxas, tanto quanto joana d’arc, tanto quanto nietzsche queimou no inferno dos delírios daqueles que os odiavam.

mas se eu pudesse juntar todas as folhas perdidas, todas as cinzas que se perderam nos ventos e nos porões das igrejas, das livrarias, das casas; derrubar-lhe uns trocados e umas gotas de suor, invocando-o, por fim, perguntaria-lhe:

como você fez para perder o medo de ser lido?

me desespera, aristóteles, ser lida. escrever pra mim é mais do que juntar as letras numa ordem bonita, é arrancar com os dedos os cacos de vidro que engulo a cada angústia que vivo. é doloroso, é visceral.

nietzsche falou tão mal de você e de platão e de sócrates e de paulo e de tantos outros, mas eu me pergunto, caro grego… não fosse você, o que seria de nietzsche? talvez um teólogo, talvez um padre no interior da alemanha.

tudo isso porque você se permitiu ser lido — ainda que não o quisessem.

simpatizo contigo, rapaz, pois me pergunto o que haveria no fundo de tuas retinas durante tuas andanças e palavras. a quem você amou? quem tirou teu sono?

tantas perguntas, aristóteles, e tudo que me falas é sobre a tragédia e a lógica.

tantas coisas que respondes.

tantas dúvidas que deixas.

és impossível de ser completamente lido — e isso porque escrevestes! imagine eu, aristóteles, que quero incendiar todos os meus cadernos quando alguém os lê. imagine quantas possibilidades se vão só com o que eu escondo dentro das gavetas.

invejo tua bravura, homem grego.

e eu, apesar de toda modernidade, todos os cadernos e lápis e alfabetização e dinheiro e coisas que jamais imaginarias que existiriam em algum momento, serei esquecida assim que meu coração parar.

tu? tu és eterno enquanto a humanidade conseguir adiar sua finitude. só posso pedir que alcances outros transeuntes — outros peripatéticos — que por esta terra passarem.

a informação é a mais poderosa das armas, a mais sublime das belezas.