[even losing you (the joking voice a gesture i love)…]
“the art of losing isn’t hard to master/ so many things seem filled with intent / to be lost that their loss is no disaster.” (E. Bishop)
Mariana, Minas Gerais, 1 de Setembro de 2018
“Onde foi parar todo aquele amor?”, pergunto-me, incansavelmente. Cavo buracos na noite, meus dedos calejados tremem segurando terra, palavras e carne — aonde está você, pelos deuses? Aonde estou eu? Aonde está nós?
Não consigo mais olhar no espelho. Não consigo mais me abrir e me olhar — costurei os lábios que você beijou semanas atrás. Revivi as lembranças que eu criei e chorei sem saber o que fazer com aqueles filmes que contavam para mim uma história tão linda. O negativo se emaranhou no rolo e a tela de projeção está em chamas. Não enxergo mais nada.
O que aconteceu com a vida que projetamos?
A culpa é minha, não é? Sempre foi. Eu, com esse vício em me esconder nos lugares mais escuros, pintando minhas dores de branco, deixei você à deriva. Eu me arrisquei demais e se eu não tivesse saído da caverna que estava me mantendo esse tempo todo, você não teria ido embora. Eu te assustei com o horror de minhas paranoias — ficasse eu calada, você aqui ficaria.
Ou não? Você estava esperando somente uma faísca para detonar o explosivo que implodiria tudo o que construímos?
Uma deixa para me deixar?
Aonde você foi?
Eu te perdi no vazio lotado. Eu, que achava ter finalmente dominado a arte de perder, estava te procurando incansavelmente. Sigo procurando. Sigo esperando que a sua sombra apareça na soleira da minha porta — sua voz abrace meus ouvidos. Ainda que eu tenha simplesmente aceitado a frustração de ter-te perdido, entendi que muitas coisas já existem com a intenção de serem perdidas, ainda assim, o desastre se fez na minha vida.
Perdi você.
E a arte de perder nunca antes foi tão difícil de dominar.
