“e se eu não gostar de mim? e se eu for mesmo tão pequeno?”

Ártemis E.
Nov 3 · 3 min read

acho que já tem quase um mês que Jão lançou seu álbum novo. eu levei uns dias pra criar coragem e ouvir porque fazia pouco tempo que tinha sucumbido em uma crise de choro e em uma melancolia profunda por sua causa.

como eu esperava, as músicas tocaram na ferida que segue aberta e inflamada. eu ouvi deitada na madrugada da sexta pra o sábado. enquanto sentia cada melodia e mastigava cada letra, me prometi que ia levantar da cama e escrever. repetia a promessa toda vez que uma frase me fazia lembrar de algo que aconteceu, toda vez que a história de Jão se cruzava com a minha e me doía.

ouvindo o álbum pela terceira vez naquela mesma madrugada disse que escreveria um texto pra cada música, porque cada uma tinha pelo menos um verso que era premissa pra coisas que eu queria te dizer. mas quase um mês depois, a música :((Nota De Voz 8) acabou sendo a que mais me tocou. ela toda seria uma ode ao fim da nossa história. e o penúltimo verso, um resumo do depois do fim: “e você foi tão mais alto e eu fiquei com o que dói.” acho que ela casa com uma frase de Nihil que eu já citei em um outro texto sobre você: “ Me deixou aqui com o peso de tudo que a gente viveu. Tipo um elástico, estica, estica, e só pra quem segurou mais que doeu.


no fim das contas, decidi que vou fingir que estamos conversando, que estou te olhando nos olhos e por mais que eu tenha tanto pra te falar, por ora, eu só queria te dizer que, embora seja egoísmo da minha parte, eu odeio te ver feliz. porque eu tô aqui, cheia de tristeza e saudades, me questionando o que eu podia ter feito de melhor. pensando que talvez se eu tivesse tido coragem pra lidar com minha mãe você ainda estaria aqui. eu sigo te odiando por ter me deixado e te perdoando ao me odiar e pensar que nem eu iria querer alguém que não pudesse doar seu tempo porque não cresceu o suficiente pra ter liberdade. e eu sei que você nunca me cobrou isso e não tenho certeza se isso foi um problema pra nós ou se é só problema meu. eu sigo te odiando por todas as vezes que não me deu atenção, por quando eu precisei e você não tava aqui, por não ter me deixado ser parte da sua vida, por não ter confiado em mim pra te ouvir e te cuidar. em seguida me repreendo por falar tanto e não te deixar espaço pra falar e, novamente, não sei se isso teria mudado alguma coisa ou se eu falar menos só teria trazido silêncio entre nós dois. eu costumava te ter como uma das pessoas mais importantes da minha vida, porque faz tanto tempo que eu me lembro de poder falar com você, contar com você, mas agora me parece que não é assim, nunca foi. e você me disse que me ama e que eu sou importante também, que te faço se sentir querido, especial e me dei conta de como é cruel que eu me sinta exatamente o oposto. eu hoje nem consigo saber se de fato tenho um lugar na sua vida, se tenho alguma relevância, se faço falta. e odeio estar assim tão triste, tão quebrada, enquanto você está tão bem. eu só queria não me sentir assim.

eu não devia questionar. me desculpa mesmo.

Ártemis E.

um diário meio mórbido sobre viver um inferno por dia; baseado em fatos quase reais, de uma vivência mais comum do que vocês imaginam.

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