Favela chegou onde
Eu tinha desistido de falar sobre isso mas agora que faz mais de um mês e deu pra todo mundo mastigar com calma, e ainda assim tem gente reclamando e falando merda, aqui vai uma resposta muito longa e tão construtiva quanto eu posso fazer.

Vamos começar por um relato de como tudo aconteceu do meu ponto de vista:
A Favelada (AAAUFAV) surgiu em meados de 2015¹ como uma atlética unificada entre os cursos da Faculdade de Artes Visuais (menos arquitetura pois essa já tinha sua própria atlética, a infame Demolidora). O nome foi decidido através de voto popular e as opções propostas pelos alunos.
Na época, minha reação (e da maioria das pessoas com quem eu conversava) foi basicamente “hm talvez não seja o melhor nome mas estou feliz que tem uma atlética unificada agora”. A interpretação mais profunda pra essa escolha deve ser “é que a FAV fica longe das outras faculdades então a gente é meio que a periferia”, mas pra maioria das pessoas a conversa começava e terminava em “favelada começa com fav”.
Logo de cara, com o lançamento do vídeo “ouve-se um rugido”² comemorando o nascimento da atlética, ficou claro que o simbolismo do nome ia além de um simples trocadilho. Como qualquer bom designer, a atlética incorporou à sua identidade visual e sua linguagem a ideia de FAVELA. O vídeo começa com o clássico funk “Eu só quero é ser feliz” de Cidinho & Doca e contrapõe cenas da faculdade e seus estudantes com cenas de favelas aleatórias e seus habitantes.
Notavelmente, um anúncio do trote de 2017³ inclui na imagem a paisagem de uma comunidade e a frase “subam o morro tem pacote novo chegando”.
É.
Não querendo dizer que eu era super desconstruído e já via isso como problemático na época. Ponto é que a forma como os estudantes promoviam e se envolviam com a atlética estava diretamente relacionado com a “estética da favela”, mas também é importante ressaltar que após a primeira gestão da diretoria, as escolhas de design mais problemáticas foram desaparecendo.
Não foi até 2016, com o fim da atlética da arquitetura (que não descanse em paz), que começaram a chegar os boatos de que “o pessoal das artes ta problematizando o nome da Favelada”. Pro que a resposta universal costumava ser “kkk ai ai esse povo das artes”. O importante a se entender aqui é que o curso de artes visuais é conhecido por ser mais “politicamente engajado” que os outros. Como a narrativa corrente era de que “eles problematizam tudo mesmo”, o que aconteceu por muito tempo foi que a maioria das pessoas decidiram ignorar o que tava sendo dito (principalmente as mais envolvidas com a atlética). E com isso, o efeito causado foi que essas “problematizações” foram ficando cada vez mais intensas a fim de que fossem levadas a sério.
Em meados de 2018, com a crescente intensificação do debate e estudando cada vez mais sobre gentrificação e desigualdade social e econômica, eu comecei a entender as problemáticas do nome e advogar mais pela mudança. A essa altura, a direção da atlética já estava mais que ciente das reclamações e aparentemente começaram a ter conversas sobre uma eventual mudança, mas nesse ponto o principal contra-argumento era de que “seria muito difícil e isso não é uma prioridade”.
Finalmente, em 2019 A Porra Ficou Muito Séria™ e os estudantes da “oposição” (em grande parte do curso de artes visuais) passaram a tomar cada vez mais ação direta. Pixações e adesivos em protesto começaram a surgir nos corredores do prédio e foi lançada uma nota de repúdio pelo CAAV⁴. Com o surgimento de um abaixo assinado⁵ e uma série de imagens satíricas contrapondo propagandas da atlética com massacres em favelas⁶, foi marcada uma reunião fechada de discussão⁷, resultando em uma nota da atlética anunciando oficialmente a mudança do nome⁸, citando argumentos como a brevidade das gestões, falta de tempo hábil e intransigência por parte da “oposição”. Entretanto, a nota deixa claro que “a decisão foi inteiramente da gestão da atlética e não sofreu influência de agentes externos”.
E aqui estamos.
A primeira coisa pra tirar do caminho é que eu não acho que o nome foi escolhido em má fé ou que isso necessariamente expõe algum preconceito escondido nas pessoas que abraçaram ele. Aconteceu porque essas questões eram menos debatidas na época e ninguém pensou que seria ofensivo. Dito isso, a decisão de ignorar as críticas e abafar a discussão por tanto tempo com certeza foi o maior agravante.
Além disso, quero deixar claro que entendo em parte os argumentos da diretoria da atlética na nota oficial. Fazer parte de qualquer organização de estudantes dentro da universidade é extremamente difícil, principalmente por ser trabalho voluntário e sempre ter alguém reclamando de alguma coisa, além de ter que cumprir com as obrigações do curso como todo mundo. Atléticas são instituições importantíssimas e esta é excepcionalmente boa em tudo que faz. Eu acredito que a diretoria tem as melhores intenções e que foi um processo difícil pra todos, principalmente com a intensificação dos protestos.
Mas vamos lá, a pergunta que não parece sair da boca do povo é: qual o problema do nome?
Não faz muito tempo que viralizou a notícia de que a grife AMP estava vendendo camisetas estampadas com a logo da Febem-sp, causando revolta popular⁹. A ideia de que uma marca de roupas caras se apropriou de um símbolo de desigualdade social pra vender um produto é nada menos que bizarra quando pensamos nas implicações do uso desse produto ou nas pessoas envolvidas com a realidade do símbolo em questão. Mesmo hoje, vez ou outra a gente vê surgir mais uma marca ou celebridade se apropriando de símbolos de grupos oprimidos e esterilizando-os de qualquer reflexão sobre seu contexto original, pra que possam ser vendidos com facilidade (temos como exemplos mais recentes a querida Anitta e sua nova skol beats 150bpm ou o “espaço favela” do Rock in Rio).

Um poderia dizer que a atlética não se encaixa na comparação por ser uma organização sem fins lucrativos. Entretanto, é inegável que um importante aspecto dessa organização é a necessidade de gerar caixa e, principalmente, vender produtos. O problema é que seria impossível vender esses produtos se houvesse qualquer reflexão sobre o contexto do qual o símbolo foi tirado. As imagens que comparavam camisas furadas de bala com os produtos da atlética (e seus preços) foram chocantes e podem parecer absurdas, mas o ponto apresentado é que o nome estampado nesse produto teve que ser completamente dissociado da realidade que ele representa pra poder ser vendido.
A imagem de pessoas brancas de classe média-alta usando camisas estampadas com a palavra “favelada” é no mínimo insensível. O argumento de que isso serve de alguma forma pra “enaltecer” a favela ou de criar algum tipo de representatividade não faz o menor sentido. Assim como o vídeo², os anúncios³ e os comentários, o que acontece aqui é uma simples apropriação da linguagem,dos símbolos, da estética, fingindo que seus significados e implicações podem ser ignorados. Tudo com o objetivo de divertir, integrar e, principalmente, vender.
E é claro que isso não é intencional. A proposta aqui não é de que a diretoria da atlética deliberadamente escolheu insensibilizar os estudantes sobre a desigualdade sócio-econômica. Só que é impossível vender um produto e fazer as pessoas sentirem orgulho de usa-lo se ele representa a pura segregação sócio-espacial. A partir do momento que essa camisa tem que ser vendida, o contexto tem que ser ressignificado. Nisso, essa segregação deixa de ser um problema e passa a ser algo a ser comemorado.
“A gente é favela sim. Mas as casinhas de tijolo, não a segregação. O churrascão na laje, não a violência constante do Estado. O funk, não o encarceramento em massa.”
Porém o que realmente me motivou a escrever isso tudo (visto que o nome já está em processo de mudança) foi ver que, apesar da posição oficial da atlética de dizer que a decisão foi tomada “por vontade própria, sem influência externa” e que a diretoria “já tinha intenção de mudar pelos próprios motivos” contrasta demais com a posição individual dos membros. Como dito, eu entendo que houve uma pressão exagerada e o conflito chegou a proporções desnecessárias, mas é infantil e manipulador manter a posição de que os estudantes reivindicando a mudança são loucos e sem fundamento. O que ficou claro pela cronologia é que a mudança só aconteceu por causa dos protestos. Se os membros ainda acreditam que a mudança é pra “agradar” um grupo, mesmo dizendo na nota que a decisão partiu da diretoria, tem alguma coisa errada.
Além disso, os shades e toda a ironia na veia de “agora a gente vai poder dizer que só quem viveu sabe”, “os produtos vão virar relíquia” e “agora que vocês conseguiam o que queriam tem que parar de reclamar”, só ajudam a contribuir com a narrativa de que na verdade os membros não estão nem aí pro problema e estão cedendo sem fazer nenhuma reflexão.
Na esperança de que o ponto esteja claro, queria partir pra resposta de alguns contra-argumentos que consegui encontrar:
“As pessoas que reclamam do nome não fazem questão de participar da atlética”
Eu poderia atribuir isso ao fato de que qualquer pessoa que tinha algum problema com o nome era tratada como louca/exagerada na rodinha mas no fim das contas não importa. Existem mil motivos pra não participar das coisas da atlética e alguém não querer/poder fazer isso não diminui o problema em questão. Se a atlética tem pretensão de representar os estudantes, os mesmos deviam ter o direito de não ser associados a um nome ofensivo.
“É só um nome de atlética, quem mora na favela não ta nem aí pra isso”
Eu concordo, mas esse na verdade é um ótimo argumento a favor da mudança. Se é só um nome e ele na verdade nem representa quem era pra representar, por que não mudar pra um que não tenha um problema moral?
“Atlética não tem nada a ver com política”
Isso simplesmente não é verdade. Desde as eleições a foto de perfil da atlética tem o filtro “antifascista”. A nota oficial da atlética cita uma preocupação em ser “socialmente responsável”. Esse argumento ta sendo usado só pra se isentar da responsabilidade ou por preguiça.
“Tem coisas mais importantes pra lutar e vocês preocupados com nome da atlética”
Por que isso não se aplica a atlética fazer festa por exemplo? Se o problema é que a universidade ta pra ser fechada, porque é responsabilidade só desse grupo específico fazer alguma coisa? E alem disso o que eles deviam estar fazendo exatamente?
“Vocês que criticam também são classe média-alta e brancos”
Sim. O argumento não é que é errado ser essas coisas (nessa discussão pelo menos), mas que é errado ser essas coisas e se apropriar da imagem de grupos marginalizados.
Por fim, queria dizer que sinto muito por todos que foram afetados por isso e que eu espero de verdade que esse seja um bom recomeço pra atlética (seja qual for o novo nome). Fiz questão de falar sobre porque vejo que faltou sim um diálogo mais honesto e aberto por todas as partes (mesmo que ambas tenham seus motivos) e também me preocupo com a forma como tudo foi passado pra quem é de fora. Espero que isso sirva como registro e também pra esclarecer pontos que não estavam claros pra quem quer que seja. Té.
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2: https://www.facebook.com/watch/?v=1444169269225132
3: https://www.facebook.com/faveladaufg/photos/a.1482798432028882/1645000759141981/?type=3&theater
4: https://www.facebook.com/notes/caav/nota-de-rep%C3%BAdio-a-favela-chegou/437215710418994/
5: https://www.instagram.com/p/B2yn5zdn2Ap/
6: https://pbs.twimg.com/media/EFRJ0LUXUAEb8n5?format=jpg&name=900x900
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