Alfredo
Conto inspirado no livro “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo
“E tu, Alfredo?”
“O que tens eu, Solfieri?”
“Qual a tua história de amor?”
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Alfredo
“Sabes ,Solfieri, que eu também não sei.”
“Como não sabes Alfredo?”
“Não sei, apenas isso.”
“Hmf…Deve ser o vinho que há de faltar.”
“Ou mulher! Estamos esperando! Traga logo essas garrafas.”, gritava Bertram.
“Não, não, Solfieri, não é a falta de bebidas, muito menos de oportunidades, eu apenas não sei minha história de amor porque, de fato, eu não sei se algum dia já amei.”
“Como assim não sabes Alfredo? Tu nunca sentiste? Ou apenas não sabes como é a sensação?”
De repente, chega ao lado da mesa, a moça da taverna, que trazia em suas mãos umas quatro ou cinco garrafas de vinho geladas. Essa, distribuiu em taças a bebida, com uma cara rabugenta e chata, para cada um dos cavalheiros da mesa.
Os homens, pegaram suas taças e brindaram com grandes sorrisos em seus rostos. Tomaram tudo, e, com as bochechas um pouco mais rosadas do que antes, voltaram a conversa.
“Então Alfredo? Tu sabes ou não o que é o amor? O que é amar?”
“Não sei muito bem, Solfieri.”
“Havia alguma moça a qual tu já sentiste atração?”, falou Gennaro.
“Sim, sim, claro que havia. Mas não sei. Não acredito que aquilo tenha sido amor.”
“Conte para nós Alfredo, e julgaremos se é ou não amor.”
“Muito bem.”
Era mais ou menos época de inverno na minha amada Lisboa.
Eu, estava no auge de minha juventude, aproveitando os autos prazeres que essa vida podia nos oferecer, bebendo dos mais deliciosos vinhos e conhaques, me perdendo na cidade diversas noites, e entre outras coisas das quais não acho necessário falar agora.
Naquela noite, passeava solitário pelas ruas portuguesas, filosofando sozinho, sobre o sabor alucinante daquele vinho, d’Yquem 1811, que havia tomado mais cedo.
Estava, naquele momento, passando em frente do grande Porto de Lisboa, olhando ao céu estrelado que apenas a mais noite das noites poderia nos proporcionar, olhando a enorme lua que refletia parte de sua luz discreta sob a superfície das calmas ondas, que, de vez em vez, se quebravam sob a forma de um monótono som de ida e volta e, um pouco mais a frente (no cais), ela, a mulher que mudaria de vez toda a minha vida.
Ela, estava lá, parada, sentada. Olhando, assim como eu, para a imensidão que era o céu daquela noite, enquanto assobiava uma das mais lindas melodias que eu já ouvira em toda minha vida.
Vestia um vestido branco. E seus cabelos! Ah seus cabelos! Tão brancos e tão limpos como a própria neve, tão longos e tão discretos como o próprio inverno, tão lindos e tão belos como o seu próprio nome, Bela.
Estava de costas para mim, por isso, não conseguia ver seu rosto. E, como uma tentativa de vê-la, de contemplá-la ainda mais, fui me aproximando, em passos rápidos, porém discretos, para que essa não me ouvisse chegar.
De repente, como se tivesse sentido a minha presença, essa se vira.
E, sim, pude ter certeza, absoluta certeza, de que ela, aquela figura, não pertencia ao reino dos homens, e sim, ao reino dos céus. Sua beleza, ia muito longe de qualquer duquesa ou qualquer princesa que já vira em toda minha vida, seus olhos, eram de um negro tão infinito como o próprio céu. E sua boca! Ah sua boca! Era de um vermelho tão lindo e tão rosado como o próprio pôr do Sol.
Ela, ficou a me encarar, a espera que eu a falasse o porquê de eu estar ali, parado, encarando-a.
E , após alguns segundos depois desse choque, voltei a mim mesmo e falei:
- Linda noite, não?
- Sim, certamente. — falou ela, voltando um sorriso discreto para o céu. — Uma pena que não há tantas noites como essa aqui em Lisboa.
- Sim, é realmente uma pena.
E um silêncio se instaurou no ar. Até que eu tentasse começar novamente a conversa.
- Senhorita, — falava eu gaguejando um pouco — se me permite perguntar, o que uma mulher como você, está a fazer aqui no meio do nada?
- Não estou no meio do nada, “se me permite dizer”, e estou a fazer a mesma coisa que você está fazendo nesse momento, senhor.
- E o que seria?
- Filosofar — falava ela, devolvendo um sorriso alegre e discreto para mim.
E, percebendo que algo ali, uma “química” estava acontecendo entre nós dois perguntei:
-Qual é o teu nome? — dando um breve sorriso para ela.
- Bela.
E após essa noite, eu e Bela, passamos a nos encontrar todas os dias, todas as noites, no mesmo cais, a fim de conversar, filosofar e trocar carícias até o nascer do Sol.
Porém, mesmo com todas essas coisas, eu não acreditava, nem mesmo hoje acredito, que aquilo fosse amor. Afinal, mesmo com os infinitos beijos e carícias que trocássemos, eu sempre queria algo a mais, algo sempre estava faltando.
E uma dessas noites, em que eu e ela estávamos lá, de rosto a rosto, a beijar e acariciar um ao outro.
Estávamos em meio a um dos muitos momentos de carícias da noite. Eu, estava a beijar seu pescoço, sentindo através da minha língua, todo o fervor delicioso que era a pele daquela garota. Porém, algo estava errado, faltando, para que aquele momento se completasse, se torna-se maior.
Foi quando que eu fiz aquilo, aquela ação que me deixaria afastado para sempre da minha busca pelo prazer total, do verdadeiro amor.
A mordi. Mas a mordi tão forte, e tão brutalmente, que apenas aquele pedaço de carne em minha boca fora o suficiente para matá-la.
Estava deliciosa, aquela carne, aquele sangue, tão divinos e tão puros que apenas um anjo, como Bela, poderia me proporcionar.
Naquele momento, a noite, a cidade, o porto, tudo não mais importava.
Era apenas eu e o anjo caído que, ao dar sua vida, seu corpo para mim, me deu também, o prazer, o amor que apenas o divino é capaz de proporcionar.
A devorei rápido. Não conseguia e nem queria parar. Era muito bom, muito prazeroso para se jogar fora.
E, após toda essa eloquência que tive, finalmente abri os olhos e vi.
Aquela cena horrível, só presente em meus piores pesadelos:
Um cais sujo, repleto de sangue e carne espalhados por todo o lado.
Um cadáver, com muitas partes faltando.
E eu, com as mãos e as bocas sujas de sangue, fedendo a morte.
E, depois daquela noite, nunca mais fui em busca de uma mulher, muito menos de um amor, pois não queria aceitar que aquilo acontecesse novamente.
Após terminar a história, Alfredo, olha para a mesa.
Todos estavam cochilando e dormindo em cima de seus braços.
“Hmf…Ignorantes”, falava Alfredo com raiva, enquanto esse ia se levantando de sua cadeira.
…
