Diário de um Navegador (1ª parte)
“Navegar é uma necessidade
Uma crueldade
Instituída por aqueles
Que nunca,
nem uma vez na vida
Precisaram sair para o mar”
…
Bem, se alguém está a ler esse pequeno diário, venho aqui apresentar-me.
Sou Bernardo, e apenas isso, tripulante da barca de seu Joaquim da Fonseca, bom homem e bom capitão, que venho a mim alguns meses atrás com a maldita proposta que não pude recusar.
“Vamos a América, meu jovem! Vamos a América!”, disse ele, com essas mesmas palavras e com aquele entusiasmo vívido em seu rosto digno daqueles que passaram mais de uma hora com uma boa garrafa de vinho na mão. Ficou a me esperar, quieto e com aquele olhar afobado o meu “sim” desgostoso.
Até hoje lembro-me da maldita situação que ele me deixara. Não queria ir, claro, porém, o fato de eu ser um desgraçado, pobre e protestante não me deixavam muitas opções.
Ganhei o cargo de cozinheiro da barca, devido ao meu talento peculiar em fazer um bom peixe, com apenas alguns pescados que já estão quase a apodrecer, e um bom vinho com uns bons cachos de uva barata.
Não vou reclamar, óbvio, poderia estar numa situação muito pior, muito pior, como a de João, que terá de manivelar todas aquelas malditas velas, faça chuva ou faça tempestade. Porém, devo admitir que não estou numa posição da qual posso usufruir com tranquilidade, pois, após ver-me ao meio de todos aqueles homens (fortes e enormes) senti que na menor das tempestades que viriam a tocar nossa barca, seria eu, com quase toda a certeza, o primeiro a ver Satanás e outros de seus amigos no fogo escaldante do inferno.
Por isso, treinei e treinei minhas habilidades aquáticas (dignas de um frango dentro d’água), durante esses poucos meses que tinha antes dessa minha viagem, a fim de pelo menos conseguir dar uma mínima respirada quando essa barca passar por suas poucas e boas.
Bem, infelizmente terei que parar de escrever agora. Tenho de ir adentro na barca antes do anoitecer e o Sol já esta ameaçando em deixar Lisboa.
Que a sorte esteja comigo!
…
Hoje o dia estava claro, céu azul, com curtas nuvens brancas que cortavam o horizonte tão lentamente que faziam o ritmo de nossa barca parecer rápido.
Havíamos aberto ao máximo todas as velas que tínhamos a nossa disposição, tentando pegar pelo menos um pouco do quase vento que estava a empurrar nossa embarcação. E, visto que esse demoraria a tomar percurso novamente, todos tornaram a se sentar nos muitos cantos da barca e tornar a apreciar aquela belíssima paisagem que o oceano tornava a nos mostrar.
Já havia se passado um dia desde que nós havíamos deixado Lisboa e eu, mais do que todos os outros, parecia ser o mais fascinado, e até o mais preocupado, com essa grande aventura que estava a começar.
Afinal, como eu, mulato, protestante e pobre, que viveu toda a sua vida entre ruas pequenas e casas minúsculas, poderia algum dia imaginar que esse mundo era algo muito maior do que o grandioso horizonte do cais de Portugal?
De um dia para outro, me acordei ao mar, sob o mar e entre o mar.
Me vi, no meio daquele azul infinito da qual, além de me agradar de princípio, me trouxe um medo da qual nunca senti antes (pelo menos não dessa intensidade).
Me senti pequeno, como uma formiga na pata de um leão que esta a dormir, afinal, a única coisa que ainda me deixa vivo, que me fazia sobreviver era esse sono profundo e limitado que esse monstruoso horizonte havia de ter.
No momento em que havia deslumbrado tudo isso pela primeira vez (hoje de manhã), lembro-me de ter caído sob os meus finos joelhos, a frente dos outros marinheiros que estavam arrumando a embarcação e, lembro-me muito bem da discórdia sarcástica da qual muitos deles, após verem esse meu momento de fascínio desesperado, fizeram.
“Já se vai Bernardo?”, “Não vai aguentar nem dois dias.” foram alguns desses comentários dos quais não me orgulho (nem um pouco) de ter recebido.
Porém, o que posso eu fazer além de aceitar? Afinal, como eu disse, esses homens são muito maiores e muito mais fortes do que eu e, não estou a fim de arranjar uma briga da qual com certeza irei morrer.
Bem, pelo menos hoje estava um dia incrivelmente calmo e bonito, sem muitos movimentos bruscos da parte do mar que me fizessem querer voltar já no primeiro dia.
Ah! Nada como um bom começo para uma grande jornada.
…
Não escreverei nada sobre o dia de hoje (que não fora nada de mais para falar a verdade), mas sim sobre a noite de ontem.
Era uma noite que, assim como o dia, se apresentava de maneira tão monstruosamente linda que era difícil não olhar (nem mesmo de relance) para aquela beleza infinitamente escura, onde apenas as luzes de nossa embarcação e as muitas estrelas no céu, lá acima, iluminavam esse oceano sem fim.
Todos, no momento, tornavam a jantar e conversar na sala de banquetes da barca.
Eu, com meu pratinho e minha garrafa de vinho, vim para o lado de fora da embarcação, pondo-me a sentar em um dos muitos cantos daquela já isolada área, a fim de comer e beber solitariamente, enquanto olhava para o céu estrelado daquela noite.
E, por umas três ou quatro horas fiquei lá, a olhar para o horizonte escuro e infinito que ia se estendendo a minha frente, enquanto as luzes vindas lá de dentro da barca iam se apagando, me sujeitando cada vez mais a uma escuridão e solidão tão evidentes como as estrelas no céu daquela noite.
E, quando a última chama de vela se foi, me vi envolto na noite, na escuridão do oceano, que me trouxe além de uma extrema calma, um grande questionamento que, além de me desconfortar bastante, me fez pensar e repensar bastante.
Afinal, se eu morresse naquele momento, naquela hora, faria tanta diferença assim para a embarcação?
Minha vida tem a mesma importância que a do capitão? Que a de um marinheiro?
Sei que não.
Mas gostaria que tivesse.
…
Hoje o dia amanheceu bonito.
Com um nascer do Sol lento e calmo que, através do reflexo d’água, mostrava-se como uma pintura simétrica de traços azuis e laranjas que se apresentava tanto no céu dessa manhã como no mar que navegamos.
Eu, com meu café em mãos e meu olhar no horizonte, tornava a observar isso, enquanto os outros marinheiros tornavam ou a acordar ou a comer sua refeição matinal no interior da barca.
Já me acostumei a comer sempre lá fora, sozinho, no horário das refeições, e eles, tampouco se importam com a minha ausência na mesa durante os almoços, as jantas ou os cafés da manhã.
João, entretanto, mostrou-se hoje muito mais curioso do que indiferente sobre o que eu faço nos horários das refeições.
“Por que comes sempre aqui fora Bernardo?”, perguntou ele sentando-se ao meu lado.
“Não sou muito sociável.”, respondi.
“Não acredito.”
“Como assim não acredita?”
“Não acredito que sejas por isso que sempre come aqui fora.”
“Então é pelo o quê João? Se me conheces tão bem.”
“Acredito que seja pela paisagem, Bernardo. “
“E por que achas isso?”
“Porque és uma coisa nova para tu. Uma coisa que te fascina e que te amedronta.”
E o desgraçado não poderia estar mais certo.
Sim, admito que vou lá fora nos horários das refeições para, além de fugir um pouco de meus companheiros, observar também essa paisagem, ver esse infinito céu e esse infinito mar que se estendem a minha frente, sentir o sopro leve das ondas que levam-me a um descanso eterno de alguns segundos e ouvir o silencioso sono das águas que dormem abaixo de mim.
No momento que ele falara isso, não consegui me expressar, falar nada. Não me dera tempo disso.
Ele, após a fala, levantou-se, fez-me um aceno com a cabeça e se foi, adentrando na barca.
As vezes surpreendo-me com o conhecimento que o meu irmão tem sobre mim.
…
Hoje tive um fim de tarde extremamente agradável.
Passei-o junto de meu amigo Joaquim (ou Capitão Fonseca como todos os outros o chamam) conversando e brindando com nossas taças velhas de vinho essa nossa primeira semana (bem-sucedida) em alto mar.
Estávamos em seu gabinete de capitão, com ele sentado em sua bonita poltrona vermelha e eu, em uma das muitas cadeiras que lá ficavam dispostas. O Sol, que ia se pondo de maneira grandiosa na janela do capitão, trazia a leveza, o sentimento de conforto e bem-estar que me vinham a mente apenas quando me esquecia, por só alguns segundos, que navegava, que eu realmente estava em alto mar.
“E, como vais essas tuas expectativas Bernardo? Para essa nova terra que estamos a ir.”, perguntou ele.
“Para ser sincero Joaquim, a única expectativa que eu tenho em relação a essas terras é que cheguemos o mais rápido possível.”
“Ora Bernardo, deixa disso! Tu és o que mais folgas aqui e, ainda assim, é o que mais teme todo esse mar. Deixa isso de lado um pouco amigo. Tente ver esse oceano como um companheiro, que te leva, que te guia para um novo mundo!”
“Se eu pudesse fazer isso amigo, transformá-lo em um companheiro apenas com a minha força de vontade, já o teria feito, tenho certeza de que já o teria feito. Porém, o que tu deves entender é que isso não cabe a mim, é algo irracional, é algo que eu não consigo controlar.”
“Bem,…”, falou ele dando um suspiro, “…não posso mudar algo que sempre fora assim.”
“Como assim ‘sempre fora assim’?”
“Amigo admita logo que tu és um medroso.”
“Eu medroso?”
“Sim, tu.”
“E no que você se baseia para dizer isso?”
“Hmmmm…no primeiro dia aqui na barca,…”
“Ah Joaquim mas aquilo lá fora foi só um…”
“…naquela vez no cais….”
“Aquilo tinha sido só um susto de leve que…
“…e o incidente do gato.”
E então, por uns instantes, fiquei quieto, pensando e refletindo sobre aquele incidente.
“É, admito, sou um medroso mesmo”, falei eu.
“Falei!”, falou ele com um sorriso no rosto.
E então, tornamos a rir e gargalhar, relembrando daquele episódio tão engraçado e tão nostálgico que, sinceramente, é uma das muitas poucas lembranças que tenho da minha infância que realmente me fazem gargalhar.
…
Ah! Mas que dia horrível que Deus nos mandara hoje!
Justo hoje que tive o meu primeiro bom sono desde do começo dessa viagem, que sonhei (pela primeira vez em muito tempo) como uma alegre e despreocupada criança portuguesa outra vez, vem-me Deus a acordar-me com esse malditos mares, com essas malditas ondas que, além de me mandar incômodos movimentos ao navio (fazendo quebrar aquele silêncio tão pacífico e calmo que só se instaura quando a última luz de nossa barca se apaga), nos trouxeram também aquela rápida sensação de correria e de desespero, tanto de curiosidade, para saber o que estava acontecendo, quanto de sobrevivência.
Estava chovendo. Mas não uma chuva qualquer, daquelas que podem vir e podem ir que não farão a mínima diferença a nossa barca.
Era uma tempestade.
E não estou exagerando (como geralmente faço) em dizer que essa era uma tempestade! Confio no que vi e no que ouvi e, o que vi foi um cenário apocalíptico onde grandes relâmpagos riscavam o céu a cada segundo naquela manhã negra, onde o Sol nem ousava acordar para ver tudo aquilo, onde cada gota de chuva que caía sobre nós feria, machucava muito mais do que balas de chumbo sobre nosso peitos.
Vi aquele horizonte, que tanto amava observar, olhando para nós com fúria, com raiva, tentando nos fazer afundar, cair, para o fundo daquele mar tão profundo como a própria imaginação.
No fim, acabamos conseguindo sair daquela tempestade sãos e salvos, tendo perdido apenas alguns objetos da barca e parte da monotomia de todas as manhãs dessa barca.
Bem, pelo menos posso dizer que sobrevivi, sobrevivi a esse primeiro desafio de muitos outros que estão a vir.
…
Hoje não estou com empolgação o suficiente para escrever.
Tive uma noite horrível! Horrível!
O suficiente para deixar de lado (pelo menos hoje) aquelas descrições grandes e bonitas que tanto gosto de escrever.
Dormi mal.
Com uma cama, com lençóis e com cobertas extremamente encharcados e desconfortáveis que, todas as vezes que me movia sobre ela, me lembrava sobre como foi terrível e assustador aquela tempestade de ontem de manhã.
O pior de tudo foi perceber que eu era o único, naquele barco inteiro, que ainda permanecia acordado, que realmente estava desconfortável com aquela situação deplorável e miserável que todos nessa barca nos encontravamos.
Ouvia os roncos dos marinheiros vindos do corredor ao meu lado. Ouvia como todos aqueles homens, cansados daquela turbulenta manhã, sossegavam e descansavam tranquilos, sobre as suas encharcadas camas e os seus encharcados lençóis de mais um dia de trabalho.
Me vi sozinho. Solitário. No meio daquela escuridão infinita que me cercava, que me rodeava e que me fazia cair no meu mais profundo medo, na minha mais profunda ligação a infância que ainda preservo comigo até hoje: o medo do escuro.
Um medo tão patético e ao mesmo tempo tão irracional que, desde dos meus primeiros anos de vida até hoje, nunca tornei a superar.
Mas o que mais pode-se esperar de um medroso franzino e esquelético como eu?
Que, nem ao menos o medo do mar conseguiu superar?!
As vezes acho que Deus estava com graça quando me criou.
…
Hoje tive um sonho muito estranho.
Sonhei que voava. Mas não sobre os pacíficos céus de Portugal, muito menos sobre as poucas nuvens de Lisboa. Voava sobre o mar, sobre esse infinito horizonte azul que me aterroriza tanto, que me faz revirar acordado muitas noites, em pânico, com medo, dessas extensas águas, que um dia ainda me levarão a morte.
Voava especificamente acima de diversas nuvens carregadas, totalmente pretas e escuras que se direcionavam a uma embarcação um pouco mais a frente.
Eu, prevendo o que iria acontecer, me joguei, voando, o mais rápido que pude para aquela embarcação, para avisá-los do perigo que aquelas poucas nuvens poderiam trazer.
Mas, antes que eu pudesse perceber, me vi preso, dentro de uma escuridão infinita e silenciosa. A princípio não entedi até que aquilo falou:
- O que você estava pensando em fazer, Bernardo? — falou uma voz.
- Quem és? E como tu sabes o meu nome? — falei aterrorizado.
- Bernardo,…porque tu perguntas algo que ja sabes?
- Eu já sei…?
- Claramente tu já sabes.
- Não! — gritei eu — Não pode ser possível tu não podes ser…
- Sim, Bernardo, sou eu o mar. Demorei um pouco para te achar, admito, mas agora que tu esta aqui…
- Por favor! Poupe-me vossa…vossa…
- E por que eu faria isso Bernardo? Por que pouparia um fraco que nem de desafio serve?
- Mas…por que não poupar? Por que tens de me matar?
- Para que eu continue sendo temido meu jovem.
- Mas…por que?
- As vezes só conseguimos o devido respeito com o medo.
- O que?
- Desculpe meu jovem.
E, raios foram-se sobre o meu corpo, matando-me aos poucos, fazendo-me cair e cair até acordar aos berros no dormitório.
Bem, não preciso nem dizer o que meus companheiros acharam sobre isso.
…
Hoje vi que João estava um pouco disperso.
Era um fim de tarde lindo.
O Sol, ia-se pelo horizonte alaranjado, o céu se estrelava, mostrando-nos pinceladas fracas da noite que estava a chegar, e o mar, pela primeira vez em muitos dias, permanecia calmo e solene, levando-nos de maneira tão relaxada e devagar como a brisa suave desse dia.
Eu, estava em um dos cantos da barca, sentado, lendo alguns trechos das sagradas escrituras quando, de repente, ouvi um barulho alto na minha frente.
Era João. Tinha caído, tropeçado em algo que permanecia fora de seu olhar no momento.
“Esta bem João?”, perguntei eu.
“Sim. Pelo menos, acredito que sim .”, falou ele, sentando-se ao meu lado, tentando ver se tinha se ferido.
“Está machucado?”
“Não, não irmão. Só fora um pequeno arranhão de leve aqui.”, disse ele mostrando um pequeno corte no joelho.
“Sabe irmão…”, continuou ele, “essa viagem esta me desgastando muito.”
“Sim, também está me cansando bastante irmão.”
“E acredita que o capitão falou que ainda teremos mais alguns meses para chegarmos lá, naquela merda de América?”
“É, ele me falou também.”
“Ah, não sei irmão.”
“O que João?”
“Se tudo isso realmente vale a pena, sabe?”
“Mas por que não valeria?”
“Bernardo, você não vê como a nossa vida se tornou um inferno aqui? Nunca em Portu…”
“Mas é a nossa liberdade que está em questão João! Viemos para termos uma segunda chance…”
“Segunda chance Bernardo?! Liberdade?! Rá! Você acha mesmo que conseguiremos chegar a isso? Chegar a essa tal de América que mais parece um conto de fadas do que realidade? Abra seus olhos Bernardo, nunca vamos chegar lá! Essa merda de mar vai nos derrubar antes.”
E então, ele se calou, percebeu que tinha falado demais, e se levantou, deixando-me novamente sozinho, naquele fim de tarde lindo, com um livro na mão.
…
Hoje o dia amanheceu nublado, com extensas nuvens carregadas, negras de chuva, acima de nossas cabeças.
O capitão ordenara, assim que viu esse cenário caótico, para todos os marinheiros se apresentarem em seus postos e fizessem de tudo para que essa barca saísse do lugar.
No momento, estava a preparar o café da manhã quando percebi a correria incessante que ocorria nos corredores do navio. Todos se arrumavam apressadamente, indo aos tropeços para fora do conforto do interior da barca, deixando-me sozinho, lá na já esquecida cozinha da barca.
Preferi não olhar as janelas, muito menos tentar prestar atenção aos gritos do capitão vindo do exterior da barca, afinal, se já me aterrorizo com a simples ideia de uma tempestade, como ficarei eu se ver que há uma já na minha janela?
Bem, não havia pensado muito nisso na hora. Deixei de lado a ideia, a lembrança de que algo estava acontecendo lá fora e fui-me a filosofar e a relembrar de lembranças já esquecidas, de Portugal, de criança, da minha mãe.
Relembrei como ela me abraçava, como cantava para mim e como essa me consolava toda vez que sentia medo.
Então, comecei a querer que ela estivesse aqui comigo. Cantando para mim, fazendo-me esquecer, por alguns instantes apenas, da tempestade, dos problemas, de tudo de ruim que me rodeava e que ainda me rodeiam nesses dias de mar.
Comecei assim a rir.
Comecei a ouvi-la.
Ouvir sua voz, suas palavras, seus desafinos.
Sua música, sua canção.
E então, chorei.
Deixando as lágrimas pesadas riscarem mais meu rosto do que qualquer outro dia que estive aqui, nessa barca.
Senti saudades.
Não mais de Portugal, não mais na terra firme do continente, mas sim nela, naquela pessoa tão especial para mim e que me fizera tão bem, ela, minha mãe.
Uma figura que nunca mais verei, ouvirei ou sentirei novamente nessa vida e que, após algum tempo, se tornará mais uma lembrança esquecida, ao lado do incidente do gato, ao lado do meu primeiro dia na barca, ao lado de meu pai.
…
Hoje estava com a cabeça nas nuvens!
Estava a pensar enquanto preparava o jantar da tripulação, naquele sonho que tive alguns dias atrás, onde o mar me dizia aquela frase sobre o respeito, sobre a forma dele de conseguir isso, sobre o que ele tinha de fazer para mostrar poder, presença e…
“Pelo amor de Deus Bernardo! Tira isso já da panela!”, gritou o capitão que passava por perto na hora, sentindo o cheiro de queimado vindo de minha cozinha.
Nessa hora, acordei de meu sono acordado e vi todos aqueles peixes, aquele arroz, queimados, pretos.
Me desesperei, claro, afinal, são poucas as vezes que vejo esse tipo de situação, ainda mais quando eu estou a cozinhar. Corri de um lado para outro daquele meu pequeno cômodo, levando as panelas para longe do fogo, vendo se podia salvar pelo menos alguma parte da refeição de mais tarde.
Infelizmente, quando fui mirar novamente a panela, percebi que tudo ali já havia deixado de ser o que era há um bom tempo.
Indignado com a situação, olhei novamente para o capitão e ele, com uma reprovação em sua cara foi seguindo em frente pelo corredor da barca.
“O que eu devo fazer Fonseca?!”, perguntei eu gritando.
“Sirva isso mesmo Bernardo.”, respondeu ele com indiferença.
“Mas isso não é…”
“E?”
“Fonseca, você tem que entender que…”
“Não Bernardo,…”, falou ele gritando voltando pelo corredor e indo até a porta da cozinha, “…você tem que entender que nós não temos tanto alimento assim em nosso estoque para ficar substituindo toda vez que você faz cagada! Todos vão comer isso e por culpa de sua incompetência! Agora faça-me o favor de pelo menos fazer essas coisas um pouco mais comestíveis até o jantar e não venha a me chamar mais, entendido?!”
“Sim senhor.”, falei eu assustado.
E ele se foi embora pelo corredor.
Tenho que me lembrar de ficar mais atento e não errar mais, principalmente quando o Fonseca bravo.
…
Hoje fora um dia engraçado.
Nada realmente acontecera aqui na barca.
O dia passara rápido, levando consigo as nuvens, o céu e Sol, deixando-me apenas com a noite, com o céu negro estrelado mais uma vez.
A barca, movia-se lentamente, indo calmamente pelas suaves águas desse nosso tão imprevisível oceano.
Os marinheiros, como de costume, trabalhavam e trabalhavam pelos mais diversos cantos de nossa embarcação para que pelo menos a América, chegasse um pouco mais perto.
Fora um dia engraçado exatamente porque nada aconteceu ou ocorreu hoje e, mesmo assim, fora um dos meus melhores dias aqui na barca.
…
Hoje o horizonte amanheceu nublado.
As nuvens, tão cinzas e relampejantes como sempre, iam a nós a serviço da morte.
Eu, como tinha sido o primeiro a acordar, fui o primeiro a ver o que seria um dos nossos maiores desafios.
Saí correndo pelos corredores curtos da barca, gritando assustado e afobado, para que todos aqueles quase descansados marinheiros pudessem acordar.
“Acordem! Acordem! Uma das grandes esta a vir a cá agora! Acordem”, gritei eu.
“Relaxa Bernardo, não deve ser nada.”, falou Roberto, o marinheiro que menos me aguenta em toda essa barca.
“Estou a dizer a verdade Roberto. És gigantesco.”
“Como todas as outras vezes imagino.”, gritou um rouco marinheiro em um dos outros dormitórios.
“Vocês tem que acreditar em mim eu…”
E, de repente, um som estrondoso invadiu nossa discussão, o chão moveu-se, levando-me a cair sob meus joelhos e as águas do mar, adentram, violentamente, por todo o corredor da barca.
“É o fim.”, pensei eu sob meus joelhos.
Os marinheiros, levantaram-se todos rapidamente, indo as pressas para o exterior de nossa tão estável embarcação. Certamente, eles, ao saírem, também perceberam que aquilo poderia ser o nosso fim, afinal, muitos voltaram para seus cômodos, indo juntar-se a seus terços sujos, suas molhadas Bíblias ou a suas velhas garrafas de vinho. Preparando-se para a morte.
Eu, como vi que muitos já haviam desistido, peguei meu pequenino caderninho e comecei a escrever esse que pode vir a ser o meu possível último texto.
Disseram-me que há uma enorme onda vindo para cá agora.
Despeço-me aqui.
…
Hoje, acordei de uma maneira bem estranha.
Os raios de luz (bem prováveis que fossem do Sol) vinham fortes sob minhas pálpebras, forçando-me a acordar, a abrir os olhos.
Parecia ser um fim de tarde estranhamente confortável.
O Sol, mais a frente, na rachadura de uma das paredes da barca, ia se pondo de maneira belíssima, desaparecendo sob aquele calmo e silencioso horizonte que era o mar.
Estava deitado no chão, com as vestes quase que completamente encharcadas e com uma incômoda dor que invadia minha nuca.
Quando tornei a me sentar, vi ao meu redor muitos de meus companheiros deitados no chão ao meu lado, todos cobertos tanto de sangue quanto pelas águas salgadas de todo esse ilustre horizonte.
Me levantei correndo, gritei e gritei como nunca antes havia gritado, mas não me atrevi a me mover. Estava paralisado, estava com medo e estava em choque.
“Todos estão mortos.”, pensei.
“Todos estão mortos.”, falei.
“Todos estão mortos!”, gritei.
E então, como se fosse já fosse um costume meu, caí sob meus joelhos e deixei -me chorar e chorar sob todo aquele molhado chão até não poder mais
“Todos estão mortos”, pensei, “e logo eu estarei também.”
Fim da primeira parte
