Hermann Hesse — Pequeno Mundo [Minhas Impressões]

Pequeno Mundo [Civilização Brasileira — 1975]

Sou suspeito para falar das obras de Hermann Hesse, sempre gosto muito dos livros que leio desse autor e nesse caso não foi diferente. O livro “Pequeno Mundo” é um livro de contos, são contos bem curtos e interessantes, a maioria desses contos narra a vida de personagens peculiares da pequena cidade de Gerbersau (nem todos os contos se passam nessa localidade).

Gerbersau é uma pequena cidade do interior e como em toda cidade pequena, aqueles indivíduos mais excêntricos logo tornam-se motivos de fofocas e falatório e de certo modo me parece que Hermann Hesse tentou estabelecer uma certa crítica a esse modelo de vida provinciana em que todos se conhecem e em que há pouca privacidade.

Há um ponto em comum em todos os contos que compõem o livro: é o fato de todos os personagens principais desses contos serem jovens que sofrem com a angústia e indecisão frente a entrada na vida adulta e a necessidade de arranjar uma profissão.

É característico dos livros de Hesse esse aspecto da crítica a vida burguesa, mas o modo como o autor aborda isso não é no mesmo viés daqueles mais revolucionários. A abordagem de Hesse quanto aos problemas da vida burguesa se refere ao fato de que trata-se de uma vida voltada a moldar os indivíduos a uma determinada ordem que termina por apagar o espírito daquele indivíduo.

Referente-se a tendência desse modelo de vida de jogar o indivíduo numa cultura que supervaloriza o âmbito material e financeiro e renega a subjetividade e as aspirações artísticas ou transcendentais; a “vida interior” dos indivíduos é sufocada, sobrando apenas uma opulência exterior que é vazia no fim das contas.

É irônico porque Hesse acaba mostrando que o modelo individualista burguês de sociedade é na verdade danoso ao próprio individuo e a sua busca de autoconhecimento, talvez esse pretenso “individualismo” da vida urbana e moderna seja falso na visão de Hesse, porque não há de fato uma preocupação em estimular os jovens a buscar a partir de suas habilidades e capacidades um ofício, de modo que muitos sofrem com a pressão da sociedade e dos pais para seguir determinado caminho, passando a vida toda com um sentimento de incompletude e frustração por não terem seguido um rumo que melhor se adequaria as sua aspirações pessoais. Porém, me parece também que o autor considera que muitas vezes o ser humano é incapaz de escolher um caminho definitivo e correto, como se nada pudesse agrada-lo por completo e sempre lhe faltasse algo.

São contos muito parecidos, mas ao mesmo tempo com diferenças significativas, alguns tem final feliz, outros tem final trágico, em alguns o personagem consegue encontrar o rumo correto para sua vida, em outros o personagem se afunda cada vez mais na indecisão e na inércia diante da vida.

Recomendo muito essa leitura para aquelas pessoas que sentem-se perdidas e talvez até mesmo culpadas por não terem ainda encontrado um rumo profissional para suas vidas, essa obra talvez mostra que isso não é um demérito, mas simplesmente um característica própria de todo ser humano, pois todos de certo modo carregamos alguma tristeza por não termos atingido algumas de nossas aspirações juvenis.