Para onde vai a democracia?

Lembro-me de um filme antigão, “Ladrões de Bicicleta”, feito em finais de Segunda Guerra Mundial, cuja estética e conteúdo marxista denunciavam as mazelas sociais italianas, por si mesmas herança do fascismo. Este é um exemplo da vanguarda artística neorrealista, onde são comuns os finais infelizes. In casu, o enredo conta a simples história de um desempregado que tem sua bicicleta roubada, e nunca a recupera.

Viajando no tempo, para os dias de hoje, os ladrões de bicicleta voltaram à tona, não em forma de arte neorrealista, mas de uma antagônica retórica fascista com final feliz. Pois eis que nosso honroso deputado Jair Bolsonaro, com seu ideário militar e ética cristã, defendeu em entrevista que, se fosse presidente, daria “retaguarda” para que a polícia matasse os ladrões de bicicleta. Segundo ele, “o bandido respeita o que teme”, e se o ladrão de bicicleta não for morto, derivar-se-á dele um escalonamento de muitos outros ladrões, sendo os ladrões da Petrobrás a outra ponta do novelo.

Palmas para ele. A retaguarda da polícia limpará a bandidagem das ruas, protegendo assim as famílias. Bolsonaro apenas deixou um detalhe de lado: estamos num Estado Democrático de Direito, com uma Constituição que dá aos ladrões de bicicleta o direito à ampla defesa, ao devido processo legal e ao julgamento legítimo.

Existe em seu discurso uma flagrante ironia. O deputado carioca foi eleito de forma democrática, e pressupõe a si mesmo como potencial Presidente da República, cuja postura política passa por cima da própria democracia. O deputado, não obstante, quando é interpelado sobre seus absurdos de expressão, tende a falar de forma sutil e tolerante. Mas nada pode apagar tais absurdos e, sobretudo, a criativa e contundente esquizofrenia política que o acomete.

Um agente político de um saudosismo fascista é tudo que uma democracia, criada sob duras penas, não quer. E quanto aos ladrões de bicicleta? Estes devem ser detidos, julgados, condenados e por fim, aprisionados. Os problemas de impunibilidade de nosso país são também flagrantes. Mas que resolvamos isso com uma reforma democrática.

O papel imaginário da polícia bolsonarista é altamente autoritário, assemelhando-se bem ao Código Penal dos presídios, infalível e célere. Na prisão só existem duas penas para os infratores internos: agressão física ou morte.