
Há uma vida em cada minuto
Era uma manhã clara de sábado quando eu acordei pra mais um dia da minha vidinha de apartamento urbano. Na época eu possuía cabelos castanhos, curtos e cacheados, olhos de mesma cor, um rosto que não ajudava na minha autoestima, repleto de pelinhos de barba, saltando do queixo e acima da boca, construindo um projeto de cavanhaque muito style para a minha mentalidade jovem. Na noite de sexta-feira, eu havia combinado com meus fiéis companheiros de transtorno uma saída para uma festinha em Ipanema — onde eu moro com meus pais e meu irmão mais novo.
Na expectativa de mais uma noite repleta de risos e beijos superficiais, eu transcorri aquele dia numa paz celestial de invejar, até mesmo, aos monges do mosteiro de São Bento. Escutando música clássica enquanto lia o livro da vez, fiz com que a tarde rapidamente fosse chamar a noite. Estava já me vestindo no melhor estilo Rock n’ Roll quando minha mãe avisou que meus amigos haviam chegado. Pierre e Patrick deram um pulo na minha residência para forrarmos a barriga com qualquer comestível embalado que estivesse habitando na dispensa. Pierre era um rapaz bem afeiçoado, sorte que não tive. Patrick não era dos mais bonitos, mas também não era dos mais feios, ele havia acabado de cortar o cabelo e estava com um aspecto engraçado — como se estivesse lambido para o lado. Após prepararmos o organismo partimos à fronte da grande guerra noturna.
Chegando ao campo de batalha, como costumamos chamar as casas de festas, fizemos nosso caminho até a bancada do bar, a fim de comprarmos o fluido escolhido para segurar nossa mão durante a longa noite. Eu e Pierre escolhemos cerveja — nada novo sob o sol — e Patrick foi de caipirinha. Uma juventude inspirava o ambiente, exalando hormônios por todos os cantos daquele cubículo escuro e quente, onde uma banda de covers tocava num pequeno palco improvisado. A festa se desenrolou ao som dos mais variados hits do rock internacional. Foi uma verdadeira viagem, desde a revolução musical Bowieana até o Teen Spirit do Nirvana e além. Foi com essa trilha sonora que algo extremamente complexo aconteceu.
Próximo à bancada do bar, sozinho, ocupando minhas coordenadas únicas neste mundo, enquanto meus amigos haviam saído para desbravar aquela selva de pessoas, em busca de romances de uma noite para se envolver, estava eu sem um pingo de coragem para por em prática tal audácia, que sempre se desenrola facilmente dentro da minha fértil imaginação. Eram 22h30 no relógio do celular e eu me encontrava bêbado, num estado de profunda reflexão físico-filosófica, contemplando as teorias do campo da relatividade e tentando aplicá-las em lugares onde a realidade parece alterada, como aquele onde nos estávamos, quando avistei um rosto feminino que me chamou a atenção instantaneamente. De minha posição estática e distante, tentei averiguar aquela feição que me parecia familiar e desconhecida ao mesmo tempo. Ela tinha em torno de 1m70 de altura, usava um vestido amarelo simples e extraordinário, deixando nus os ombros de pele morena, detinha cabelos da cor do universo profundo, chegando até o peito, com as pontas pintadas de verde esmeralda. Esbanjava um sorriso enquanto conversava com as pessoas próximas a ela, me roubando parte do oxigênio que tentava adentrar o meu corpo. A esse ponto minha mente já pensava: “seria eu, mais uma vez, a vítima de minhas idealizações precoces?”. Mas — como sempre — ignorei o que meu gênio dizia e me deixei levar pelo romantismo que sempre dominou e influenciou meu psicológico.
Em meio a essa angústia uma ponta de coragem atormentou meu cérebro, forçando-o a ilustrar uma gama de cenários passíveis de acontecimento caso eu desse um passo, e mais outro passo, e outro, e outro… Foi quando, subitamente, tudo parou. Um silêncio agonizante tomou conta do ambiente, o som altíssimo da banda que estava a tocar sumiu; todos estavam completamente paralisados. Passaram-se pelo menos 5 segundos nessa estranha situação até todos os movimentos e sons gradualmente voltarem ao normal. Tentei encontrar Pierre ou Patrick para perguntar o que tinha acabado de acontecer, entretanto, não os encontrei e deixei de lado aquela consternação, imaginando ter sido apenas minha cabeça alcoolizada aprontando uma comigo.
Voltei meus olhos para onde a menina estava e ela continuava lá com suas amigas. Repentinamente, ela separou-se do grupo e deslocou-se na minha direção. Senti um frio percorrer meu corpo inteiro e um vazio ocupar minha barriga como se eu estivesse numa montanha russa. No entanto, ela estava direcionada ao bar e passou direto por mim como se eu não existisse ali.
Numa fração de segundo, sem pensar, me virei e toquei seu ombro. Ao sentir aquela pequena área de contato entre meu dedo e sua pele, um turbilhão de pensamentos insondáveis deixou minha mente conturbada, como uma TV chuviscando sem sinal, até ouvir sua voz dizer:
— Oi?
O chuvisco imediatamente parou e uma paz tomou conta de todas as instâncias do meu pensamento. Fui então capaz de responder com uma cantada que saiu da boca pra fora, sem pensar, sentindo como se não fosse eu falando ali:
— Vi você passar por mim e fiquei completamente atraído, daí eu te chamei — disse enquanto coçava minha nuca com a mesma mão do toque.
— Hm… E seu nome, qual é? — ela retrucou, rapidamente, enquanto cruzava os braços e me analisava de cima pra baixo de olhos cerrados.
— Carlos, e o seu?
— Carlos o que? — mostrando a palma da mão em sinal de “pare” como a adiar a resposta à minha pergunta.
— José Carlos Filho.
— Hmmm… Meus sentidos de dedução supõem que seu pai se chama… José Carlos! — disse ela apontando para mim com bastante animação.
— Não — respondi em meio a uma risada — é uma longa história.
Ela então lembrou que deixou minha pergunta em espera e respondeu:
— Ah! Meu nome é Alice — e complementou — por que você não me passa seu número e me conta essa história em outra ocasião?
Imediatamente ditei os nove números que me ligavam a ela.
Dois anos se passaram e estávamos namorando há um ano e meio. Alice havia se formado no curso de Artes Cênicas e escrevia peças aclamadas pela crítica, era uma jovem promessa. Eu me formei em Letras e passei a escrever crônicas esportivas em colunas de jornais do Rio e São Paulo.
Vinte anos depois, compartilhava anéis com Alice e publicava meu primeiro best-seller. Cuidava das duas meninas que tive com ela enquanto a mesma estava em turnês — dirigindo suas peças teatrais nos quatro cantos do Brasil. Quando voltava, era minha vez de partir para eventos literários e deixar, com uma dor no coração, Alice, que voltava para casa no recesso, cuidando sozinha das nossas pequenas. Foram anos conturbados, mas lidamos com a distância tranquilamente.
Mais trinta anos correram como um ponteiro corre pra atingir a metade do percurso de um relógio analógico. Estávamos enfim estáveis financeiramente, as meninas deixaram o ninho: uma casou com a colega de trabalho e foi morar no Canadá, a outra conheceu um francês enquanto fazia doutorado em astronomia nos Estados Unidos e por lá ficou. Eu e Alice mantivemos nossos pés fincados no Rio. Compramos um apartamento em Copacabana e ocupávamos nosso tempo com leituras e longas caminhadas no calçadão, a relembrar os dias de nossa mocidade.
Sete anos decorreram numa enorme lentidão com a chegada da velhice. Alice já não estava mais presente fisicamente, suas cinzas foram jogadas no mar — como ela sempre quis. Ao longo desses anos todos, mantive contato com Patrick e Pierre, que viajaram o mundo trabalhando juntos em projetos humanitários e há uns 5 anos voltaram ao Brasil. Desde então, quase todos os dias encontrávamo-nos em um barzinho de esquina na Av. Nossa Senhora de Copacabana para reclamar da juventude contemporânea e tomar uma cervejinha gelada, que Patrick passou a gostar depois de visitar, no mês de outubro, a Alemanha.
A minha visão naquela mesa de bar foi se escurecendo e acreditei estar morrendo. Entretanto, a luz voltou a atingir os meus olhos e eu me encontrava naquele mesmo salão, com a mesma banda cantando covers conhecidos por todos os corpos dançantes ali. Uma menina de rosto desconhecido, porém familiar, acabara de passar por mim enquanto eu puxava meu celular para checar as horas. 22h31.
— Arthur Araújo
