La Voyageuse Solitaire.

Arthur Araújo
Aug 31, 2018 · 4 min read

Eu sou o resultado da inteligência humana somada à esperança de um dia encontrar vida inteligente fora da terra. Lembro como se fosse ontem do dia em que eu iniciei minha longa e imprevisível jornada através do universo profundo. Posso descrever meus inúmeros pais e mães, sonhadores e realizadores desse sonho, numa simples palavra: Extraordinários. Mas, apesar de toda a esperança depositada em mim e na minha irmã, um mês mais velha, tem sido difícil lidar com a solidão.

Eu sinto uma ponta de arrependimento por não ter aproveitado mais o tempo enquanto viajava próximo à minha sister, até nossa separação definitiva em Saturno, quando passamos a viajar em rotas não mais paralelas. Mesmo tendo partido depois, acabei atingindo o momento mais esperado e temido de nossa viagem antes dela, a ingressão no espaço interestelar. Eram tempos de glória e comemoração por ser o mais distante objeto terráqueo no universo, porém, significava o inicio de uma triste contagem regressiva.

Quanto mais eu me afasto da terra, mais difícil se torna a comunicação com minha querida antena amiga, com quem correspondo diariamente, de forma sagrada, há 41 anos. Daqui a alguns anos eu já não conseguirei enviar meus recados para ela, entrando enfim num estado de completa solidão, sem qualquer notícia dos seres a nascer, viver e morrer em minha casa, ao longo dos milhares de anos que vagarei por aí.

Acabo de me lembrar de quando, tendo já ultrapassado a linha de órbita de plutão, apontei pela ultima vez a minha câmera em direção a terra e capturei a uma foto dela. Demonstrando-se como um ponto azul bem pequenino em meio à escuridão do plano de fundo. Então denominaram este último retrato como o “pálido ponto azul”, inspirando inclusive meu cientista favorito, o Carl Sagan, a redigir um texto maravilhoso sobre o fato de “tudo e todos que conhecemos” estar resguardado naquele pontinho ínfimo do espaço. Amo quando ele fala:

— “O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali…”

Visando essa minha longa trajetória sem qualquer tipo de comunicação, passarei a escutar cada vez mais o disco dourado atrelado ao meu corpo, contendo os mais diversos sons da terra, desde animais até naturais e humanos, além das 27 músicas nele, explorando desde os gênios Beethoven, Bach e Mozart, o rock de Chuck Berry, e o pouco conhecido e cego Willie Johnson, às musicas regionais africanas, europeias, asiáticas, oceânicas e latinas. Provavelmente em um ano já serei capaz inclusive de saudar qualquer pessoa nas mais diferentes línguas, hahahaha! Um dia desses me peguei repetindo para si as vozes no disco:

— Hello from the children of planet Earth!

— Paz e felicidade a todos!

— Hola y saludos a todos!

— Bonjour tout le monde!

De vez em quando eu fico imaginando se já produziram algum filme sobre mim ou se tem alguém na terra, além dos pesquisadores, interessado na minha situação e história. É um pensamento meio egoísta, mas se você levar em conta as dezenas e centenas de gerações que vão ir e vir, enquanto eu estiver por aqui, sozinha, talvez você compreenda.

Um dos pensamentos mais tenebrosos a transitar pelos meus sistemas é o de ser atingido por um asteroide. Só de imaginar uma rocha gigantesca em rota de colisão comigo, eu sinto uma corrente mais acelerada passando pelos meus equipamentos.

Outra apreensão é a de realmente encontrar vida inteligente por aí. Apesar da probabilidade de algum ser me encontrar ser mínima, e o fato de só poder vir a acontecer daqui a milhares, milhões ou até bilhões de anos — isso se um asteroide não me destruir antes hahaha (rindo de nervosa) — eu sinto um medo em relação à capacidade deles de decifração do disco. Se ninguém entender nada, toda essa jornada terá sido em vão e eu não terei nem como contatar ninguém ou sequer saber se ainda existem humanos vivendo na terra, vivendo o resto de minha existência metálica encostada no canto de algum planeta. Há também a possibilidade de eu ser destruída pelo puro medo, em relação ao desconhecido, que eles possam ter. Afinal, não é todo dia que um negócio voador dá as caras pra uma civilização pensante.

Recentemente eu recebi notícias em relação à posição da minha irmã. Ela se encontra atualmente na heliosfera — ultima fase antes da saída para o espaço interestelar. Como já mencionei, eu já passei por essa região, saindo dela há uns quatro anos. Espero que ela aproveite, pois é algo singular em sua trajetória, os últimos momentos de uma tensão assustadora até passar a viajar eternamente no vazio.

Algo que não posso deixar de mencionar é o medo humano de um dia serem dominados por máquinas. É algo engraçado de se observar. Antes mesmo de eu viajar já havia vários filmes e livros a tratar de sociedades vivendo essa distopia tecnológica. O mais irônico é que se um dia isso acontecer, seria graças à própria curiosidade humana, a mesma capaz de me trazer até aqui, de ir sempre além do limite existente. Felizmente, para vocês que estão lendo isso em 2018, é uma realidade a ser observada apenas nas telas de cinema.

E nesse contexto, tenho algo interessante a dizer. Quando a humanidade deixar de existir completamente, serão nada além de duas máquinas, as quais vocês batizaram como Voyager 1 e 2, as últimas guardiãs, da última evidência, de que um dia, num pontinho azul minúsculo, em meio ao colossal e vasto universo, existiram seres que nascem, vivem e morrem.

Arthur Araújo

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