Memória Artística

Arthur Araújo
Nov 4 · 6 min read

Recentemente assisti ao vídeo do canal “Vá ler um livro” sobre o por que nós esquecemos os livros e filmes que tenhamos lido ou assistido. Coincidentemente ela falou sobre várias coisas que rondam minha mente de vez em quando, como o fato de se sentir um mau leitor, ou pensar que não estou lendo da forma correta. A Taty utiliza-se de duas reportagens que falam sobre o tema para fazer o vídeo, uma traduzida pela Folha da Julie Beck para o The Atlantic e outra do Ian Crouch para o The New Yorker que a própria Julie Beck menciona em sua reportagem.

A reportagem de Julie Beck é embasada por uma pesquisa que mostra a mudança na forma que conseguimos informação como um fator determinante para uma mudança do tipo de memórias que damos valor. Logo nos dois primeiros parágrafos ela toca no ponto mais profundo da auto-reflexão de leitores ávidos: o terrível sentimento de não lembrar a história, porém lembrar fatores completamente externos ao livro, como onde foi comprado, de quem ganhou, onde leu. São memórias de momento e não de conteúdo, memórias vivenciadas e não lidas.

“…para muita gente, a experiência de consumir cultura é como encher uma banheira, entrar na água e depois vê-la escoando pelo ralo. Pode restar uma pequena quantidade de água na banheira, mas o resto se vai.” — trecho da reportagem de Julie Beck

Não lembrar de fatos da história quando alguém fala sobre o livro que você leu é ruim, mas não é um problema. Solto a corda da reportagem e do vídeo para escrever minha experiência própria.

Tudo isso se liga muito com o que preza a meditação. Estar presente naquele momento em que você para e respira é o que mais importa, tudo que existe está do outro lado das suas pálpebras e não tem a mínima importância. Essa é a ideia que se deve ter ao ler um livro ou assistir um filme, ou ir para uma festa e esquecer tudo no dia seguinte — aproveitar de forma presente tais momentos e se deleitar neles; não ler com o objetivo de lembrar daqui a dois anos de um diálogo genial que dois personagens de “Os Irmãos Karamázov” tiveram em dado momento e poder mencioná-lo numa conversa, pois bastam cliques e você o terá na palma da sua mão, sem correr o perigo da capacidade de adulteração que a própria memória tem com ela mesma.

Nos lembramos de quem ganhamos o livro porque é um gesto especial que ficou marcado afetivamente na nossa memória, vivenciamos outro ser humano nos dando um livro ou recomendando um filme porque é o que a gente gosta de lembrar e sentir através dessa lembrança o que a gente sentia naquele momento de singelo prazer.

Não é a toa que ao lermos a parte mais significativa da história, ou a morte de um personagem, até um encontro da dupla romântica, teremos mais chance de lembrar futuramente, pois são momentos de prazer vivenciados na leitura e entram na nossa mente como algo real, principalmente quando bem escritos e descritivos.

Se você lembra de quando leu uma parte do livro numa cafeteria, no avião, num parque, num banquinho de praça ou numa sala de espera, significa que você estava presente naqueles momentos, quer tenha você meditado ou não em toda sua vida. Você estava lendo e estava envolto pelo momento, pelos sons, pelos cheiros, inserido no espaço e fazendo parte dele, sentindo-o com os 5 sentidos.

O que é uma frase interessante guardada nos confins da memória para ser usada uma vez num momento oportuno em uma mesa de bar, perto de saber que você viajou e entrou de verdade naquela leitura, naquele lugar e naquele momento daquele dia que em outras circunstâncias poderia ter simplesmente passado sem ser percebido, sem acrescentar sequer uma lembrancinha para a memória?

Um país vence uma copa do mundo e 1 ano depois o sentimento de euforia campeã já foi embora, você não vai se sentir o campeão do mundo para sempre, mas você se sentiu o campeão do mundo durante um período, e é o que importa. Para que serve um troféu afinal, senão para que quando for visto, a mente buscar imediatamente uma memória na cabeça de quem viu e viveu aquela conquista e resultar num “esse dia foi show”? Esse dia foi realmente show e você lembra que o viveu muito bem! Se você não lembra os detalhes, não tem problema. A soma dos sentimentos vividos é o produto mais valioso.

Recentemente eu reassisti Pulp Fiction a pedido de um amigo (provavelmente até que eu veja pela terceira vez eu não me esquecerei desse detalhe apesar de já ter esquecido boa parte do filme) e não só percebi com mais clareza tudo que o filme passou como me senti muito bem lembrando de várias coisas que estavam esquecidas ao pensar no filme, me fazendo sentir quase como se estivesse assistindo aquilo pela primeira vez de verdade.

Entramos na questão da quantidade de vezes que é preciso ler para fixar aquele conteúdo artístico e cultural na mente. Coisa que também não tem tanta importância como se tem dado, variando de pessoa para pessoa.

(Creio que) Sei tim tim por tim tim da história de “Interstellar” ou “ABC do Amor” por já ter assistido mais de 5 vezes cada, mas é um conhecimento duvidoso. Não sou capaz de reescrever cada sequência de cena se me pedissem, mas provavelmente me lembrarei de algum detalhe que passou despercebido pela mente de quem assistiu apenas 1 vez, entretanto o que poderei afirmar com toda certeza é que toda vez que eu assisto eu me sinto bem, e isso vai além de qualquer outra coisa num mundo que derrama informações a cada milésimo de segundo que passa.

Só se faz uma coisa pela segunda vez quando se quer, não há motivo para forçar uma atividade não interessante para você caso haja o poder da escolha. Por vezes é preciso passar novamente por aquela obra completa para a realização de um trabalho profissional ou coisa do tipo, como também possa bastar simplesmente ler um capítulo que se relacione com o que precisa ser feito, mas esses momentos também são frutos de uma escolha que foi feita por você meses antes pensando no seu próprio aprimoramento subjetivo.

Não é porque eu não me lembro da história de “A Pirâmide Vermelha”, um dos primeiros livros que eu li na vida, que eu tenho porque tenho que relê-lo. Apenas o farei caso eu sinta a vontade e o desejo para tal, pois não há nada pior que ler um livro sem realmente gostar do que se está lendo.

Há uns 3 anos eu li “Não Há Silêncio Que Não Termine” de Ingrid Betancourt. Pouco me recordo em relação à sequência cronológica dos acontecimentos narrados, mas se tem algo que eu não me esqueço jamais é a mistura da ambientação onde a história quase que completa é contada junto ao fato de eu ter lido uma grande parte dele deitado numa rede enquanto escutava Mahmed na caixa de som logo abaixo de mim. É impossível pensar no livro ou escutar qualquer música do álbum “Sobre a Vida em Comunidade” e do EP “Domínio das Águas e dos Céus”, os únicos lançados na época que li, e não imaginar a floresta tropical colombiana ou lembrar do livro. Não pretendo relê-lo, pelo menos nem tão cedo.

Se você gosta de memorizar citações para usar em momentos oportunos, não deixe de fazê-lo se isso lhe traz satisfação e prazer; mas não se cobre muito caso você deixe passar uma oportunidade ou na hora de falar você lembre dela só pela metade.

Devemos dar mais valor aos momentos de deleite pessoal, de prazer, de pertencimento àquele instante. Importar-se mais com a extração do prazer momentâneo enquanto se consome a arte, a literatura, a música, a cultura e menos com a exposição pseudo-intelectual.

A vida, assim como as histórias nos livros, são feitas de momentos, mas não existe alguém que vá ler o roteiro da sua existência para lembrar das coisas que você viveu. Aí é onde está o ponto: a pessoa não viveu o que leu e consequentemente não viveu o que você viveu. Só você vai lembrar o que você viveu, e neste caso, não leia o livro da sua vida, viva-o.

Arthur Araújo

03/11/2019

Arthur Araújo

passado, presente e futuro se encontram aqui

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