O sabe tudo.

Arthur Araújo
Sep 4, 2018 · 9 min read

João era um rapaz no auge dos seus 18 anos. Um jovem curioso, observador, atencioso em relação às pessoas e coisas ao seu redor. Tinha cabelos lisos e pretos, vivia com seus óculos retangulares de armação fina tal qual um palito de dente apoiados em seu nariz, e vestia roupas monocromáticas simples — seu guarda roupa parecia uma paleta de cores formada com camisetas básicas sem estampa.

Como faziam os peripatéticos, João, sempre que andava, pensava. Imaginava situações engraçadas ou críticas em seu caminho casa-escola, escola-casa. Certo dia imaginou, por exemplo, que entrava no ônibus e junto dele subia um conjunto musical mexicano, composto por três pessoas com três grandes sombreiros, a tocar e cantar lindas músicas mexicanas que ele nunca ouviria na vida se não fosse por aqueles alegres músicos. Infelizmente ele passaria o resto da vida sem ouvi-las, pois o ritmo e a letra eram simples murmúrios da sua imaginação.

Nos finais de semana ele costumava sair para farrear com os amigos e era um renomado desastre na arte da conquista. Sempre terminava as festas num déficit amoroso incalculável. Entretanto, era um grande amigo a quem as suas melhores amigas costumavam recorrer quando buscavam alguém que elas julgavam realmente se importar com o que elas tinham a dizer em seus momentos de tristeza. Não era só fachada, ele realmente se importava e, além disso, almejava seguir o rumo da psicologia baseado nesse seu interesse pela conversa delicada e profunda.

O questionamento mais recorrente em suas andanças pela cidade era simples. Sempre que avistava alguém utilizando fones de ouvido ele se perguntava: “O que será que essa criatura anda ouvindo neste exato momento em seus ouvidos?”, e tentava adivinhar baseado nos estereótipos. Uma menina andando como quem desfila numa passarela em Milão era o necessário para ele apostar que um pop cantado por Selena Gomez, Lady Gaga ou Anitta estavam ressoando em seus ouvidos. Ao avistar um rapaz vestido inteiramente de preto dormindo num ônibus, julgava que o moço estava escutando uma playlist mesclada do rock, contendo Arctic Monkeys, The Strokes, Red Hot Chilli Peppers, Nirvana, The Smiths, Eric Clapton, The Beatles, Rolling Stones, entre outros.

Amante da sétima arte, João assistia pelo menos dois filmes todo final de semana, sem exceção. Cliente assíduo do cinema localizado num shopping a duas paradas de onde mora, era conhecido pelos vendedores de pipoca dos três turnos de trabalho. Adorava filmes que não fugissem tanto da realidade e que fizessem sua mente entrar em colapso no final; detestava qualquer filme de herói com superpoderes.

Num belo dia de domingo, ao arrumar seu material escolar, João percebeu a existência de um bilhete dentro de sua bolsa, com os dizeres:

“Gostaria de adquirir todo o conhecimento do mundo, sendo capaz de literalmente ‘saber tudo’?

Sim — Rasgue o papel

Não — Jogue fora”

João leu, rasgou o papel e jogou seus pedaços pela janela, fazendo uma cara de total desprezo, ao mesmo tempo em que ria de deboche, pensando ser mais uma brincadeira besta de algum amigo. Nessa linha de pensamento ele enviou uma mensagem para seu grupo de amigos do WhatsApp:

— João: Quem foi?

— Gabriel: ?

— Carlos: ?

— Francis: ?

— João: bla bla bla, interrogação, interrogação, etc. Eu já encontrei e rasguei o bilhete, quem foi que colocou na minha bolsa?

— Carlos: que?

— Gabriel: João ta maluco

João desistiu daquela conversa e foi dormir; já eram 23h e o despertador estava programado para tocar às 6h.

Após adiar por cinco vezes o despertador, ele se ligou que já eram 6h50 e invocou o Usain Bolt para se arrumar e partir pra aula. Eram 7h20 quando ele chegou. Estava atrasado, mas era aula de geografia e a professora, favorita da turma, sempre dizia:

— Antes um atrasado aprendendo, que um atrasado ocioso.

Para entrar mesmo estando atrasado, o aluno, como “prenda”, deveria participar ativamente da aula, tendo todas as questões direcionadas primeiramente para ele. A sala era bem unida, então ninguém tinha vergonha de ninguém e todos brincavam com todos de forma saudável quando esse tipo de coisa ocorria. E que sufoco para o João, viu que no quadro estava escrito “A QUESTÃO CURDA”, e já começou a pedir ajuda a Jesus, Buda, Maomé, Ganesha, entre outros, já que não sabia nada… ou será que não sabia que sabia?

Quando a professora direcionou a primeira pergunta a João, ele tirou de letra sem titubear:

— João… Dize-me… A região na qual os curdos estão predominantemente situados a lutar por sua criação e independência abrangem áreas de que países?

— Irã, Iraque, Síria, Turquia e umas pequenas parcelas da Armênia e Azerbaijão.

Todos reviraram a cabeça pra olhar para o menino. A professora congratulou o menino e prosseguiu com sua aula.

Mais uma questão foi direcionada a ele:

— João, por que a criação do Estado Curdo é quase impossível?

— Basicamente pelo fato de abranger áreas pertencentes a outros países, que não querem ceder suas terras de jeito nenhum, mesmo aquelas que já possuem uma organização curda autônoma, como o famoso Curdistão Iraquiano, somado ao preconceito para com estes povos, como dentro na Turquia, que reprime com violência os movimentos curdos dentro de seu território e luta até mesmo contra o PKK, Partido dos Trabalhadores Curdos, que está engajado inclusive na luta contra o Estado Islâmico, inimigo em comum do governo turco — e complementou — , e isso é só a ponta do iceberg, professora.

— Muito bem João — Disse a professora com um olhar de curiosidade e espanto.

Todos estavam literalmente boquiabertos com a resposta de João e a professora resolveu não perguntar mais nada para ele. Ao toque do intervalo a professora chamou João para conversar. Enquanto se aproximava, seu pensamento já sabia exatamente TUDO o que estava prestes a acontecer: “Quer ver, ela dizer ‘Estudou bastante hein João!?’ e iniciar uma conversa sem um pingo de futuro, só para me elogiar e no final dizer que eu continue me esforçando assim…”.

— Estudou bastante hein João!?

— Haha! Sim professora — mentira, nunca nem abriu o livro.

— Sua explicação foi incrível, fiquei até surpresa.

— Que nada professora. Posso ir para o intervalo agora?

— Sim, sim… Claro, mas continue se esforçando assim!

— Certo, prof. Até próxima semana!

João se retirou e partiu para o encontro de seus amigos: Carlos, Francis e Gabriel. Todos estavam falando justamente sobre ele, e ele sabia:

— Carlos, Carlos… pare de falar assim dos outros, eu não fiz nada demais.

— Como diabos você sabia que eu tava falando de tu?

— Sabendo oxe, hahahaha!

Só João riu. Seu pensamento, assim como ocorreu com a professora, já havia premeditado todo o diálogo que ele haveria de ter com seus amigos. Ele se sentiu entediado e disse que ia comprar um lanche, o fez unicamente com o proposito de fugir da conversa.

O intervalo acabou, e as aulas transcorreram sem mais surpresas. Terminada a manhã, ele partiu para a parada a fim de voltar para casa, como sempre. Avistou ao longe um menino todo de preto usando fones de ouvido, mas não iniciou uma reflexão acerca do que se tocava nos ouvidos alheios; ele já sabia. O rapaz escutava, ao contrário do que seu embasamento no estereotipo antes julgava, o funk dos MC’s que estavam mais badalados no momento. Uma menina quase que desfilando em plena parada também usava fones de ouvido, ela escutava nada mais nada menos que música clássica: estava tocando Claude Debussy: “Clair de Lune” naquele exato momento. Foi só aí que ele percebeu que algo havia mudado.

Começou a por em prova o que ele percebeu. Olhava para as pessoas e antes sequer de se perguntar os seus nomes, ele já sabia. Ao mirar o olhar nas roupas dos passageiros do ônibus no qual subiu, sabia exatamente onde foi fabricada, comprada e de que marca era. Desceu do ônibus e, enquanto caminhava, sentiu a temperatura marcando exatos 25°C, e só de olhar as nuvens no céu soube que a esta hora do dia de amanhã, ele deveria estar abrindo seu guarda chuvas, pois um toró cairia das 12h às 12h30.

Abriu a porta de casa; percorreu o corredor; deitou na cama. Sentiu a textura da coberta com a ponta dos dedos e fez a mesma viagem realizada com aquelas peças de roupa dos passageiros do ônibus. Estava sozinho em casa; bateu a fome. Abriu a estante e imediatamente se pôs a fazer o próprio almoço — acontecimento inédito. João, que antes não sabia sequer fritar um ovo, preparou um risoto italiano magnífico que, mais tarde, quando seus pais chegassem do trabalho, reclamariam com seu filho por ter pedido comida cara pelo aplicativo de delivery, sem sequer consulta-los. João, sabendo que seria realmente estranho falar que fez o risoto, preferiu apenas aceitar a bronca.

Mais tarde, à noite, ele foi assistir a um filme que estreava no cinema. Quando foi comprar o ingresso e viu o cartaz do filme, desistiu de assistir, pois já sabia o começo, meio e fim. Voltou pra casa decepcionado consigo mesmo quando uma lâmpada se acendeu na cabeça: “E se eu utilizasse essa… esse negócio que aconteceu comigo para algo de futuro?”. Chegando em casa, deu uma olhada em um de seus sapatos, dados de presente por sua madrinha, comprados numa loja com suspeitas de exploração laboral. As suspeitas se confirmaram em seu gênio, uma criancinha no Taiwan havia produzido aquele sapato. Entretanto, se tocou que nada podia fazer. Como provaria e explicaria a realidade? Sentia-se poderoso e impotente ao mesmo tempo.

Alguns anos se passaram, havia obtido nota recorde no vestibular e estudava Direito na universidade, com o pensamento de fazer a justiça de forma correta e honesta — desistiu da psicologia por causa desse pensamento. Porém, depois de se formar, ficou migrando de área em área. Foi advogado, promotor, delegado, juiz. Tudo isso em menos de 10 anos. Aparecia um concurso, estava lá João fazendo. Desistiu do Direito, não se sentia empolgado em resolver casos e processos; já que sabia tudo, não sentia o doce gosto da descoberta de evidencias nas entrelinhas, aqui e ali. Além disso, se iludiu com aquele pensamento justiceiro depois de ver a suja realidade que circunda o sumo das áreas pelas quais passou, sem poder fazer nada.

Pensou em seguir carreira em outras profissões, mas antes mesmo de pensar em uma, já estava desinteressado. Resolveu simplesmente usar do seu infinito conhecimento para vender uma ideia bilionária para uma multinacional e garantiu um patrimônio para o resto de sua vida e das próximas 70 gerações. Mas estava sozinho.

Com o passar dos anos, João perdeu cada vez mais o contato com seus amigos. As amigas, que antes recorriam a ele nos momentos de recaídas, deixaram de enviar mensagens. Tudo graças a seu completo desinteresse pelas conversas, as quais ele considerava fúteis e superficiais. Tornou-se cada vez mais solitário enquanto enriquecia sem derramar uma gota de suor. Vivia na cobertura de um apartamento em frente ao mar; nunca deu um mergulho sequer. Arranjou umas três ou quatro namoradas; não duraram mais de um mês. Apaixonava-se pela beleza das moças, mas a partir do momento em que estas abriam a boca para falar, ele se contorcia de tédio em seu interior. Era um egoísta nato, só se importava com seu próprio prazer. Chegou a pagar até mesmo acompanhante de luxo, e fingia ser surdo para evitar que fosse solta no ar uma única palavra durante os encontros — cansou-se dois meses depois. Felizmente, por possuir um senso mínimo de justiça, nunca chegou a se aproveitar de ninguém usando seu conhecimento.

Quando completou 50 anos, ninguém deu as caras para dizer parabéns. Morreu no hospital, dias depois de completar 110 anos e se tornar o ser humano mais velho do mundo. Nenhum de seus antigos amigos e amigas estava vivo para visita-lo nos seus últimos sopros de vida. Era também o ultimo remanescente da família — não tinha irmãos — e seus pais eram filhos únicos de seus avós, que também eram todos filhos únicos dos bisavós, eliminando qualquer possibilidade de parentesco vivo na terra. As únicas pessoas que compareceram em seu velório improvisado em seu apartamento foram o médico e a enfermeira que cuidaram dele e o porteiro do prédio onde morou. Não teve filhos e, antes de morrer, doou toda a sua herança para o Greenpeace.

— Arthur Araújo

Arthur Araújo

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