Diário de viagem — Travessia andina — pt. 4
Este é um diário da viagem de pouco mais de uma semana que fiz na Argentina e no Chile em julho de 2018. As anotações foram feitas em caderno ou computador e depois passadas a limpo, de vez em quando com o acréscimo ou supressão de algum detalhe.
Links para as partes anteriores: parte 1, parte 2, parte 3.
Frutillar — 12.07.2018–11:02
Parei de escrever ontem porque era noite e comecei a sentir fome, então saí para comer. Fiz algo que quase nunca faço viajando: repeti o restaurante da véspera. Pedi um salmão, que não estava tão bom quanto a merluza do dia anterior, mas era farto e barato.
Falta contar, de ontem, minha passagem pelo “sendero solitario”. Depois de algum tempo dirigindo, percebi que o GPS estava me levando para os Saltos de Petrohue, uma corredeira linda, mas que eu já tinha visto no começo da viagem. Cheguei lá e não vi motivo para entrar, mas me lembrei que um ou dois quilômetros antes eu tinha visto uma placa na estrada apontando para um caminho largo, não asfaltado, com os dizeres “sendero solitario” e nada mais. Voltei até lá e entrei com o carro. O caminho era uma larga faixa aberta na vegetação, como o leito de um rio seco, que ia em direção ao vulcão. O solo era feito de pedras e da terra preta fofa que eu tinha visto no Osorno antes.

Continuei por um bom trecho, de um ou dois quilômetros, até que as pedras começaram a ficar mais numerosas e achei que seria perigoso seguir com o carro. Estacionei no caminho mesmo, que era amplo o suficiente para que vários carros passassem lado a lado, de modo que seria fácil desviar do meu. A faixa de terra preta ainda continuava até onde a minha vista alcançava, talvez até o próprio Osorno. Andei até sair dela por uma das laterais (pela “margem” direita daquele não-rio) e comecei a me embrenhar pela florestinha que havia ali, procurando pisar forte para conseguir seguir minhas pegadas na volta. Tentei chegar até uma mata de coníferas que crescia ali, mas a vegetação começou a ficar cada vez mais densa, cheia de pequenos arbustos ramalhudos crescendo sob os pinheiros, e avançar era bem difícil. Havia algumas outras pegadas, humanas e de alguma ave, mas nenhuma trilha. Parei quando não conseguia mais seguir. Sei que não fui muito longe; talvez tenha avançado uns 200 metros. Não havia ninguém ali, como também não tinha encontrado ninguém desde que saíra da estrada. Como em uma história de terror barata, comecei a me perguntar se o “sendero solitario” era alguma passagem interdimensional que se abria apenas quando os planetas se alinhavam e se fechava quando o primeiro humano entrava, para nunca mais ser visto.
Tentei imaginar a que distância estaria o primeiro ser humano — talvez 1 ou 2 quilômetros, nos Saltos de Petrohue? Não era tanto, mas era bem mais do que eu conseguia chegar em São Paulo. Fiquei lá um pouco. Existe uma paz muito profunda na ideia de estar completamente sozinho. Não é só pelo ar da montanha, pelos sons da natureza ou pela paisagem: a própria ideia de solidão implica um certo estado de espírito. Sociedade para mim significa estar em um estado constante de leve tensão, o que é, eu sei, um dos sintomas de ansiedade. Um lugar onde eu não possa ser percebido ou perceber qualquer outro ser humano é alentador, embora eu suspeite que o alento se transforme em desespero depois de algumas horas ou dias.

Tive que voltar, menos por cansar do silêncio do que pelo medo de algo ter acontecido com o carro. Cheguei até ele, que, para meu alívio, continuava lá, e dirigi até Puerto Varas. Passei em uma confeitaria recomendada por um amigo no Brasil, onde comi kuchen (um doce alemão que se vende em todo lugar por aqui na região, que teve colonização alemã) e tomei chá, e foi o melhor kuchen que já comi na vida, cremoso sem ser doce demais e recheado com blueberries.
Hoje saí cedo do hotel e peguei a estrada para Frutillar, o vilarejo alemão na beira do lago que é famoso por seu teatro (Teatro del Lago), que é muito bonito e atrai músicos e artistas do mundo inteiro. Optei por fazer um caminho mais longo, demorado e bonito, evitando a autoestrada. Valeu a pena porque realmente é bonito, mas foi bem estressante porque não dirijo com frequência, nem bem, nem, muito menos, confiantemente. Peguei várias ruas na contra-mão até entender o sistema de sinalização usado aqui. Em certo momento, passei por umas casinhas na frente das quais havia um cachorro grande, completamente imóvel bem no meio da estrada. Diminuí muito a velocidade ao me aproximar. Ele esperou até que eu estivesse a poucos metros e começou a abanar o rabo e pular de um lado para o outro, na frente do carro, como uma bolinha pingando entre os dois faróis. Parei e ele parou. Acelerei bem pouquinho e ele voltou a fazer sua dança canina. Buzinei, abri a porta (ele veio pedir carinho) e gritei, mas ele seguia inarredável. Comecei a seguir bem devagar e o cachorro suicida me acompanhou por uns duzentos metros, sempre na frente do carro, até ver um pato, distrair-se e afastar-se um pouco, o que me deu a oportunidade de pisar fundo no acelerador e despistá-lo.



Cheguei a Frutillar, que é realmente uma microcidadezinha do sul da Alemanha transportada para o Chile. A orla do lago é repleta de cafés, lojinhas de doces e livrarias, além de um píer lindo em estilo vitoriano. Parei meu carro ao lado de um restaurante de madeira chamado “Frau Holle”, o que, em alemão, significa quase “Senhora Inferno” (faltou um trema no “o”: Hölle). O que domina a paisagem, de fato, é o lindo teatro, em que farei um tour mais tarde. Estou no café do teatro, onde comi um kuchen (gostoso, mas menos que o de ontem) e tomei um café.
Sinto que este diário receberá menos atenção depois desta entrada. Hoje voo para Santiago, onde encontro meu amigo Gregório, e as noites calmas nos hotéis devem chegar a seu fim. De todo modo, faço no mínimo mais uma entrada, mesmo que já em São Paulo.
Santiago, 15.07.2018–02:01
Tenho mais uma hora e meia no Chile. Sentei em um bar que custa mais do que vale, como tudo em aeroporto, chamado “The Last Pisco Sour”, para esperar, do lado do portão de embarque, meu voo noturno. Perguntei ao garçom se os “jugos naturales” do cardápio eram realmente naturais. “No”, respondeu ele, sem maiores explicações. Pedi uma água mineral que veio acompanhada de um copo com cheiro de cerveja mal lavada. O embarque não começa antes das duas e meia da madrugada, então tenho algum tempo para revisitar este diário.
Como imaginei, Santiago não foi fértil para escrever. O principal motivo de eu incluir a cidade — que visitei em 2011 e achei pouco impressionante — na viagem é a presença do meu amigo Gregório, que é daqui e com quem passei quase todo o tempo, o que diminuiu muito o tempo que eu dedicava a este diário. Ele buscou-me no aeroporto e fomos a um restaurante japonês cujo dono ele conhece e que serve um peixe muito fresco, escolhido a dedo. Conheci sua noiva, Rafaella, uma moça sagaz e observadora de cabelo verde. Eles estão juntos há três anos e eu não o via havia sete.

O outro motivo que me impediu de escrever foi o desprazer de ser acometido por transtornos intestinais desde que cheguei (in Brazilian Portuguese we say “piriri” and I think that’s beautiful), o que comprometeu meu humor, meu sono, minha concentração e minhas chances de conhecer a cidade. Passeei um pouco, sozinho, na sexta-feira, e à noite fui ao aniversário do Gregório (ele mora em Vitacura, um bairro residencial afastado do centro). Conheci alguns museus, inclusive o Museo de la Memoria e de los Derechos Humanos, que nos explica a ditadura chilena e a comissão da verdade, além de alguns processos análogos de outros países da América Latina, inclusive o Brasil. O centro da cidade, onde fiquei, tem um charme europeu com algumas marcas de latinidade periférica. Confirmei minha impressão de que não é dos lugares mais interessantes do Chile para conhecer como turista, mas saí com a impressão de que talvez seja divertido morar aqui.



(Acabei não falando nada do Teatro de Frutillar, já que na entrada anterior do diário eu ainda não tinha feito a visita. Ele é muito mais impressionante que eu poderia ter imaginaado. Se a informação da guia estiver certa, seu salão principal tem a melhor tecnologia acústica na América Latina, o que me pareceu plausível. Ele é todo de madeira, boa parte importada da Alemanha, e é cheio de detalhes desenhados para fazer com que todos os espectadores enxerguem e ouçam o espetáculo perfeitamente. Seu auditório principal comporta mais de 1200 pessoas, em um vilarejo de menos de 20 mil habitantes. É como se a cidade fosse convidada a deixar de ser uma cidade e virar uma grande plateia a cada espetáculo.)

Agora parcialmente recuperado do piriri, tenho umas 6 ou 7 horas até chegar à minha casa e à minha cama, onde pretendo passar a maior parte do domingo. Ainda gostaria escrever alguma outra coisa aqui, sobre esta viagem e estes países e a cordilheira que os separa, mas acho que só teria condições de fazê-lo com alguma perspectiva proporcionada pelo distanciamento. E, como isto é um diário, e não uma memória, acho melhor que ele termine aqui. Esperava um final mais glamoroso para um texto que começa no saguão de madeira de um hotel voltado para uma das paisagens mais estonteantes que minha vida neste planeta já me permitiu ver (e percebo que minha memória dela já começou a se dissipar), mas receio que ela terminará assim: bebendo água cara em um copo fedendo a cerveja, em um restaurante barato, com dor de barriga. Que ninguém acuse este cronista de mentir para embelezar a crueza das coisas.