Espiritualidade de shopping
Felipe Moreno
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Artigos devocionais, ítens, tótens, imagens, iconografia santa: pura referência e simbologia a espiritualidade, infelizmente, são objetos também usados como máscaras e “uniformes” dos “times” religiosos competicionistas entre si. Há mais reflexões para serem feitas

Espiritualidade de consumo

Eu preciso escrever um texto-resposta, concordante com o de Felipe Moreno, para acrescentar observações que extrapolam o mundo das drogas: domínio que ele abordou com prudência e sinceridade. Felipe expôs um fenômeno, sobre uma realidade plástica que, todos nós compramos. Digo “uma” realidade, pois há mais realidades dentro da macrorealidade que sequer tangem este tema. Talvez, espiritualistas verdadeiros, em obras e suores no mundo, operando pelo bem-estar do porvir.

O materialismo é tão poderoso que transformou a espiritualidade em produto de consumo. As prateleiras estão cheias, a demanda é alta. O mercado da fé e das crenças vende souvenires, textos encapados vulgonomeados como livros, ícones e incensos, camisetas personalizadas, canecas. E você pode encomendar seus produtos de fé pela internet, ao alcance de um clique ou toque.

O consumidor, ansioso e derrotado pelo mundo, consome ávido as letras vazias de uma indústria de livros poderosa que existe na autoajuda e na sessão apelidada de “Espiritualidade” das livrarias de shopping.

São obras, vídeos, tutoriais que florescem como pergaminhos que mais mutilam do que constróem, sequer, alguma fé. Nós, os espiritualistas do consumo, nos esquecemos que máscaras sobre personas nada são e, então, nos apoiamos em rituais e tótens, à feição dos nossos mais primitivos ancestrais, na busca de aceitação n’um mundo de absoluta negação: sinais de transição e convulsões no Planeta que passa por ampla revisão naquilo que chamamos outrora de humanidade.

Duro, porém, é encarar o espelho da consciência, que esforçar-se para ocultar, de seu reflexo, os dramas verdadeiros e profundos do nosso caráter corrompido por uma vaidade estrondosa que chicoteia as vitrines das redes sociais e comportamentais de uma sociedade que, sem o saber, está na UTI buscando valores que não se adquirem com compras, mas com lutas, suores e dissabores na estrada da evolução.

Seja a espiritualidade dos espíritas, a espiritualidade dos evangélicos, a espiritualidade dos católicos, a espiritualidade dos espiritualistas brasileiros… não importa, você pode encontrar, com certeza, em alguma loja de perto de você, a máscara religiosa que melhor lhe serve.

Os líderes das nossas doutrinas conectadas estimulam essa mutilação de fé, olvidam a lembrança básica e síntese de todas as leis e profecias: “fora da caridade não há salvação”.

Plastificar nossa fé buscando aceno vertical das cabeças alheias é o atestado da presença de um buraco negro existencial aberto no peito da humanidade. O que nos leva a crer: algo acontece no mundo e, a História já nos indicou, as grandes transformações precisam atravessar grandes solidões, grandes dramas.

Além, então, de criticarmos esta postura coletiva, podemos também entender que ela é um daqueles maus necessários, para quem sabe, após esta travessia da ignorância e da falsa espiritualidade, a gente encontre do outro lado a luz, verdadeira, de uma aurora diferente para nossa humanidade.

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