13 em 16: United vence mais uma

O Manchester United venceu seu décimo terceiro jogo sob comando de Ole Gunnar Solskjær em 16 disputados. Na Premier League ainda com invencibilidade: são 12 partidas, 10 em que saiu vencedor, e apenas dois empates. A décima vitória nesta série imbatível dentro da liga nacional foi em um confronto digno de guerra e paz: os Red Devils venceram por 3 a 2 os Saints (apelido do Southampton), no Old Trafford.

Dos últimos cinco confrontos em casa, o Man Utd venceu apenas dois e por placares apertados, contra o Brighton & Hove Albion, por 2 a 1, e o jogo de hoje. Fora estas partidas, ocorreram dois empates (versus Burnley e Liverpool) junto a acachapante derrota para o Paris Saint-Germain. Então, a vitória suada de hoje tem um valor especial.

Para início de conversa, o Southampton briga para não cair, enquanto o United almeja chegar ao top 3; sem chances reais de título (hoje, menores do que 1%), a saída é brigar por uma boa classificação para obter mais recursos e para fortalecer o espírito do time. Cheio de desfalques, o maior campeão da Premier League começou atrás no placar, conseguiu virar a partida até sofrer o empate e desempatar no fim da partida. Enquanto Andreas Pereira e Romelu Lukaku (esse, duas vezes) marcaram para o time da casa, os visitantes fizeram com Yan Valery e James Ward-Prowse.

Os Red Devils iniciaram os 90 minutos com um 442 diamante/442 losango, De Gea, Ashley Young, Smalling, Lindelöf e Luke Shaw foram os homens da defesa, enquanto Scott McTominay assumiu a primeira posição do meio de campo. Em sua frente, iniciaram Paul Pogba, como meia central esquerdo (MCE), e Andreas Pereira, como meia central direito (MCD). A novidade foi uma nova posição para Alexis Sánchez, atuando como meia atacante, enquanto Marcus Rashford e Lukaku foram os atacantes.

Diferentemente do usual, Lukaku começou pela esquerda e conseguiu um bom chute antes dos 3 minutos de partida, a pressão era tão grande, por parte dos donos da casa, que os Saints só conseguiram respirar depois dos 10 primeiros minutos. Isto é, antes disso, os visitantes não conseguiam ter uma sequência de passes. Então, passaram a sobrecarregar o lado direito do Manchester United, usando a premissa do gegenpressing: marcação sob pressão.

Na imagem acima, a premissa de sobrecarregar Andreas está correta, o problema no sistema de marcação está no restante do mapa. O meia do United facilmente pode tocar para Ashley Young, Alexis Sánchez ou Rashford. Então, a aplicação parcial deste sistema funcionou, consequente e redundantemente, parcialmente.

Com uma formação tendo 3 zagueiros, o Southampton pôde utilizar uma vantagem numérica no meio de campo para não ficar desequilibrado. Desta maneira, Ashley Young tinha mais de um marcador sobre ele e poucas opções de passe. Enquanto, quando sofria um ataque, quase sempre três meio campistas (incluindo aí, pelo menos, um dos alas) recuava para auxiliar os defensores.

Estes desequilíbrios fizeram o Saints mudar de lado e tentar abusar de uma falha ocasional de Shaw: o fundo de campo. Em várias partidas, o lateral esquerdo vermelho falhou em conter avanços profundos, precisando sempre de cobertura. Porém, não tem sido o caso nos últimos jogos, tal qual não foi neste. Algumas das tentativas de criação de gol dos visitantes foi originada de “early crosses”, ou seja, cruzamentos com boa distância da linha de fundo. Assim, o gol do Southampton saiu de um chute da intermediária.

Após uma cobrança de lateral, o time visitante percebeu um mau posicionamento do time mandante e se aproveitou disso, como mostra a imagem:

Começa pelo mau posicionamento de Paul Pogba, o qual não preencheu o espaço entre os jogadores do time adversário, uma vez que Sánchez estava pressionando o meio campista adversário, dando total condição para o passe ser bem sucedido. A isso, soma-se que os dois atacantes do 352, do técnico Ralph Hassenhüttl, obrigavam um recuo de Shaw e Young para formar a linha de 4, evitando movimentações livres dos homens de frente do Southampton.

Enquanto isso, o confronto da defesa visitante contra o ataque local, não foi favorável a dupla Lukaku e Rashford. Vestergaard, camisa 4 dos Saints, neutralizou basicamente todas as tentativas de Marcus Rashford, enquanto Lukaku tinha muita dificuldade de conseguir penetrar com a bola por entre os zagueiros. Assim, a primeira etapa terminou com um revés para o Manchester United.

Nenhuma substituição dos donos da casa, mas uma alteração na formatação da equipe, do 442, passou para o 433, com o trio Alexis Sánchez, Marcus Rashford e Romelu Lukaku alternando de posições em alguns momentos. Os Red Devils tomaram o primeiro ataque mas não foi o suficiente para reduzir seu ímpeto pela vitória, perto de finalizar o terceiro minuto da segunda etapa, Luke Shaw cruza para a área e a bola bate na mão do defensor, mas o árbitro não assinala nada, a sobra fica com Sánchez, que tenta o drible e o choque de uma dividida tira o chileno da partida. Assim, entra a promessa portuguesa, Diogo Dalot.

Dalot é lateral direito de origem, mas já atuou na lateral esquerda, pelo Futebol Clube do Porto, como MCD, pelo United, e, hoje, como extrema direita. A entrada do jogador luso deu muito gás ao ataque, dando velocidade, fazendo early crosses e cruzamentos de linha de fundo, além de buscar arremates de fora da área. Uma de suas bolas aéreas deixou Rashford perto de empatar.

O gol que igualaria o placar veio de Andreas Pereira, um jogador que, nas oportunidades recebidas, não apresentou um futebol suficiente para o Manchester United. Até o momento vinha relativamente discreto, então veio um belo gol de fora da área, originado por um contra-ataque, quando o meia brasileiro recebe passe de Diogo Dalot e faz a definição do lance:

É importante ressaltar que Andreas recebeu no campo adversário e arrancou com ela até a frente da área. O ala direito do Southampton o acompanhou, deixando uma avenida para Shaw avançar. O meia brasileiro teria duas opções de passe lógicas, aproveitar a subida do lateral companheiro ou deixar para Dalot. Como dito pelo meia e pelo lateral nas entrevistas pós jogo: na última sessão, foram treinados chutes de fora da área (a razão para o uso recorrente do recurso), e a escolha de Andreas foi certeira no ângulo superior esquerdo do goleiro dos Saints. 1 a 1.

Com o placar igual, o time do Southampton foi tomado por nervosismo e começou a abusar das bolas aéreas (algumas delas chegaram próximas da meta do espanhol De Gea), mas não conseguia fazer a bola encostar na rede. O time vermelho de Manchester aproveitou este fator para alterar sua formação novamente, visando a quebra da linha do trio defensivo adversário, como mostra a imagem:

Voltando para a formação original, Andreas fica mais adiantado, fazendo mais avanços e sendo o meia atacante do time. Lukaku volta para a esquerda, enquanto Rashford fica pela direita. O brasileiro obriga que o zagueiro central não consiga se movimentar sem deixar um grande espaço no meio, obrigando um dos meio campistas do Southampton a ficar mais recuado.

Essa foi a receita para o terceiro da partida, o gol que deixaria o Manchester United na liderança. Andreas Pereira recebe um passe na entrada da área, gira e toca para Lukaku, o qual infiltrava na área, fazer o segundo do time da casa. Um detalhe importante: o atacante belga estava impedido por alguns centímetros.

É importante observar que o Southampton mudou a linha defensiva, os alas ficaram mais recuados, permitindo o zagueiro central sair para marcar Andreas sem deixar os outros dois em uma situação de 2v1, levando desvantagem. Assim, os Saints precisavam se defender com 8, formando, como na imagem, um 532.

Após a cobrança de uma falta, os Saints viram a bola cobrada ser tirada da área no jogo aéreo e viram Young cometer uma falta desnecessária na entrada da área. Dali sairia o gol do segundo empate da partida, onde Ward-Prowse deixaria tudo igual até o minuto 87 da partida.

Reparando nos três momentos seguintes, vemos um problema defensivo:

Todos os jogadores do Manchester United estavam na jogada. Todos. Enquanto Diogo Dalot era o único homem na barreira, 9 jogadores estavam na área contra cinco dos Saints, e apenas Marcus Rashford cuidava da sobra. A defesa do United e sua inconsistência são as maiores razões para a insônia da equipe durante a temporada, e isso ocasiona este excesso de precaução.

Na primeira das três imagens, Young é o responsável por interceptar um cruzamento curto ou uma bola rasteira, enquanto Andreas marca Redmond (camisa 22), Lukaku é incumbido de bolas na primeira trave, Smalling marca o camisa 4, Scott McTominay acompanha o 35 e os demais estão distribuídos aleatoriamente para evitar que a bola fique na área.

O Manchester United precisa ser mais cirúrgico e marcar por zona, dando uma atribuição específica a cada um dentro da área nas bolas aéreas. Neste caso, por faltar alguém para afastar a sobra, aconteceu uma falta e, então, o empate.

Com a exaustão de Andreas Pereira, Solskjær lança Fred no meio de campo e altera a formação mais uma vez, mas agora para um 4222. Onde Scott McTominay e Fred são a primeira das duplas, Dalot e Pogba a segunda e, por fim, Rashford e Lukaku são a final. Isso é mostrado na imagem a seguir:

Aos poucos, Fred foi avançando, tal qual os laterais, visando uma superioridade (ou igualdade numérica), em um dos ataques do Manchester United, Shaw passa a bola para Fred, que tenta o passe em diagonal para Rashford, mas a marcação desvia e a bola fica perfeita para Lukaku girar e bater de primeira, parando apenas no fundo das redes. Manchester United volta a liderar o placar.

Válido reparar nos espaços deixados pela defesa dos Saints:

De um lado, 5 jogadores e do outro 3, sendo um marcador de Shaw e um quase abraçado em Pogba. Além desses, existem três jogadores cercando Fred e dois cercando Lukaku. Ao mesmo tempo que 9 jogadores de linha estão na imagem, existem buracos gigantescos na defesa. Shaw facilmente poderia tocar para Lukaku, assim como Rashford poderia correr para ponta e receber. A marcação inspirada no gegenpressing de Klopp e Tuchel não foi bem emulada e deixou falhas aproveitadas pelo Manchester United.

A partida ainda contou com novo pênalti por parte do Southampton, desta vez assinalado, e Pogba cobrou para a defesa do goleiro visitante. O placar terminou com o 3–2 e a entrada da promessa Tahit Chong, faltando poucos segundos para acabar a partida.

Prós e contras do jogo

Para o Southampton, uma partida com momentos acima da expectativa. O time precisa de meio campistas os quais consigam fazer o box to box sem comprometer a performance dos laterais, a briga para não cair é grande, mas o time mostrou vários sinais de que pode ficar hoje. Apesar de ter cedido três gols, a queda de braço era difícil, especialmente porque o oponente era muito superior.

Para o Manchester United, foi uma boa partida, a maior parte do tempo. Sem Matić, Martial, Lingard, Juan Mata, Ander Herrera, somada a lesão de Alexis Sánchez, os Red Devils têm se virado bem. Scott McTominay fez bela partida contra o Liverpool e hoje decaiu, mas é jovem e essa falta de experiência pode ser uma das razões. Os gols tomados foram reflexo de alguns problemas os quais já vinham ocorrendo, muitas falhas de Ashley Young enquanto lateral, Alexis Sánchez longe de seu melhor futebol e cheio de chances e mau posicionamento em bolas aéreas e jogadas de bola parada.

Como destaques do jogo, Lukaku e Andreas Pereira assumem o protagonismo, em contrapartida, Rashford, Pogba e, em especial, Ashley Young, não tiveram boas atuações. O meia brasileiro, com a atuação contra o Southampton, busca credenciais para fazer parte do onze inicial para o jogo da Champions League desta semana.

A variedade de formações dentro do sistema ofensivo de jogo utilizado por Solskjær demonstra que os números, em muitos casos, são secundários, mas o que importa é o papel de cada jogador. O manager norueguês já utilizou 433, 4231, 442 diamante/losango e 4222, por enquanto. Até agora, todos com resultados favoráveis.

Projeção para PSG vs Man Utd

O time de Manchester sonha com o retorno de algum dos desfalques para o jogo contra o Paris-Saint Germain, pela Champions League, nesta semana, para poder reverter o 0–2 que sofreu em pleno Old Trafford. Ainda mais sem o camisa 6, Paul Pogba, é possível que o United se veja obrigado a improvisar alguém ou a jogar com um onze inicial ainda não utilizado.

Seria interessante usar o 433 com marcação alta para fazer uma blitz nos franceses, com o seguinte time titular: De Gea, Dalot, Smalling/Bailly, Lindelöf e Shaw; McTominay, Andreas e Fred; Young, Lukaku e Rashford. Outra opção é jogar com 442 diamante/losango, tal qual usada contra o Chelsea no 2–0 pela FA Cup, mas, neste caso, seria necessário apostar em alguma jovem promessa ou no retorno de algum meio campista lesionado.

A verdade é que o Manchester United vai para dar tudo de si e tentar a classificação com todas suas forças. É possível fazer 2–0 e levar o ingresso para as quartas-de-final nos pênaltis.

No último confronto entre as duas equipes, Marquinhos transformou a vida de Pogba em um pesadelo, marcando homem-a-homem e dificultando todas as movimentações verticais do francês. Somado a isso, duas lesões prejudicaram o andamento do time de Manchester, sem Martial e Lingard, o United naufragou em uma amarga derrota.

Agora, o Manchester United precisa (com todos seus desfalques) neutralizar os avanços laterais o time de Tuchel. Para isso, é preciso jogar numa constante oscilação entre 442 diamante/losango e 433. Sem Pogba, os Red Devils perdem o principal meio campista para criação. Ele é uma arma específica nos lançamentos e visão de jogo.

Young foi muito explorado pelo lado esquerdo parisiense, e precisa deixar o posto de lateral direito, com Dalot, o time inglês tem mais chances de manter a linha de 4 e de se tornar vertical. Além disso, sem Lingard, o Manchester United precisa de Fred e suas movimentações de fora para dentro (ou seja, da lateral para o meio) para quebrar as linhas adversárias e ter criatividade tanto nos passes, quanto na própria movimentação do setor.

É possível que Solskjær utilize um 4231, com Scott McTominay e Fred fazendo a linha de 2, Andreas como meia atacante, Rashford e Tahit Chong, ou Martial (caso esteja recuperado), fazendo as extremas com Lukaku como atacante centralizado. Desta maneira, o Manchester United tentaria sobrecarregar os flancos, abrindo caminho para Andreas chutar de fora da área e acionar o atacante grandalhão belga.

Se o time da capital da França jogar de forma camaleônica, como no último confronto, esperando as movimentações do adversário e alterando sua formatação, as chances de vencer do United podem diminuir. O Paris-Saint Germain tem muitas deficiências, em especial no meio de campo, e se ignorar as características particulares das peças do Manchester United, pode tornar mais difícil o jogo para si mesmo.