Análise: Mourinho, United e a temporada atual

Após a conquista da Europa League em sua primeira temporada e um expressivo vice-campeonato em seu segundo ano de contrato (bastante contestado pela imprensa inglesa, por conta da falta de conquistas), o treinador setubalense começa 2018/19 de contrato renovado por mais duas temporadas e enfrenta alguns problemas internos. Bem como desgaste na relação com alguns jogadores do elenco, pressão por conquistas e manifestações públicas do próprio Mourinho por reforços.

“Terminar em segundo [na Premier League] foi uma das minhas maiores conquistas”, disse o técnico sadino, quatro dias após a goleada do Tottenham por 3 a 0, em pleno Old Trafford, durante uma coletiva. De fato, comparativamente falando, os 81 pontos conquistados (25 vitórias, 6 empates e 7 derrotas) garantiriam duas taças levantadas, em uma perspectiva das últimas 10 temporadas. Sendo os seguintes campeonatos: 2010/11, vencido pelo United, de Ferguson, com 80 pontos, e 2015/16, conquistado pelo Leicester, de Ranieri, com 81 pontos, mas menos vitórias.

Apesar de uma boa campanha, de bons jogadores e de uma melhora substancial do futebol apresentado pelo time, quando comandado por David Moyes e Louis van Gaal; o Manchester United continua com deficiências em dois setores, mais especificamente: a defesa e o ataque. O primeiro é admitido pelo próprio manager, que pediu durante toda pré-temporada por reforços. Foram tentados Toby Alderweireld, Jérôme Boateng, Diego Godín, Harry Maguire e Yerry Mina; porém os desfechos não foram positivos para os red devils.

Bons nomes, mas limitação numérica

Alexis Sánchez, Marcus Rashford, Anthony Martial e Romelu Lukaku são os principais frontmen à disposição de José Mourinho. Além desses, Jesse Lingard pode atuar como extrema; Juan Mata, Ashley Young e Antonio Valencia também, porém com uma probabilidade bem menor. Especialmente pelos dois últimos estarem desempenhando papéis de laterais nas últimas temporadas.

Isso significa que o leque de opções é curto. O português visivelmente aposta bastante e tem muita confiança em Lukaku e Sánchez, porém a falta de um reserva “de ofício” para o belga diminui as variedades possíveis. De forma que, apesar de Martial já ter atuado pelo centro do ataque, seu melhor desempenho foi pelo lado (sobretudo, pelo lado esquerdo), e o mesmo serve para Rashford. No entanto, qualquer um destes teria um destaque atuando centralizado, justamente pelo perfil diferente do camisa 9 da equipe.

O fato é que, tendo três extremas à disposição — quatro, se contar com Lingard -, nenhum poderia atuar centralizado. É um cobertor curto: pés tapados e peito destapado, ou o contrário. Então, existe a necessidade de se contratar mais um jogador para o setor. Particularmente, Rashford é privilegiado por ter boas leituras das linhas defensivas, ocasionando excelentes movimentações, jogar centralizado poderia elevar esta característica.

Mesmo assim, faltaria pelo menos um extrema. Memphis Depay tem uma buy-back clause, isto é uma cláusula de recompra. O que poderia ser um facilitador e provavelmente pouparia uma quantia dos cofres do Old Trafford. Sua volta poderia prometer bons resultados, o atleta vem de uma ótima temporada pelo Lyon, da França. Na Ligue 1, fez 36 jogos e 19 gols; ao todo, foram 51 jogos, com 22 gols marcados.

Um momento emblemático da boa fase, foi o último jogo do clube no campeonato nacional durante a última temporada. O Lyon bateu o Nice por 3 a 2, com direito a hat-trick de Depay. Ele seria uma boa opção no banco de reservas, mais maduro e ainda jovem, o neerlandês de 24 anos seria uma boa ferramenta no elenco dos diabos vermelhos.

Outra opção, seria a busca por um jogador de características semelhantes às de Lukaku. Mas, a alternativa ao intocável centroavante vermelho teria de ser barata, algo que com os valores do mercado atual dificilmente seria possível, mesmo para nomes menos badalados.

Imagem retirada do site Sky Sports

A construção e/ou lapidação de uma fortaleza

“Um bom time começa por uma boa defesa”, dizem muitos apaixonados por futebol. E, nos últimos três anos o desempenho da defesa do Manchester United superou as expectativas! Na temporada 2015/16, foi o time menos vazado, junto com o Tottenham Hotspur, enquanto as duas Premier Leagues seguintes, os red devils terminaram como a segunda equipe que menos sofreu gols.

Mas as estatísticas apresentadas acima não dão a menor tranquilidade para David De Gea, goleiro do time. Na edição atual do campeonato, os adversários do United balançaram suas redes por sete vezes, com quatro jogos disputados (duas vitórias e dois empates). E mesmo que Luke Shaw esteja apresentando futebol promissor e mais consistente, Valencia tenha se encontrado como lateral, a zaga não tem dado segurança e tranquilidade para os torcedores.

Atualmente, Mourinho dispõe de Chris Smalling, Eric Bailly, Phil Jones, Marcos Rojo e Victor Lindelöf. O número é perfeito, existe um equilíbrio numérico, dois defensores chave, rotacionando com outros dois e, por fim, o último, costumeiramente mais novo ou “quebra-galho”. Mas, o desempenho dos atletas tem sido abaixo do investimento feito; isso fez com que o técnico português suplicasse, em coletivas, por reforços.

O alto valor pedido pelo Leicester, Tottenham e Barcelona por Maguire, Alderweireld e Mina, fizeram o Manchester United desistir das negociações. Enquanto, a renovação de Godín com o Atlético Madrid, freiou o sonho dos red devils e da Juventus em contar com o atleta. Já, no caso de Boateng, o defensor optou em permanecer no Bayern. Com o fechamento da janela, Mourinho iria ter que aceitar e trabalhar com o que tem em mãos atualmente. Alguns veículos especulam um possível interesse em John Terry, o que — bem provavelmente — não resolveria os problemas enfrentados pela defesa.

O alto investimento em Lindelöf não foi justificado até o momento, o sueco tem dificuldades em jogadas no ar, desarmes e não tem apresentado muitos recursos quando tem a bola. Enquanto Jones continua a ter problemas (também) nas bolas aéreas e com a velocidade de alguns times — principalmente Liverpool e Chelsea. Mesmo que tenham evoluído na última temporada, quando estão em campo, são pontos explorados pelos adversários.

Eric Bailly teve vários elogios do técnico durante a pré-temporada. Apesar de ter ido muito mal no amistoso que resultou num 4–1 para o Liverpool, Mourinho disse confiar no zagueiro marfinense. Inclusive, parece estar bem menos confiante, regredindo de atuações razoáveis e medianas para comprometedoras. Bailly tem errado passes, tempo de bola e posicionamento; negativando suas atuações.

Sobram, então, o argentino Rojo e o inglês Smalling. Rojo nunca foi nem perto de unanimidade desde sua chegada. Apresentou muitas dificuldades na adaptação para o futebol inglês e isso é visível até hoje. Por mais que tenha evoluído desde que se tornou parte do elenco, Rojo não consegue ter atuações consistentes, seja em esquemas de jogo com três ou dois zagueiros. A principal prova disso é o número de jogos, hoje ele vive sua quinta temporada no Old Trafford, e jogou, cronologicamente: 26, 28, 41, 12 e zero partidas (está atualmente lesionado); uma parcela delas foi iniciando os confrontos no banco de reservas.

Smalling é uma herança da era Ferguson. Costuma se esforçar em grandes jogos e ser consistente na temporada, ao ser comparado com defensores como John Stones, Harry Maguire, Jan Vertoghen, Virgil van Dijk e Shkodran Mustafi, por exemplo, sai perdendo em vários quesitos. É uma ótima peça para grupo, mas não é bom depositar nele toda a responsabilidade da zaga, especialmente para não abalar os desempenhos que vem apresentando nos últimos anos.

Portanto, para prosperar defensivamente, o Manchester United precisa de defensores soberanos no ar, que deem segurança para os laterais (os quais têm características ofensivas) e facilitem a vida de De Gea. Em um cenário ideal, Maguire e Alderweireld seriam nomes que comporiam o onze inicial dos red devils. Porém, o manager setubalense tem a tarefa de apurar os scouts para buscar jovens promissores e bons negócios. Ou, precisa negociar alguns de seus zagueiros e trazer novas peças para renovar a defesa e dar novas esperanças aos torcedores.

Veredito

Esses desafios e a pressão por lutar de igual para igual ao longo da temporada inteira com times como os de Guardiola, Klopp, Sarri (além da Champions League) são parte da conjuntura atual que o Manchester United, por meio de Ed Woodward e José Mourinho, irá encarar até o final de junho de 2019.

Para isso, a harmonia da relação da diretoria com o técnico, do técnico com seus jogadores e da diretoria com os jogadores é primorosa. A correção dos atritos no vestiário do time vermelho de Manchester é o primeiro passo para a continuidade do trabalho e da conquista de bons resultados. A etapa seguinte é o fortalecimento dos setores previamente apontados e a manutenção de jogadores como Pogba, Martial e Rashford; ou seja, manter estas preciosas peças do clube no clube.

Se Mourinho fica ou cai, só o tempo e as circunstâncias poderão dizer, mas será uma temporada muito longa, árdua e difícil para os diabos vermelhos.