Luis Fernando Veríssimo e a entrevista

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Quarta-feira, 16 de novembro de 2017.

Eram quase 18h e chovia. Eu tinha saído da oficina de jornalismo do Correio do Povo, tomado um café e estava me dirigindo ao teatro do Centro Cultural Érico Veríssimo. Lá haveria um evento promovido pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI) — em parceria com a 63ª Feira do Livro da capital — no qual meu autor favorito, Luis Fernando Veríssimo, seria entrevistado por Rosane de Oliveira, Antonio Goulart, Luis Augusto Fischer (que não pôde comparecer), Maria da Glória Bordini e Tibério Vargas Ramos.

Cheguei ao local já perguntando para a organização se seria possível fazer uma entrevista breve com o senhor Luis Fernando. Segundo elas, dependeria dele e de sua família. Pois bem, entrei no teatro, procurei um lugar em um lado mais vazio e me sentei. Mais cedo, fui alertado pelo editor do Correio, Marcos Santuário: “elabora bem as perguntas, como ele é genial e tímido, sabe responder em poucas palavras. Tenta tirar o máximo que puder”. Estava traçado o desafio.

Escrevi nove perguntas. Sabia que não precisaria, e nem seria saudável, mais do que isso, devido à idade de meu ídolo literário, 81 anos. Depois de tomar meu lugar, observei cuidadosamente os presentes. Ao meu lado esquerdo estava Lauro Quadros (com dois bancos vazios de diferença) e mais para trás estava posicionado Moisés Mendes.

Bastou o senhor gordinho começar a subir as escadas para o palco que me veio a memória: eu odiava ler. Leitura era uma tortura medieval para meu eu criança. Até receber “Comédias Para Se Ler Na Escola”, livro de capa laranja, com Luis Fernando Veríssimo na capa, armado com um aviãozinho de papel. Depois daquelas crônicas, nunca mais parei de ler este gênio. Eu já estava chorando, emocionado.

Quando o autor esteve hospitalizado falei para minha mãe que ele não poderia morrer, eu precisava o conhecer e dizer o quanto ele significa para mim. Mas, no presente, tudo estava bem. Após falas iniciais, a entrevista começou. Sem nem perceber, o senhor Luis Fernando estava esbanjando sua genialidade, garbo e elegância nas respostas. E não preciso nem falar de seu tradicional bom humor.

Nada de evasão nas respostas, mesmo com a fala cansada da idade, meu ídolo respondia todas as questões com uma irretocável categoria. Logo depois dos primeiros minutos, decidi que gravaria tudo porque, caso ele não pudesse responder minhas perguntas, eu faria uma matéria cobrindo aquele acontecimento.

A timidez de Veríssimo não escondia sua mente atemporal e avant-garde. Cheguei a anotar algumas frases, como “quem tem espaço no jornal deve ter lado”. Dizeres como este me deixam seduzido por sua eloquência discursiva.

Depois de algumas perguntas da plateia, ele agradeceu o convite e o carinho depositado nele. Cogitei pedir o microfone para tentar sensibilizar ele — covardemente — contando de toda identificação que tive com ele. Tanto pela altura, quanto peso, time de futebol e o amor por seu trabalho. Mas não tive coragem. Devo respeitar um douto das palavras.

Forma-se uma fila indiana para o abraçar, pegar autógrafos (feitos com um carimbo, por conta de sua avançada idade) e tirar fotos. Fui me aproximando de Pedro, seu filho, e perguntei:

- Com licença, Pedro. Tudo bem? Me chamo Arthur, sou estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Pelotas. Estou em Porto Alegre para a oficina do Correio do Povo e gostaria de entrevistar seu pai, que é meu ídolo. Achas que teria problema?

Ele abriu um sorriso e disse que dependeria apenas dele, mas me deu um e-mail para o contatar, por via das dúvidas. Esperei a fila se dissipar para abordar meu ídolo. Com a voz trêmula, falei de sua influência em minha vida e perguntei se teria problema em fazer algumas perguntas. As pessoas na volta ficaram com um pé atrás, visto que ele havia falado por uma hora.

Uma moça, que acredito ser sua assessora, sugeriu para eu falar com dona Lúcia (sua esposa) para marcar uma hora. Decidi apelar:

- Mas eu moro em Pelotas…

Então, dona Lúcia, com seu sotaque carioca, interfere:

- Mas não são muitas perguntas, né?

- São só nove! — falei enquanto mostrava meu caderno, com as nove perguntas.

- Então, tá! Mas que não tenham umas cem escondidas, hein! — disse ela, em meio a uma risada.

Esperei meu ídolo subir as escadas e fiz as perguntas. Nada de evasão, as respostas eram diretas, de boa vontade, e não monossilábicas. Terminada a pequena entrevista, falei para ele, em 20 ou 30 segundos, toda admiração e carinho que tenho por seu trabalho e agradeci por tudo o que me proporcionou.

Voltei ao apartamento onde estava hospedado e disse para minha prima, Cissa:

- Entrevistei Luis Fernando Veríssimo. — com pausas demoradas entre cada elemento que fazia parte da frase.

- Monossilábico? — respondeu ela, depois de rir.

- Gênio. — respondi.

Obrigado, vida. Prometo que vou tentar retribuir.