NIKE – PATAGÔNIA – CLIF BAR: o que elas tem em comum?

O que uma empresa e o seu fundador do ramo de calçados, barra de energia (energy bar) e roupas tem em comum? Bem, nem todos negócios nesses três ramos tiveram suas histórias tão inspiradoras como a do Gary Erickson — Clif Bar, Phillipe Knight — Nike e Yvon Chouinard — Patagônia. E depois de terminar a leitura dos livros deles, pude perceber alguns aspectos bem semelhantes entre si.
SIGA SEU CORAÇÃO
Os três começaram os seus negócios depois de ter identificado uma oportunidade na realidade da vida deles. Como assim?
Sou engenheiro, mas tive uma ideia de um app para salão de cabelo que iria revolucionar esse mercado. A menos que eu encontre algum sócio especialista na área, minhas chances de sucesso são bem pequenas. Isso se deve que, em muitos casos não conseguimos prever as possíveis variantes que possa surgir ao longo do caminho como também as possíveis soluções.
Os três negócios nasceram da paixão, que é em comum nos três casos, o esporte. Phill Kinght sempre gostou de correr, participava de competições pequenas em sua cidade, Oregon. Quando foi fazer graduação em Stanford, não deixou seu hobby de lado e continuou tendo suas corridas rotineiras, até mesmo na hora do trabalho de conclusão de curso, não conseguiu fugir do tema. Ao identificar uma possível oportunidade em trazer tênis japonês com a mesma qualidade que os da Alemanha (Puma e Addias). Assim que terminou a faculdade tirou um ano sabático, foi viajar pelo mundo e não pode deixar de contar com uma visita ao Japão para conhecer de perto a produção dos tênis e o sua qualidade. Já o Gary Erickson, foi um respeitável ciclista onde fazia ultra distância e em uma delas quando estava em uma trip de pedal, não conseguia mais comer a única barra de energia disponível no mercado. Foi nesse momento que percebeu que com a sua pequena padaria (que não dava lucro), conseguiria fazer uma barra de energia muito melhor, contando com a ajuda de sua mãe. O Yvon Chouinard não foi diferente, apaixonado por alpinismo começou a Patagônia com foco em desenvolver melhores equipamentos de escaladas.
COMEÇAR DE BAIXO É NORMAL
Ah, mas o Phill fez Stanford ele tinha condições para se arrisca em um negócio… não é bem assim. Ele relata em seu livro e em algumas entrevistas que sua família foi aquela clássica família de classe média americana, onde os pais economizaram dinheiro durante a vida toda do seu filho para garantir uma faculdade. Então para realizar a sua viagem ao mundo, além de ter precisado pedir um dinheiro para o seu pai junto com a sua autorização, precisou também vender o seu carro para ter dinheiro suficiente para arcar com a despesa da viagem. Seu primeiro destino foi Hawaii onde ele e seu amigo surfavam pela manhã e vendiam em porta em porta enciclopédias (nunca conseguiram concretizar um venda). Já o canadense Yvon Chouinard, não foi diferente, seu pai apenas estudou 3 anos de sua vida, pois teve que trabalhar na fazenda da família. Para o ciclista Gary Erickson, seu bem de maior valor era sua bicicleta, trabalhava meio período em uma loja de bike e vivia em uma garagem.
SE NÃO TEM DIFICULDADES, NÃO VALERÁ O ESFORÇO
Bem, se fosse contar todas as dificuldades relatadas por eles em seus livros, essa publicação ficaria bem extensa. Mas em minha concepção, existiu algumas mais marcantes que foram fundamentais para definir quem são eles hoje. Para o Yvon Chouinard o momento mais difícil foi na crise de 90, que foi sentido apenas em 1991 por ele e o pegou desprevenido, os bancos recusaram empréstimos por não estar capitalizado suficiente somado à crise, fazendo com que tenha que demitir cerca de 120 empregados que somavam na época 20% da força de trabalho da Patagônia na época. Uma outra dificuldade foi na transição da concepção de uma das matérias primas mais importante, o algodão. Depois de uma visita em um área nos Estados Unidos produtora de algodão industrial, viu como a produção agride o meio ambiente. El constatou a utilização de mais petróleo para produzi-lós do que os algodões sintéticos, além de usar 25% dos pesticidas e inseticida do mundo, ocupando apenas 3% das terras agrícolas do Planeta. Por essas razões, levou-o a implementar algodão orgânico como material prima, banindo assim o usual. Essa decisão custou um tremendo esforço para mudar toda a cadeia produtiva, incentivando linhas de créditos para os fazendeiros produzirem algodão orgânico e entrar em contato com quem já produzia. No caso do Gary Erickson, passou por um dilema bom, porque em 2000 as suas principais concorrentes foram vendidas para marcas como Nestle e Craft que eram as maiores companhias de alimentos na época (não sei se continuam sendo hoje). Parece fácil, mas tomar um decisão contrária do seu sócio e manter todos seus funcionários confiantes e motivados, contra gigantes do mercado é bem difícil (na minha opinião). Um segundo momento marcante em sua trajetória na Clif Bar foi quando optou em comprar a parte da sua sócia que estava querendo se desfazer, isso levou um difícil dilema financeiro. Mas no final das contas, ele acabou adquirindo pelo preço do mercado, 50% da Clif Bar por $60M e levou 10 anos para conseguir quitar sua dívida que foi em torno de $72M. Agora o Phillipe Knight em minha opinião, foi o campeão de dificuldades em sua jornada. A Nike em seus primórdios se chamava Blue Ribbon Sports que basicamente era representante de uma marca japonesa chamada Tiger. Nos primeiros anos, manteve um emprego de contador CPA para arcar com algumas despesas da empresa, sofreu dificuldades com fornecedor, tanto na parte comercial (negociação com japoneses era bem diferente da americana) quanto na logística por localizar no outro lado do mundo e naquela época não tinha as facilidades de hoje. Enfrentou problemas com empréstimo em banco já que não tinha uma valoração de ativos. Por fim, o último relatado em seu livro, que poderia acabar com a Nike, foi um imposto tipo o IOF que eles nunca pagaram por não saber da sua existência, até o momento em que o governo mandou o valor acumulado com multa e correção ($25M — o mesmo valor do faturamento daquele ano).
INOVAÇÃO, SUA MELHOR AMIGA
Sim, os três empreendedores sempre andaram colados com a inovação e logo colheram bons frutos. O Gary Erickson sua primeira inovação com a Clif Bar foi o desenvolvimento de uma barra de energia voltada para as mulheres, foi para uma data especial e foi pensado para as mulheres até mesmo a tabela nutricional e o designer. Essa campanha deu tão certo que a Luna representou uma boa parcela do faturamento nos anos seguintes, onde a principio foi algo pensado ser um produto sem muita expectativa.
A inovação fez com que a Patagônia saísse de um nicho de consumidor muito restrito, para o mercado da moda foi um suéter de lã de gola que era feito de sintético, com intuito secar quase instantaneamente. Sei que isso não parece nem um pouco inovador, mas esse produto foi responsável de virar a chave do Yvon Chouinard que já era conhecido como inovador e ter outros exemplos de invenção na sua trajetória. Para Nike foi quando conseguiram desenvolver a técnica de injetar ar com gel nos tênis, o sócio de Phillipe Knight sempre foi uma pessoa voltada à criação e desenvolvimento de produto. Bill Bowerman fez uma carreira sólida como treinador de time de corrida, até mesmo treinou o time dos Estados Unidos para as Olimpíadas, devido a isso tinha facilidade de entender a necessidade real de bons tênis.
FAMÍLIA, AMIGOS E SOCIEDADE
Muitos livros de negócios dizem para não misturar amizade, família nos negócios. Parece que esses três não sabiam disso, todas as pessoas do primeiro escalão era amigos ou familiares (os três envolveram a mulher no negócio, acredito que nunca ouviram o ditado “onde se ganha o pão não se come a carne”/ “Don’t go fishing off the company pier”.
Talvez isso se deve muito ao fato de ser uma época mais difícil de arrecadar investimento e contratar todo um time capacitado para as funções necessárias, para um começo é bastante caro. Só que a grande diferença, foi que os três conseguiram manter o profissionalismo e dividir o que era o trabalho e o que era vida pessoal com os amigos e familiares envolvidos. O Gary Erickson, sempre enfatiza em seus discursos:
Não faça o que eu fiz e dá metade da empresa para uma amiga, porque você é um cara legal. E você não traz o capital de alguém que você sabe que vai perder o controle", disse Erickson. "Eu já falei com mais sobre isso do que provavelmente qualquer coisa com jovens empreendedores. — Gary Erickson
Misturar amigo no negócio é diferente de misturar amizade no negócio.
Já para o Phillipe Knight, que contava como sócio um antigo coach de corrida a quem confiava e respeitava chamado Bill Bowerman. O Yvon Chouinard e seu amigo engenheiro aeroespacial Tom Frost, que era apaixonado por alpinismo também se tornaram sócio. Acho que o principal motivo do Gary Erickson não ter encontrado êxito em sua sociedade, foi que Lisa Thomas não era apaixonado pelo seu hobby e não compartilhava a mesma visão.
Um comentário particular sobre esse tema é que para mim existe apenas 3 maneiras de formar uma sociedade com alguém que você confia e os valores sejam comuns.
1- Capital
2- Intelectual
3- Trabalho
São três frentes que devem ser preenchidas por diferentes pessoas onde o tolerável é no máximo dois pilares em uma pessoa.
VALORES CLAROS ATRAEM AS PESSOAS CERTA
Quando você fala de empresa descolada, logo vem a sua cabeça Google, Facebook, Uber, Amazom. Mas esqueceram que antes mesmo da internet existir, já se falava em empresas com uma política flexível e a Nike, Patagônia e Clif Bar prezavam muito isso. Com inúmeros programas voltados para os funcionários afim de incentivar, motivar e manter os valores e filosofia vivos. Eles não se preocupavam apenas em escritórios descolados, mas também em trazer assuntos sociais e ambientais, que julgavam importante. Alguns dos exemplos era o caso de instalar uma creche no escritório da empresa, pensando nas mães que não tinham ninguém para deixar os seus filhos enquanto trabalhava. Programas de incentivo a prática de esporte que ia desde de presonal trainners à incentivos monetários para prática de esporte por pelo menos 30 min diário, e muitos programas e financiamento de projetos ambientais.
Yvon Chouinard já declarou que só apoia ativismo ambiental porque acredita que todo problema nasce do meio ambiente e prefere resolver problemas com ações não paliativas, mesmo durando por muito mais tempo. Esse tipo de atitude e visão reflete em seu negócio também, onde sempre procura incentivar ações de longo prazo e até contratos de fornecedores, criando uma relação mais próxima com os mesmos.
A Clif Bar chamou seus valores das 5 inspirações: sustentabilidade no negócio , na marca, nas nossas pessoas, na comunidade e no Planeta. Eles procuravam sempre por pessoas não com MBA mas sim com vontade e objetivos. Pessoas que tem como foco trabalhar para um mudo melhor e não apenas trabalhar por trabalhar. Como são marcas com valores e com uma identidades bastante forte e clara, ajuda bastante a atrair e identificar perfis ideais.
A MARCA ESTAMPADA NOS ATLETAS
As três marcas sempre se identificaram com mais de um esporte, que foi o caso da Nike, que rapidamente ampliou seu público com os tênis para basquete. A Clif Bar marcou presença desde cedo em esportes de alta performance e a Patagônia conquistou as pessoas que praticavam esportes em geral em condições bem frias. E isso, aconteceu de maneira orgânica e gradual, criando embaixadores da marca pelo mundo inteiro.
Acredito que esse post conta de uma maneira bem superficial sobre os três livros e aconselho fortemente a leitura para conhecer os detalhes de cada trajetória. Em seguida segue as frases mais marcantes dos 3 empreendedores:
“Como você sobe uma montanha é mais importante do que chegar ao topo.” — Yvon Chouinard
“A verdadeira aventura é melhor definida como uma jornada a partir da qual você pode não voltar vivo e certamente não sendo a mesma pessoa.” — Yvon Chouinard
“Queremos clientes que precisam de nossas roupas, não apenas o desejo delas.” — Yvon Chouinard
“Primeiro, você tem que fazer algo em que acredita. Eu acreditei desde o início que o Clif Bar era um produto digno. Então, continue fazendo o melhor que pude. Além disso, você tem que ser humilde sobre o que faz, não se torne arrogante e sempre mantenha seu ego sob controle. E nunca desista. “ — Gary Erickson
“Acho que não sabíamos exatamente o problema em que estávamos até que começamos a ter aconselhamento legal. Fomos muito ingênuos no começo e não tivemos nenhum”, disse Crawford. “Uma vez que você entende como as parcerias funcionam ou o que as coisas significam legalmente, isso faz uma grande diferença em suas decisões no futuro e em sua empresa.” — Gary Erickson
“Sonhe audaciosamente. Tenha a coragem de falhar em frente. Agir com urgência. ”- Phil Knight
“Faça história ou faça parte disso.” — Phil Knight
“Uma marca é algo que tem uma identidade clara entre os consumidores, uma empresa a cria enviando uma mensagem clara e consistente ao longo de anos, até atingir uma massa crítica de marketing.” — Phil Knight
“Atreva-se a arriscar, para que você não deixe seu talento enterrado no chão.” — Phil Knight
