Entre italianos, pizzas e caipiroskas

Lá estávamos nós, novamente em Roma, esperando o trem, dessa vez para irmos a Poggio Mirteto, uma pequena cidade ao Norte de Roma, sem fazer a menor ideia do que nos aguardaria. Tínhamos conversado com mais um Host do HelpX e então decidimos ficar 2 semanas em sua casa de campo, fazendo trabalhos mais relacionados a jardinagem em troca de acomodação e alimentação. E era tudo o que sabíamos.

Chegamos em Poggio Mirteto e Martin, o Host, estava lá para nos pegar e nos levar para a casa. Logo no carro, já deu pra perceber qual seria a vibe do lugar. Um cara pra cima, que estava bem empolgado com a nossa chegada, que falava dos 46 guests anteriores que ele já havia recebido, das experiências (boas e ruins), do quanto o trabalho seria duro, e sobre sua linda e maravilhosa filosofia de trabalho: “Se você quer pessoas felizes e empenhadas trabalhando pra você, você precisa sempre alimenta-las muito bem”. Ahhh, mal sabia a felicidade que ele criava dentro da gente.

Chegamos em casa, um belo prato de macarrão, um copo de cerveja e uma siesta (que bom que existe essa cultura de descanso pós almoço por aqui). Acordamos, bota, calça para sujar e fomos ver o que nos esperava. Varrer folhas secas aqui, colher tomates que estão prontos ali. Nada demais visando o belíssimo jantar que tivemos naquela noite, preparado por ele, que atuava como chef em alguns hotéis de Roma nas horas vagas. Que sorte.

Nosso trabalho por lá variava com o que ele nos dizia cada dia. Tinham dias mais puxados que tínhamos que cortar grama, madeira, podar árvores usando uma serra elétrica (!!!), e dias em que ficávamos apenas na cozinha, preparando molhos, lavando a sujeira que ele ia deixando pelo caminho. Sempre acompanhado de cerveja, vinho e outros drinks que ele aparecia na mão. Gostava muito de beber e não hesitava em nos pedir para o acompanhar. Ele não tinha carteira de motorista então logo nos disse que seríamos os motoristas quando fossemos fazer compras ou pegar alguém na cidade. Nada mal. Um Panda Rosa de 1980 que ainda mostrava sua garra variando entre a 1ª e a 2ª marcha, ousando para a 3ª de vez em quando.

Foi muito fácil se acostumar com a rotina de trabalho, comida e álcool. Além disso, Martin era um cara incrível. As conversas com ele na cozinha enquanto cozinhávamos eram longas, profundas muitas vezes, outras vezes apenas gargalhávamos com o ótimo senso de humor que ele tinha. Era americano mas já vivia na Itália há mais de 20 anos e sempre nos mostrava algumas das gravações que ele fazia (sua profissão oficial era a de “Voice Actor” e ele era o responsável pela Brand voice do National Geographic na Europa.

Durante os 3 primeiros dias que ficamos lá, o assunto mais tocado era a festa que aconteceria no próximo domingo, comemorando 2 anos que eles haviam se mudado para aquela casa. Uma festa em que eles receberiam cerca de 30 pessoas, com drinks, pratos pré-preparados e pizza no forno a lenha da varanda. Preparamos a casa para a festa mas ainda faltava alguém para fazer as pizzas. Não foi por falta de tentativa dele para arrumar um pizzaiolo mas no final das contas ele não conseguiu arrumar ninguém. Quem então faria? Nós mesmos.

Mas calma lá. Fazer pizza para italiano? Sendo que eu nunca tinha nem se quer esticado massa de pizza alguma vez na minha vida? Uma missão um pouco complicada uma vez que estamos falando do povo que mais é (e pode ser) crítico com relação a pizzas. Mas é o que ele acreditava ser a melhor opção e disse que nos ensinaria alguns truques.

Pega a massa aqui, estica assim, joga o molho, e inventa o seu recheio. Pareceu bem simples quando ele mostrou então fomos em frente. O que não imaginávamos é que teríamos 30 italianos famintos analisando, opinando e rodeando o forno e o ambiente de preparação, aguardando ansiosamente para comer. Nossas pizzas mais pareciam artes abstratas (no quesito formato) mas bem apetitosas. Nós brasileiros estamos acostumados a pizzas massudas, bem recheadas, com queijo pingando. Enquanto na verdade, eles sugerem que a massa da pizza seja bem fina, com poucos ingredientes. Encontramos um belo equilíbrio e acho que deu muito certo no final das contas. Elas foram elogiadas e chegaram até a comparar com a pizza de um outro cara que estava lá (italiano) que uma hora assumiu o forno. Disseram que as nossas pizzas estavam mais saborosas e mais fáceis de comer pois não desmontavam. Ponto pro Brasil.

Acabada a missão da pizza, nos foi pedido por um grande grupo de italianos que estava lá, que preparássemos uma clássica bebida brasileira. Não tem como pensar duas vezes na hora de fazer um belo de um drink. Tá aí uma coisa que a gente sabe fazer bem. Beber e embebedar os outros.

Analisamos as opções. Vodka, limão, açúcar, amassador, tábua, vualá. É o cenário perfeito pra uma Caipiroska.

Formou-se uma fila de pessoas com copinhos na mão esperando então que os enchêssemos. Um drink forte, diferente do Aperol Spritz que domina a Itália inteira, mas muito bem apreciado pela italianada. Tivemos que fazer algumas rodadas para suprir toda aquela vontade de beber do povo. Novamente, ponto pro Brasil. Gostaram, e muito.

A festa foi a prova final para nós de que estávamos vivendo de fato no meio de italianos. Estávamos experimentando a raiz da cultura, em uma casa de campo que parecia ter sido feita para receber gringos e os fazerem sentir de fato na Itália. Martin foi excepcional com a gente e, mesmo com o trabalho que as vezes se mostrava bem duro, nos recompensava sempre da sua melhor forma. Drinks, comidas e boas risadas. O clima era sempre muito leve por lá. Foram dias que chegamos a dizer serem os melhores desde que tínhamos saído do Brasil. Foi o único lugar até agora, que ficamos tristes de verdade de ir embora. 2 semanas foi muito pouco.

Fizemos um amigo de verdade através dessa troca de favores proporcionada pelo HelpX. Foi triste ir embora mas sabemos que voltaremos.

Ao sair de lá eu pude de fato perceber o quão interessante é esta plataforma e o quanto podemos nos inserir em diversas culturas através dela. Ele está nos mostrando que, mais do que viajar por um país, conhecer cidades, desbravar elas a pé com um mapa na mão, tirando fotos e mais fotos, podemos de fato viver o dia a dia de uma cidade, ou até mesmo, neste caso, de uma família local e ter experiências que você só tem quando abre a cabeça pra se inserir de fato em algo completamente novo.

A verdade é que todas as vezes que fomos de braços abertos para alguma experiência, muitas vezes sem nem saber o que esperar dela, tivemos bons resultados. Sabemos que nem sempre será assim e por isso não podemos nos acostumar com o ótimo ritmo de vida proporcionado por boas pessoas no mundo. Mas que é bom se acomodar, abrir uma cerveja, aprender a cozinhar um belíssimo de um Carbonara e dar risadas com um novo amigo, é.

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