Sobre mudanças, HelpX e viver numa cidade pequena, no meio do paraíso.

Uma das coisas mais incríveis que já podemos perceber dessa viagem é o quanto teremos que nos adaptar as constantes mudanças.

A gente muda e vai mudar o tempo todo. Seja de casa, de trabalho, de vizinhança, de amizades… mas o mais interessante é que essa mudança é sempre para algo completamente novo, que mal sabemos o que esperar.

Já fazem 3 semanas desde que saímos da Irlanda. Estávamos vivendo lá como locais já. Sabíamos o melhor lugar para comprar comida, para beber, para visitar. Já não éramos estranhos para aquele lugar. Só que como a gente já sabia, essa viagem é sobre sair da zona de conforto e sobre não saber o que vai acontecer. O que exatamente aconteceu no nosso próximo passo.

Nossa passagem por Paris foi rápida. 5 dias, 4 noites. Daqueles que você rabisca o mapa rapidamente, faz contas e planeja para ver como será possível visitar tudo que tem naquela cidade nesse pequeno período de tempo. Fazia tempo que não vivia como turista assim. De acordar, tomar café da manhã, sair para passear, voltar pra casa, tomar um banho e sair novamente de noite para conhecer ainda mais da cidade. E que cidade. Já tinha ido para lá há cinco anos atrás e voltar nesse contexto foi ainda melhor.

Conseguimos fazer bastante coisa mas muito longe de tudo que gostaríamos. A lista era grande. Teve Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Versailles, caminhadas em Saint Germain, Champs Elysée, éclair, macarrones… e assim vivemos como turistas pelos dias que passamos por lá. Engraçado foi perceber a diferença. Durante 3 meses na Irlanda, não chegamos a conhecer nem metade das atrações turísticas que conhecemos em Paris em apenas 5 dias. O objetivo era muito diferente.

Saímos de lá e começamos uma longa jornada para chegar a Lucca, uma cidade na Toscana que trabalharíamos no nosso primeiro HelpX. Voo na madrugada, ônibus para Florença, trem para Lucca. Foi demorado. Um dia inteiro pegando mochilão, largando mochilão. Depois de algumas repetições, os 16 kg da mochila nas costas e 10 kg da mochila de ataque começam a pegar. Mas isso não foi nada. Viajar para um lugar novo é sempre incrível. E a surpresa de Lucca valeu cada suor, cada hora perdida de sono.

Chegamos em Lucca e nos deparamos com um pequeno paraíso. A parte que ficamos é a central da cidade que é cercada por um muro. Esse muro que antes dividia as pessoas, hoje junta todo tipo de gente pois virou um parque que rodeia toda região central da cidade. A típica imagem da Toscana que qualquer pessoa tem, a cidade entrega. Chega a ser difícil descrever. Pequenas vielas, sorveterias para todo o lado, pizzarias, praças.

Nosso negócio aqui seria o de trabalhar em um B&B pelos próximos 30 dias em troca de acomodação (normalmente o host fornece alimento também mas nesse caso, ela disse que o trabalho era muito simples e acabamos aceitando apenas pela acomodação mesmo).

A pousada é dessas bem locais, que a própria dona toca sozinha, e bem pequena (um total de 6 quartos, sendo que 1 deles é nosso). Bem cuidadosa, atenciosa e muito simpática, a dona do B&B leva a vida numa boa e recebeu a gente de braços abertos.

Sobre o trabalho, desacreditamos. Nossa expectativa era de que trabalharíamos pesado. Poucas horas por dia, mas pesado. Que nada. Nossa rotina aqui é bem simples. Acordamos as 8 da manhã para ajudar ela a montar o café da manhã (algo como preparar café em uma pequena máquina, esquentar leite, arrumar uma cestinha de pães…), esperamos os hospedes fazerem check-out (quando tem) e arrumamos a cama, varremos o chão, limpamos o banheiro do quarto deles. Nada que leve mais do que 20 minutos. Ou seja, começamos o dia as 8 da manhã, damos poucos passos até a cozinha, arrumamos alguns quartos e fim. 10/10:30 já estamos livres para viver o dia pela cidade, ir para praia, conhecer cidades ao redor. Tiramos de 1 a 2 dias por semana de folga completa e os outros 5/6 possuem essas 2 horinhas de trabalho. Não dá pra reclamar. Final de tarde, quando não viajamos, saímos para correr em cima do muro da cidade. Ah, e tem isso. A cidade é extremamente viva. Muito além da nossa expectativa. Gente pra todo lado, toda hora. Jovens, famílias, de manhã, de noite, madrugada.

É engraçado perceber a diferença de ritmo de vida que vivemos agora. Não andamos com mapa no bolso como havíamos andado nos 5 dias em Paris. Não andamos correndo, pegando ônibus/trem para ir trabalhar como fazíamos em Dublin. Aqui, andamos de havaianas, com calma, descobrindo as ruas e deparando as vezes com atrações turísticas da cidade. Sem pressa para conhecer porque tempo é o que de fato não falta. Sem contar as possibilidades que existem ao redor da cidade. Praia a 30 minutos de ônibus, Pisa a 40, Florença a 1:20 de trem. Qualquer bate-volta é considerado. Claro, como estamos trabalhando por hospedagem, não temos entrada de renda no momento, o que nos faz viver com o que guardamos de Dublin e pensar algumas vezes antes de gastar dinheiro com qualquer coisa.

Esse é o ritmo. É leve. É como viver um sonho mesmo. Acordar no meio do paraíso todos os dias. E não só passear mas sim viver nele. Ver a rotina da cidade, comprar pão na vendinha do Sr Lorenzo, fazer supermercado, sair para correr com um plano de fundo de desacreditar, caminhar em típicas vielas italianas sem rumo porque simplesmente é o que temos para fazer ao longo dos dias.

Essa experiência vai muito além de qualquer coisa que já vivi na minha vida. É sobre olhar para aquela cidadezinha que você gostou e simplesmente falar: ok, vamos viver 30 dias aqui. Simples desse jeito.

Esse foi o primeiro HelpX de muitos que virão. A primeira cidadezinha desconhecida de muitas outras que viveremos. Por enquanto estamos bem, vivendo sem pressa porque de fato não queremos que acabe. Mas sabemos que vai e que a única coisa que sabemos do próximo lugar é que ele ainda será dentro da Itália. De resto, vamos descobrir.

Este pequeno pedaço de paraíso foi um achado na nossa vida, que caímos por pura sorte. Conhecemos (novamente) a pessoa certa que nos ajudou e nos deu essa oportunidade de viver a vida na Toscana por um mês. Não é sempre que uma oportunidade dessa cai do céu. O paraíso não está de portas abertas todos os dias mas enquanto estiver, vamos ficar e passear por ele.

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