Um tapa na cara pra colocar o pé no chão e ver que trabalhar ao redor do mundo não é fácil não. Bobo eu que achava que seria.

Quando decidimos sair do Brasil, decidimos que pararíamos em diversos países ao redor da Europa para trabalhar, fazer dinheiro e seguir viagem. Simples assim. Sabíamos que não seria uma tarefa fácil e que teríamos que ralar muito em alguns momentos. Principalmente com os trabalhos que pegaríamos.

O período de Dublin me acostumou mal. Chegamos lá, arrumamos trabalho no 4º dia, trabalhei em um restaurante durante 1 mês e meio como Kitchen Porter (pesadíssimo) e logo na sequência, consegui um trabalho em uma agência de publicidade. Foi como mudar da água pro vinho. Foi tão fácil conseguir esse trabalho. Não só ele. O da cozinha também. Bati em algumas portas, entreguei uns 10/15 currículo e vualá… estava empregado. Da cozinha pra agência foi apenas um pulo. As coisas estavam fluídas e acontecendo.

Estavam.

Aconteceu muita coisa desde que saímos de Dublin até que chegamos em Barcelona, nossa 2ª grande parada para trabalhar. E a verdade é que eu tirei algumas lições bacanas do tempo que trabalhei no restaurante em Dublin. O fato de trabalhar de noite, é simplesmente horrível. De chegar em casa e já dormir porque está muito tarde. E ai o que acontece é que sua vida vira uma grande espera sempre para entrar no trabalho. Você acorda e tem que programar tudo para que até 1 hora antes de entrar no trabalho você esteja pronto para marchar em direção a ele. Não tem aquele momento bacana de aproveitar a saída do trabalho. De pensar que você trabalhou loucamente o dia inteiro e agora vai poder aproveitar a noite. Descansar em casa, tomar uma cerveja, cozinhar algo, assistir um filme. Não. Então quando chegamos em Barcelona eu fiz um acordo comigo mesmo de que trabalharia em algum lugar que não fosse de noite. Doce ilusão.

O processo aqui é mais complexo. Começa pelo número de identificação estrangeira para trabalhar (NIE). Um documento que qualquer cidadão que deseja morar e trabalhar na Espanha precisa tirar. Mas para pegar você precisa de uma carta do seu empregador. E ai já tem problema. Como você pode pegar o NIE então se você precisa de um trabalho e para pegar um trabalho precisa do NIE? Exatamente. Ovo e galinha, galinha e ovo. Basicamente isso acontece porque a maioria dos empregadores só quer contratar pessoas que já possuem experiência trabalhando na Espanha, ou seja, que já possuem o NIE. E quem não tem, que rale. Foi exatamente o que aconteceu comigo.

A missão de conseguir um emprego em Barcelona foi complicada. Eu passei exatas 3 semanas, todos os dias, desbravando a cidade, vagando por ruas aleatórias, andando, andando e andando muito. Tinham dias que andava uns 20km no total, apenas distribuindo. Entregando currículos em cada restaurante, bar, café, lugar que eu passava. Acabavam os currículos, ia em um “locutório” (famosa lan-house) imprimia mais 10, entregava mais 10. Acabava o dia, voltava pra casa, descansava, e no dia seguinte tudo se repetia. Nesse meio todo ai, algumas entrevistas aleatórias que conseguia também através do aplicativo de busca de trabalho “JobsToday” mas que não resultavam em nada porque eu sempre era travado no processo quando o entrevistador me perguntava do maldito NIE. Fazer o que né!?­ Seguir buscando. Além disso, aqui eles tem a cultura da siesta. O grande problema é que todo o comércio fecha, inclusive os restaurantes. O que faz com que o trabalho nesse setor seja normalmente dividido em 2 turnos. Das 11–16hs e das 20–00hs. Ou seja, praticamente o dia todo. Principalmente se você mora longe do local de trabalho. Você acorda, faz suas coisas matinais e por volta das 09:30/10 tem que sair de casa pra ir trabalhar. Chega em casa por volta das 17, faz mais algumas (poucas) coisas e tem que sair as 19 para voltar pro trabalho. Aí, só as 00, o que te faz chegar em casa na madrugada.

Sinceramente, tinham dias que o ânimo era menor. Não tinha mais aquela energia para sair na rua, batendo de porta em porta. Mas não tinha o que fazer, apenas seguir entregando.

Fiz “pruebas”, famosos trials, que são famosos testes de trabalho, onde você passa uma hora (ou as vezes o dia) trabalhando para que o empregador avalie se quer ou não te contratar. Passei por um restaurante que era simplesmente incrível. Trabalharia no horário comercial, nada pesado, num ambiente extremamente agradável. Não deu certo. O cara queria alguém pra substituir ele na cozinha, e calma lá. De ser chef de cozinha, estou longe. Nem é objetivo também.

Trabalhei também 1 semana em um restaurante que era perto de casa, no esquema de horário partido. De terça à domingo, das 11:30 às 16:30, das 19:30 às 00:00. Foi legal, trabalhei como ajudante de cozinha e aprendi a fazer algumas coisas bem bacanas. Além de claro, lavar pratos, panelas, pratos e mais panelas.

O problema é que ao fim da semana tivemos que mudar de casa. Fomos pra um lugar que ficava há uma hora e meia do trabalho. Aí não dava. É só fazer as contas pra ver que definitivamente não dava. Decidi sair. Não estava feliz com o lugar, não estava feliz com o horário e decidi que queria trabalhar em alguma coisa que não tomasse meu dia todo.

O objetivo de vir pra Barcelona era de fazer dinheiro para seguir viajando. Mas o que comecei a me perguntar foi: A que custo? Não queria ter uma vida desagradável, mesmo que em um lugar incrível como Barcelona. No final das contas, não é só isso que conta. Sua felicidade não é baseada apenas no lugar que você vive. É fortemente baseada na forma que você vive aquela experiência. E pra mim não dava.

Entrega currículos, faz entrevista, manda mensagem através do JobsToday. Não demorou muito pra me aparecer uma nova oportunidade. Restaurante, horário partido. E a verdade é que continuaria assim. A cultura do país é essa, é assim que as pessoas vivem. Ou aceita, ou se manda.

Foi um erro que cometemos que fez com que aprendêssemos. Não se chega num país sem saber a burocracia para trabalhar nele, a cultura de sub-emprego que existe (horários, trabalhos…). Aprendemos.

No final das contas, tive a sorte de encontrar um trabalho em uma empresa de Marketing Online, como Sales Assistant Latam. Ainda não sei ao certo o que será (começo daqui a uma semana só) mas estou feliz. Horário contínuo (comercial), com folgas de fim de semana. Nunca imaginei que sentiria tanta falta disso. Senti.

Penso que o mais importante na verdade não foi ter encontrado trabalho. Foi ter visto que as coisas não são como a gente pensa que elas serão. Me iludi muito com a realidade que vivemos em Dublin e aí o choque aqui foi grande. Não conseguir mesmo tentando constantemente mas ao mesmo tempo não ter outra saída. Foi frustrante alguns dias, esclarecedor outros. Alguma coisa mudou dentro de mim com relação a isso. Preciso descobrir ainda o que exatamente. Mas foi bom, me fez colocar o pé no chão e ver que trabalhar ao redor do mundo não é fácil não. Bobo eu que achava que seria.

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