Viagem de volta ao mundo não é glamour, é raça.

Existem alguns tipos de viagem de volta ao mundo. Não sou conhecedor de todos mas estou experimentando um. Existem pessoas que saem de seu país natural depois de juntar bastante dinheiro, vender bens, se preparar financeiramente, e tirar um ano sabático. As vezes até mais. 2, 3 anos. Depende do bolso. Perrengues, com certeza essa pessoa passará. Não é mais fácil viajar assim do que do jeito que estou viajando. E nem é sobre isso que quero falar.

Mas a viagem de volta ao mundo que eu minha namorada nos propusemos a fazer é e se mostra cada vez mais complexa para nós.

Saíamos do Brasil com dinheiro apenas para sobrevivermos por 2 meses, ela com o passaporte italiano já no bolso, eu com o meu para ser retirado na Itália depois de alguns meses que a viagem começasse, e isso com certeza foi fundamental para que a viagem fosse possível. Não estou dizendo que sem o passaporte uma pessoa não pode viajar o mundo. Mas ela não poderá trabalhar legalmente nos países Europeus, onde escolhemos ser nossa base para fazer dinheiro sempre que precisarmos.

Nossa viagem de volta ao mundo tinha uma ideia de caminho pré-definido que na verdade até agora não funcionou nada da forma que imaginávamos que funcionaria. Sairíamos do Brasil, iriamos para Irlanda trabalhar um período de tempo, iríamos para a Itália pegar minha cidadania, viajariamos pela Europa por alguns meses, pararíamos para trabalhar de novo, viajaríamos pelo restante da Europa, pararíamos na Inglaterra, faríamos bastante dinheiro em libra e sairíamos do continente Europeu rumo a África, Ásia e por ai vai. Chegaríamos na Austrália e pegaríamos o visto de trabalho de um ano por sermos italianos com menos de 30 anos, trabalharíamos por lá enquanto viajaríamos pelo resto da Ásia, até ir para a América do Norte e aí ir descendo. Muitos planos, muito longo, não fazemos ideia ainda se vai funcionar. No meio desses trabalhos e países todos que pretendemos passar, iremos também contar com a ajuda do HelpX e do Workaway (desses projetos que você trabalha em troca de acomodação e alimentação).

Estamos na fase da Europa ainda. Até agora, vivemos na Irlanda por 4 meses, juntamos bastante dinheiro, passamos por Paris por 5 dias como turistas mesmo, fomos para a Itália esperar minha cidadania sair. Demorou mais do que o previsto e tivemos que ficar na Itália por 2 meses esperando. Fizemos HelpX na Toscana por 1 mês, 10 dias numa casa de campo há 40 minutos de trem de Roma e o resto viajamos. Conhecemos bastante, muitos gelattos, pizzas (com e sem glúten — a Carol é Celíaca) e tudo mais que a Itália pode oferecer.

Pegamos minha cidadania, fomos para a Espanha para trabalhar, afinal de contas nosso dinheiro trabalhado em Dublin se foi e precisávamos de novo trabalhar. Na Espanha, as coisas não foram como imaginávamos. A Carol arrumou emprego fácil, eu não. Além disso, foi lá que percebemos que chegar num país, assentar a vida a ponto de trabalhar não é tão simples assim para um cidadão Europeu também. Claro, depende de cada país. Mas imagina que toda vez que resolvemos parar para trabalhar, temos que fazer conta de celular (pré pago normalmente porque a única vez que fizemos plano nos ferramos legal), abrir conta em banco que para isso normalmente você precisa de um comprovante de residência, que para isso você precisa alugar uma residência. Claro. Mas alugar uma residência/quarto as vezes não é tão simples assim. Como não foi na Espanha para nós. Semanas buscando, ligando, visitando. Encontramos, deu problema, fomos embora. Nos afundamos financeiramente lá, surigu uma brecha, resolvemos vir para a Inglaterra, Londres.

Muitas oportunidades, já estamos trabalhando. Conta no banco, conta de celular, quarto alugado. É uma outra vida que começa aqui agora. Mais um ciclo, mais uma batalha.

Cada país que chegamos para trabalhar é uma vida nova que se começa. É um ambiente novo que precisamos nos adaptar ao transporte, aos caminhos, ao mercado, ao trabalho. Cada país a sua forma de contratar, seus documentos necessários para que você possa legalmente trabalhar.

No final das contas, é engraçado porque não é que você simplesmente chega no país e se vira do jeito que dá. Se você tem dinheiro sobrando pra gastar com Airbnb, transporte e comida, tudo bem. Mas como nós estamos viajando apenas com o dinheiro que fazemos na viagem, temos que chegar nos lugares preparados para não ficarmos sambando e gastando. E acredite em mim quando eu digo que quando você chega num lugar muito desinformado, você vai gastar mais dinheiro do que imagina para conseguir se adaptar.

O trabalho. Ele não é nenhum pouco leve. Ele envolve finais de semana, madrugadas, cortes, roupa suja, suor. Ele envolve você aceitar o que vier porque a cada dia sem trabalhar, é um dia sem receber. E quando paramos para trabalhar, é porque precisamos de fato trabalhar. Então não tem tempo para perder.

É claro que luxos existem. É claro que já nos demos o luxo de sentar num restaurante caro e tomar vinho. Que já nos demos o luxo de alugar um carro na Toscana e viajar por ela inteira. Que já nos demos o luxo de alugar um carro por 3 dias e viajar pelo Norte da Itália. Que nos demos o luxo de visitar Roma milhares de vezes no vai e vem dos meses que vivemos na Itália. Que nos demos o luxo de turistar pelas cidades que passamos, de gastar mais numa coca-cola enquanto passeamos. De beber em pubs (que naturalmente são caros), de pagar para entrar na Sagrada Família, no Louvre. Luxos esses, que nos demos porque sabíamos que podíamos, que merecíamos e que precisávamos. Além de nunca sabermos quando e se vamos voltar para alguma cidade/país.

O equilíbrio entre uma vida suada na cozinha e um passeio com a câmera no pescoço a gente faz bem. As horas de trabalho são pesadas (as vezes até mais do que aguentamos) e as horas de passeio contadas. Não é luxuoso viver contando dinheiro, caminhando mais porque transporte é caro, comer macarrão e arroz com batata. Não é luxuoso lavar todos os pratos de um restaurante, servir todos os clientes de um bar, atender a todos os hóspedes de um hostel.

Nossa viagem de volta ao mundo ainda está muito no começo. Conseguimos sentir um gosto e sabemos que ele pode ser muito amargo. Que o cansasso físico não é o único problema. Que a saudade é sem dúvida o maior de todos. Mas sabe qual é a verdade? Vale cada segundo. Vale cada momento que a gente veste o avental, que a gente liga pra nossa família morrendo de saudades, que a gente passa vontades. O que vivemos, conhecemos, experimentamos, é impagável. A quantidade de pessoas boas que passaram já pelo nosso caminho, e deixaram suas marcas. De paisagens, cidades, cantos, avenidas, bairros, restaurantes, bares, montanhas, praias, estradas. Tudo.

Nossa viagem de volta ao mundo não é glamour. Mas ela é nossa.

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