Programando o futuro

Está cada vez mais difícil para o responsável por uma criança orientar sobre a melhor formação para um futuro profissional. Carreiras que já estiveram no topo da cadeia alimentar da nossa sociedade agora se encontram em xeque. Isso vale para médicos, engenheiros e advogados. Elas não vão desaparecer, mas terão de enfrentar uma grande transformação muito em breve. Eu vejo pela minha profissão, jornalista. Comecei a trabalhar em jornal diário na década de 80 usando máquina de escrever. Se alguém não souber o que é isso, basta procurar na Wikipedia ou em algum museu virtual. Hoje até os jornais diários estão desaparecendo e, na web, notícias de mercado financeiro ou de esporte já são elaboradas por robôs. Os dados chegam aos computadores do portal, um algoritmo os transforma em um texto e este é publicado no site sem ninguém por a mão, com título, intertítulo e foto. E sem erros. Resta o dilema: ou se ensina jornalismo para um programador, ou programação aos jornalistas.

Se a mudança já foi muito grande desde meus tempos de estagiário, quando não tínhamos computadores pessoais, celulares, nem internet, qual será a rapidez das mudanças daqui para a frente? Meu filho tem dez anos e todas as profissões que ele sonha têm a ver com o desenvolvimento de novas tecnologias. A única que se escapa mais ou menos é a de jogador de futebol. A mudança é tão rápida e intensa que temos de preparar nossos filhos para profissões que ainda não existem. Fica muito difícil.

Diante dessas incertezas podemos correr o risco de embarcar em “modinhas” de carreiras cujos interesses são efêmeros. Basta lembrar da febre por engenheiros do petróleo quando se discutia o pré-sal e o futuro promissor do Brasil entre as potência petrolíferas. Faz pouco tempo. Quem entrou na faculdade quando esse assunto era a pauta ainda nem se formou e essa carreira já não consta entre as mais procuradas pelo mercado, aliás o setor está em crise, até chegaram a falar sobre uma possível falência da Petrobras.

A boa notícia é que alguns sinais são bastante claros e servem para nos agarrarmos em alguma coisa na hora de orientar a formação de nossos filhos. Eu me refiro à necessidade de se ensinar programação desde os primeiros anos de alfabetização. Isso ficou possível depois que o prestigiado MIT (Massachusetts Institute of Technology) dos Estados Unidos elaborou um programa para ensinar crianças a programar. O meio de transformar uma missão árdua e chata em algo palatável para elas foi usar o game. Ou seja, esse programa possibilita “alfabetizar” crianças em programação através do que elas mais gostam de fazer. Muitas escolas americanas, asiáticas e europeias passaram a adotar a programação na grade curricular. Saem as aulas pesadas de informática sobre o uso de planilhas, processadores de texto e apresentações e entram as de programação de games. É um grande avanço tanto na forma (são aulas bem mais interessantes) como no conteúdo (um conhecimento para ser usado imediatamente e ampliado por toda a vida).

É claro que, como em todas as áreas, também corre-se o risco de cair em mais uma “modinha”. A dica é procurar quem passa o conceito e não apenas os tutoriais de ferramentas. O jornalismo pode ser feito e é necessário em diversas plataformas (jornais, revistas, portais, blogs, redes sociais etc), a medicina é muito mais do que os dados de um exame e um músico pode expor sua arte no vinil, CD, DVD, mp3 ou por streaming. Da mesma forma, a programação que fará diferença na formação profissional das crianças de hoje tem que estar acima do simples “aprender jogando”. É preciso pesquisar quem oferece a melhor solução, mas pelo menos é como pescar em um tanque: já sabemos onde estão os peixes, é só procurar, porque o caminho mais razoável parece ser esse.