Continuamos mudando!

Continuidade. É uma das mais óbvias condições para o desenvolvimento de um bom trabalho de base, não são necessários milhões de reais nem estruturas de hotel cinco estrelas para manter uma mesma equipe de trabalho com profissionais qualificados durante um período razoável. Não é preciso inventar a roda, fazer nada mirabolante para dar aos profissionais do campo continuidade, dois, três anos de trabalho ininterrupto para começar e finalizar o processo de formação do jovem jogador.

Sem ela começamos a montar um Hyundai, colocamos peças de Ferrari e no final não temos sequer um carro, na analogia do técnico Renê Simões em entrevista concedida com exclusividade ao IB.

A falta dela é mais sentida no profissional, na famosa dança das cadeiras dos técnicos que continuou frenética em 2015, mas faz mais estrago na base, afinal, precisamos de carros prontos para andar, seja nas estradas gramadas e bem iluminadas dos campos de futebol mundo afora, ou em outras menos glamourosas mas talvez até mais importantes para nossa sociedade.

Não se permite à ela fazer parte do mundo do futebol, e do esporte, pois quem tem a caneta nas mãos quase sempre assina pelo “fato novo”. Se manter no poder, agradar pares ou até mesmo benefício próprio vem na frente do sucesso esportivo e de uma gestão profissional, resultado? A continuidade passa longe. Não só isso, a sobrevivência das equipes fica em xeque.

Uma importante fonte de receita, a dos patrocinadores, que no caso dos esportes “amadores” é em quase todos os casos a única, precisa se provar — falamos sobre isso aqui. O Corinthians entrega à Caixa todo o valor investido em exposição? O Palmeiras faz o mesmo com a Crefisa? Ou os contratos são fechados de acordo interesses e relações que não apenas os estritamente publicitários? Quando o amor, ou o interesse, acaba a torneira seca, a situação aperta e no caso dos outros esportes -ainda, e só ainda não, no caso do futebol- o portão fecha. Nesse jogo a formação de esportistas sai sempre perdendo. Sem dinheiro, normalmente o longo prazo é deixado de lado e, de novo, a continuidade vai por água abaixo.

O LADO MAIS FRACO

A corda sempre estoura para o lado mais fraco, e se existe um lado fragilizado é o da absorção do conhecimento produzido pelas universidades brasileiras. É mais fácil acabar com um trabalho quando não se acredita na sua aplicabilidade, e ao contrário de áreas mais consolidadas como a da medicina, por exemplo, a educação física sofre nesse sentido. Desde a segunda metade do século passado a ciência vem discutindo novas formas de enxergar o futebol, com uma visão mais próxima das humanidades do que das biológicas porém, só na primeira década do novo milênio é que foi possível começar a observar esses conceitos postos em prática, por exemplo, com José Mourinho aplicando o pensar de Manuel Sérgio, pai da ciência da motricidade humana, em seus trabalhos e colecionando êxitos nesse período.

E se o conteúdo produzido pelo trabalho científico normalmente já demora para atingir a prática e demorou seus 40, 50 anos no futebol, aqui no Brasil esse processo sofre com mais duas barreiras. A primeira é a nossa autossuficiência como pentacampeões, nunca foi preciso mudar, pelo menos foi assim até 2014, logo para que buscar novas maneiras de fazer? Para que se reavaliar continuamente? Em segundo lugar, aqui ou se é prático ou teórico, por deficiências dos dois extremos campo e universidade pouco se conversam, o resultado é que a organização do futebol, do esporte e por consequência das bases faz pouco sentido. Calendários sem padrão, cada estado com sua própria divisão etária, crianças de 11 anos jogando em campos com dimensões profissionais são alguns exemplos simples da falta de reflexão presente no processo.

O ano de 2015, foi de grande aprendizado para o IB, somos completamente diferentes daquilo que éramos em janeiro e isso é ótimo, no futebol e na vida precisamos estar em constante evolução pois os desafios sempre mudam. As macro estruturas do esporte estão sofrendo grandes transformações e esperamos contribuir para que essas mudanças sejam para melhor, esperamos que o IB ajude a fomentar a discussão sobre um esporte mais humano, especialmente em sua base e que façamos desse debate instigante o suficiente para que cada vez mais pessoas se envolvam com ele.

São nossos votos para 2016!

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