Livro escancara as entranhas do mercado internacional de jovens jogadores

Juan Pablo Meneses, chileno, jornalista e escritor e autor do livro “niños futbolistas” — Dente de leite S.A. em português. A obra é a segunda da trilogia, lançada em 2013, na qual o autor se utiliza da estratégia narrativa de “comprar” o protagonista para se infiltrar no ambiente a ser investigado e assim ter um ângulo narrativo único para mostrar ao leitor detalhes pouco conhecidos do mundo no qual imerge.

Em um simpático bate-papo de quinze minutos o jornalista contou ao IB como o mercado internacional de crianças e jovens com potencial esportivo funciona na prática e suas consequências para os garotos que vão desde a desilusão de voltar para casa de mãos vazias até o abandono e exploração sexual em outros países.

Indústria de Base — No que consiste detalhadamente o “jornalismo cash” e como foi para você, eticamente como jornalista, “comprar uma criança” e de certa maneira mudar o seu destino se utilizando dessa técnica?

Juan Pablo Meneses — No “jornalismo cash” o que se propõe a fazer é comprar o protagonista e também o nome da trilogia onde no primeiro livro compro um animal que é “a negra”, uma vaca que adquiri quando tinha uma semana de idade e sigo toda sua vida. No segundo a busca é por um jovem futebolista que se possa vender para o futebol europeu que se passa por toda América Latina, e agora estou trabalhando na terceira parte. Estou convencido de que o consumo é uma ferramenta, que o comprar e vender pode ser uma estratégia literária para poder contar melhor como é um mercado por dentro e como nós como sociedade do consumo enfrentamos as realidades desses mercados.

Em relação ao livro “niños futebolistas” e os temas éticos, a verdade é que jovens jogadores se compram todos os dias. Os jornais comemoram quando um clube europeu compra um garoto latino-americano, consideram uma notícia boa, e minha ideia era investigar esse mercado, com essa ferramenta que descrevi mostrar todas as engrenagens dessa indústria e foi o que fiz.

IB — O que mais te marcou durante a produção do livro?

JPM — O que mais me chamou atenção foi o que tinha mais medo antes de começar e que não aconteceu, a reação negativa dos pais. Quando perguntava “por quanto me vende seu filho?” o que temia é que ficassem ofendidos e até que pudessem reagir com violência, mas o que acabou acontecendo foi o contrário e isso é muito forte, descobri que os pais estavam todos dispostos a me vender seus filhos. Eram muito simpáticos me convidavam para suas casas, me mostravam um álbum de fotos da criança como se fosse algum manual de instrução de um eletrodoméstico, me falavam com orgulho do negócio que se poderia fazer e a ambição que tinham de sair da pobreza através dele.

Capa da edição em português lançada em 2014

Outro fato é a consciência dos garotos de seu TRABALHO*, de que o futebol é um trabalho e não uma atividade esportiva, no youtube é fácil achar um vídeo do Maradona com cerca de dez anos de idade respondendo o que quer do futebol e ele responde “ser campeão do mundo”. Se fazemos essa pergunta hoje a resposta é “quero comprar um salão de beleza para minha mãe”, um outro me disse “dar um táxi para meu avô”, “mobiliar a casa”, em um caso mais extremo um garoto me disse que esperava poder comprar comida, estamos aqui falando de meninos com dez, onze anos.

IB — Isso mostra um perfil socioeconômico desse mercado, garotos de famílias menos pobres provavelmente enxergam o futebol de outro maneira…

JPM — Provavelmente sim, mas o mercado de jovens jogadores é um mercado de garotos pobres. Na América Latina a classe média prefere que seus filhos estudem, que vão para a universidade até como caminho para ter uma vida economicamente estável, já os milionários preferem comprar um clube do que ver seu filho como jogador. Então a maioria dos garotos vem mesmo das camadas menos favorecidas, em muitos casos miseráveis.

IB — Em relação aos profissionais dos clubes, qual a preocupação deles com o desenvolvimento e o futuro desses garotos?

JPM — Desde alguns anos atrás o “express” é o negócio da moda no futebol e sempre digo que o grande culpado disso é Leonel Messi, pois ele foi o primeiro jovem jogador que se transformou em um grande negócio, que se compra com poucos mil euros em um país pobre, em um bairro pobre, em uma cidade pobre, de uma família pobre e agora vale centenas de milhões de euros. Esse grande negócio despertou o interesse de treinadores, dirigentes, donos de clubes pequenos da América Latina e também dos grandes clubes europeus. Então essa ambição de encontrar um “novo Messi” envolve todos os componentes da cadeia do futebol e por isso estão todos fazendo parte dela.

É um negócio muito bom na teoria, o problema é que a maioria dos garotos não triunfam. A maioria não sucede nessa aventura que é tornar-se uma estrela, o que ocorre, e posso falar isso por ter percorrido diversos países e ter me integrado a essa indústria graças ao “jornalismo cash”, é que são muitos jovens futebolistas, a grande maioria, que não chegaram. É com esses que devemos nos preocupar.

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Não tanto com os que conseguem chegar, não tanto com o futuro Neymar, mas sim com aqueles que não triunfam. A maioria volta para casa com a frustração de ter um família que tinha a expectativa de mudar de vida através do seu talento e eles não puderam fazê-lo, outros tantos acabam não voltando ao país de origem ficando pela Europa terminando nas redes de prostituição ou tráfico de droga, sobre esses não se tem muitas notícias pois o que ficamos sabendo é dos finais felizes. Os outros tantos finais são esquecidos não só pelos agentes, pelos técnicos, às vezes pela família, mas também pela imprensa.

IB — Desde o lançamento do livro tem visto alguma evolução nesse quadro, alguém está tomando atitudes para melhorar as condições de vida desses garotos?

JPM — Fui convidado ao Congresso mundial da Fifpro, para dar uma palestra sobre o livro, que também foi traduzido para vários idiomas e em vários lugares me foi mencionado que essa publicação foi decisiva para que pela primeira vez se punisse o Barcelona e mais recentemente outro clubes também, Atlético e Real Madrid, e acontecerá com outros. O que esse livro escancara é que o próximo grande escândalo da FIFA não serão mais os subornos pelos direitos de transmissão televisiva ou pela sede de uma Copa do Mundo, o próximo grande escândalo da FIFA será o mundo descobrir que agora mesmo embaixo de nossos narizes sob esse futebol planetário se esconde um complexo maquinário de tráfico de menores.

IB — Consegue estimar quantos garotos se encontram envolvidos nesse mercado atualmente?

JPM — O que acontece é que esse é um negócio à margem da lei e como todo negócio com essa característica funciona fora dos limites da estatística, mas um “repasso” que fiz através dos relatos que colhi é que em geral menos de um por cento de todos os garotos que se comercializa chegam a triunfar, é um negócio do fracasso. A particularidade do futebol é que ele transforma qualquer coisa em futebol, ou seja, se levamos um garoto do Brasil, por exemplo, a trabalhar sete horas por dia em um campo de algodão na Europa todos dirão que é trabalho escravo, se o levamos para trabalhar por sete horas em um campo de futebol diremos que é o próximo Neymar. São milhares de garotos que tentam a sorte, mas é impossível passar uma cifra exata justamente por essa indústria não trabalhar dentro da legalidade.

*Maiúsculas por conta do IB

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*Publicado originalmente no Indústria de Base

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