O que a Copinha tem?

*Publicado originalmente no Indústria de Base

Com o Flamengo se sagrando campeão na manhã de ontem no estádio do Pacaembu, mais uma edição da Copa São Paulo de Futebol Júnior chegou ao fim, em nenhum outro momento do futebol brasileiro é possível observar tantos jogadores em tão pouco tempo, foram 112 equipes de diversas regiões do país divididas em 28 grupos. Níveis muito diferentes de organização, estrutura e profissionalização dos processos da base são evidenciados nas goleadas que normalmente acontecem nas fases iniciais do torneio, são centenas de garotos em situações distintas, alguns já com contratos milionários buscando seu espaço em clubes da elite do futebol nacional e internacional e outros tendo a oportunidade da vida para realizar o sonho e mudar a vida de amigos e familiares, várias Copinhas dentro da mesma competição.

Fora de campo uma das disputas mais intensas é a busca por novos talentos. Seja em qual nível e independente do interesse, identificar com precisão os jogadores com maior potencial é uma habilidade extremamente valorizada nesse ambiente único que é o da Copa São Paulo

Para nos apronfundarmos nessa discussão o Indústria de Base conversou com Sandro Orlandelli, observador técnico da seleção brasileira e referência do assunto no país, a serviço da seleção Sandro acompanhou a competição e nas próximas linhas revela alguns detalhes de seu trabalho além de discutir os rumos do futebol brasileiro

Indústria de Base — Além do grande número de jogos em um curto período de tempo a disparidade técnica entre as equipes da Copinha também é grande, como a realidade dessa competição impacta o trabalho do observador?

Sandro Orlandelli — Depende muito do nível que ele trabalha, para qual clube ou entidade e qual o mercado busca. Se é um clube de primeira linha européia por exemplo ele vai ter que ir nos clubes maiores aonde provavelmente terão os melhores potenciais, entidades menores já vão procurar em clubes que são totalmente desconhecidos porque teriam potenciais com custo dentro das condições orçamentárias do clube que o observador esteja trabalhando.

A Copinha é um torneio, que é o mais importante do Brasil na categoria, ele possibilita que você tenha em um tempo tão curto a chance de acompanhar uma quantidade considerável de jogos, então se você fizer um trabalho em uma Copa São Paulo conseguirá ter uma noção básica do mercado em uma faixa etária em que temos jogadores com condições de atuar em uma equipe profissional. Se você tem um conceito de análise para identificar potenciais e dar a chance de eles se adaptarem a uma equipe profissional sem que se eliminem estágios adaptativos você consegue jogadores que podem atuar no nível profissional diretamente. Vejo essa particularidade na Copa São Paulo, que é diferente de um campeonato estadual na minha opinião, mostrando realmente o momento em que o jogador está, acho interessante nesse sentido sendo essa a grande diferença entre ela e outros torneios.

LEIA MAIS — Buscando um lugar ao sol jogadores do São Raimundo-RR fazem bonito na Copinha

IB — Recentemente foi veiculado na imprensa a notícia de que o jogador francês Flamini investe em uma empresa de energia sustentável. Temos a impressão de que será muito difícil ver algum jogador brasileiro ligado a esse tipo de projeto, com essa consciência digamos assim mais global do mundo e da sociedade na qual está inserido. Por sua experiência no Arsenal é possível atribuir um pouco dessa impressão, caso verdadeira, à formação do jogador? Ela ajuda a desenvolver essa consciência?

Sandro — Não tenho nem dúvida disso. A educação é a base do sucesso, se o jogador não tem educação, não está aberto à ela, está um passo atrás. O Brasil, é ainda um país de terceiro mundo, nunca considerei o Brasil nem quando era a sétima economia do planeta como um país que estava na iminência de se tornar desenvolvido pois não é um país referência em educação, o Brasil é um país miserável nessa área. A chance de você ter um fracasso quando você não tem essa ferramenta fundamental é grande, com ela em uma situação de pressão, ofertas que mechem com o ego do jogador ele vai ter estabilidade emocional para lidar com isso. Tudo que atinge o lado emocional do jogador vai afetar o que acontece no gramado diretamente, então o que faz um jogador ter sucesso é o nível motivacional que ele tem.

Nos treinamentos, fora dos treinamentos, como ele vai conduzir a vida dele, quando você não tem educação você pensa que você vai lá entra no clube faz o treino e quando acaba não tem mais compromisso nenhum, volta para casa e faz o que quiser, só que a ferramenta de trabalho é o corpo humano então o jogador tem que se alimentar adequadamente não só dentro do clube como fora, dormir bem, ter uma conduta que preserve seu corpo e mentalmente se ocupar com coisas que vão agregar à ele. Hoje já está provado que um jogador mais esclarecido consegue render cognitivamente também em campo, além desses fatores, fisiológicos e comportamentais, então sem dúvida alguma sem educação fica muito mais difícil obter sucesso. A única forma de superar essa desvantagem é com a disciplina, então aí sim vemos alguns jogadores que conseguem ser disciplinados mas ela acaba tendo prazo de validade aí o detalhe é você aproveitar esse momento para trabalhar

IB — Como desenvolver essa autonomia aqui?

Sandro — Os clubes devem estabelecer normas e sua própria filosofia. Eu vejo que os clubes não tem uma filosofia definida e algumas situações os clubes se tornam reféns de um talento, o cara chega atrasado em um treino e não é punido. A primeira coisa é você realmente dar as penalidades para a indisciplina, é o ponto de partida. Uma vez que você coloque as normas e aplique as regras, é como uma tática de guerra, em alguns momentos você vai até perder os melhores soldados, pois eles vão querer testar os limites mas quando for realmente colocado em prática serão duas ou três vezes para não acontecer nunca mais. É simples, só que alguns clubes ainda não conseguem aplicar isso.

LEIA MAIS — Como desenvolver a autonomia no ambiente do futebol de base?

LEIA MAIS — Dinheiro não traz felicidade, também na base

IB — Quais os objetivos e metas do trabalho na seleção?

Sandro — Meu objetivo pessoal é dar a colaboração para o meu país pois estou convicto do que nós temos em termos de matéria-prima, conheço uma quantidade considerável de países fazendo futebol, estudando o esporte, analisando talentos e posso dizer que o Brasil é muito rico nesse sentido

Porém reconheço que o tempo passou e em algum momento nos adormecemos. Hoje a técnica consegue se sobressair ao talento, o talento não é suficiente na minha opinião. Meu objetivo é colaborar com isso, que a gente plante uma semente, que a gente consiga ajudar a desenvolver esses talentos e que chegue em um nível exigido no padrão mundial atualmente, temos todas as condições para isso mas precisamos trabalhar em equipe, não só os observadores da seleção, os treinadores da seleção, é um contexto que engloba todas as pessoas envolvidas no futebol, a imprensa, a parte de preparação física, prevenção de lesões, fisioterapia, parte médica, treinamento, todos os envolvidos. Acho que se a gente tentar pelo menos plantar essa semente quem sabe não consigamos colher esse resultado, esse é o meu sonho. Eu sei o valor que o Brasil tem em termos de representatividade no mundo do futebol e também sei que temos que ser humildes e reconhecer que temos que evoluir bastante .

Sendo mais prático nosso trabalho em si é estruturar uma sequência entre as seleções de base e a principal, o objetivo é dar o maior número de chances para talentos nas categorias de base, nas seleções de base que eles tenham a melhor condição de serem otimizados e preparados para um caminho na seleção principal. O objetivo é fazer o link entre jogadores que fazem carreira nas seleções de base até a principal e que eles possam continuar na equipe vencendo jogos, disputando competições culminando com um título mundial e pelo que vejo no país esse é um objetivo que tem plenas condições de se concretizar.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.