São Raimundo, no norte do Norte — IB na Copinha
Assim como o Fast no Amazonas, o São Raimundo é o atual campeão sub-20 estadual, a melhor equipe sub-20 de Roraima. O título foi conquistado no começo do mês, mas se o São Raimundo vai à São Paulo em janeiro não é pela conquista de 2015, e sim pela de 2014. O representante roraimense da Copinha é decidido dois anos antes do torneio ou seja, o São Raimundo já está garantido também na Copinha de 2017, a equipe não perde uma partida na categoria desde 2012.
O São Raimundo vem construindo ao lado do Náutico uma hegemonia local nos últimos anos, as duas equipes se alternam como campeão e vice desde 2012 no profissional. Hegemonia essa atribuída à venda da sede no centro de Boa Vista que viabilizou a compra de um terreno maior e a construção de um centro de treinamento próprio, enquanto outras equipes de Boa Vista sofrem para fechar as contas e conseguir um campo em bom estado para treinar, o São Raimundo pode agendar sua rotina de treinamentos sem depender de terceiros e ainda utilizar o espaço para promover eventos que ajudam o clube a sobreviver.
Sobreviver é muito diferente de crescer, fora do estado o São Raimundo enfrenta grandes dificuldades vem disputando série D e Copa do Brasil nos últimos anos, mas sonhar com algo diferente da mera participação nos torneios nacionais não é possível para o clube.

Aparelhos de musculação e troféus dividem espaço na nova sede do São Raimundo. Foto: Arthur Sales
Entra ano, sai ano, o presidente Sérgio Carvalho, policial civil que assumiu a direção do clube em 2011 torce para enfrentar um gigante na Copa do Brasil e “fazer o ano” com a renda do jogo ou conseguir uma boa transferência na Copinha “a esperança nossa é que um clube grande possa se interessar por um jogador nosso para que agente possa negociar e assim dar suporte para o profissional do ano que vem, pois é o profissional que nos garante o recurso financeiro melhor”, expõe o dirigente.
Em 2015, o adversário na Copa do Brasil foi o ASA, que nem precisou do segundo jogo para definir o confronto. Mesmo sem um adversário de grande apelo o São Raimundo embolsou cerca de R$ 180 mil pela participação no torneio, o que possibilitou o pagamento de algumas dívidas.
LEIA MAIS — O projeto de vida de nossos jovens jogadores

O treinamento do sub-20 acontece das 18 às 19. O horário permite aos jogadores estudar e trabalhar. Foto: Arthur Sales
Nada que garanta entretanto a ida do clube a São Paulo para a disputa da Copinha em janeiro, como explica Sérgio “aqui é muito longe de São Paulo, fronteira com a Venezuela, com a Guiana e só tem saída terrestre até Manaus, daqui só saem dois voos para São Paulo, que estão sempre lotados e caros”. O presidente acredita que caso a definição dos grupos acontecesse mais cedo, viabilizar a viagem seria mais fácil “a dificuldade é não saber com antecedência de dois ou três meses contra quem vamos jogar, para poder chamar o patrocinador, colocar sua marca na camisa tendo a certeza que vai aparecer contra Flamengo, Corinthians, que vai ser televisionado”, analisa.
O chaveamento da competição ainda não foi divulgado pela FPF e deve ser definido antes do final de novembro.
Esse ano o São Raimundo jogou em São José dos Campos, enfrentando o São Paulo na segunda rodada em um jogo marcado pela participação do meia Léo como goleiro desde o início da partida pois o único goleiro do elenco que viajou para a disputa do torneio havia sido expulso na primeira partida. Os roraimenses foram derrotados por 4 x 1, mas chegaram a empatar a partida já no segundo tempo, a maneira como o time mediu forças contra uma das grandes potências do futebol brasileiro foi vista como muito digna pela direção e por quem acompanha o futebol do estado.
ÚLTIMA CHANCE
Quem esteve presente no gramado do Martins Pereira contra o São Paulo e nos outros dois jogos dessa Copinha foi Kelvyn Roxsan, natural de Brasília e futuro pedagogo, o jogador que já passou três anos no Coritiba, vai para sua última copinha seu objetivo é “passar de fase e ir o mais longe possível”, conseguir chamar a atenção de algum grande clube também esta nos planos do jogador.
Caso o campo feche as portas de maneira definitiva, seja na Copinha ou mais para frente, Kelvyn tem na faculdade uma alternativa, além de não descartar continuar no futebol “jogo futebol desde os seis anos, se aparecesse uma oportunidade relacionada ao futebol eu poderia pensar, com certeza”, pondera.
PRIMEIRA VEZ
Enquanto Kelvyn vai para sua última Copinha, o companheiro Luan de Souza vai para sua primeira. Com 17 anos o jogador tem na bagagem três anos na Portuguesa e a convivência com a equipe profissional com a qual treinou ao longo de 2015 “Copinha é uma experiência diferente, tem mais visibilidade e estamos treinando com o profissional desde o começo do ano”, conta Luan. A aposta do São Raimundo para essa Copinha é a manutenção de uma base e a construção de uma equipe que treinou junto durante toda temporada.
Com três Copinhas pela frente, Luan ainda vê a vida fora dos gramados em um horizonte distante, perguntado sobre como imagina sua vida no futuro ele responde “posso estar em um time grande daqui uns cinco anos, mas minha mãe sempre fala que primeiro é o estudo. Penso em fazer Educação Física, mas o meu grande sonho é ser jogador”, tenta prever o jogador.
FUTEBOL EM RORAIMA

Tetracampeão estadual pelo Baré, Marco fez história no clube. Foto: Arthur Sales
O ex-jogador Marco Andrade do Nascimento, pernambucano que vive em Boa Vista desde o final da década de 80 quando iniciou uma vitoriosa carreira nos times da região afirma que o campeonato estadual de Roraima é o único do país que precisa colocar a palavra profissional no final do seu nome oficial para se afirmar como tal, talvez justamente por não ser. Em 2015 o campeonato começou no dia 28 de março e pouco mais de um mês depois terminava, no dia 9 de maio, com o título do Náutico. Marco é dono de uma escola de futebol, por onde passou o grande nome do futebol do estado, o meia Thiago Maia, atualmente no Santos.
Atualmente apenas um estádio, o Ribeirão, recebe os jogos do profissional, da base e do futebol amador, que dura mais do que o campeonato profissional e paga melhor. O principal estádio da cidade, o Flamarion Vasconcelos mais conhecido como Canarinho, está em reforma desde 2012 a intenção inicial é que ele fosse usado como base para aclimatação das seleções na Copa do Mundo, mas a reforma não foi finalizada a tempo e o Canarinho segue sem ser utilizado


Um dos clubes mais tradicionais do estado, o Baré ilustra os problemas do futebol do estado. O presidente Luciano Araújo é atualmente aposentado, se dedica apenas ao clube e argumenta “para fazer futebol em Roraima tem que ter muito amor”, os dois meses de futebol profissional são insuficientes para viabilizar a atividade e o que sobra é o amadorismo citado pelo dirigente, suficiente para fazer ano a ano a bola continuar a rolar. Com proporções diferentes, as dificuldades e deficiências do esporte roraimense não se diferenciam na essência das que se apresentam no resto do país.



