Ébrio

-Conto-

(…)

- Ela o ama?

- Não sei, talvez…

- Por que a incerteza?

- Não me é claro, apesar dos gestos.

- Não seriam demonstrações de amor?

- Creio que não, mas de afeto apenas.

- O afeto não está no amor?

(…)

- Acho que ela apenas gosta de mim, e isso pode findar algum dia. Não faço o suficiente para ela me amar, não sei. Talvez eu quem esteja querendo demais… Ela pode estar me amando enquanto não percebo. Penso em um amor que é para além do real limite do próprio amor… Se for isso, eu não conheço de fato o amor.

- Então achas que há limite no amor?

(…)

- Você acha que podemos chegar a certo ponto no amor… algo que está em sua mente. Mas pensas ao mesmo tempo, tem a impressão, de que tal ponto não possa existir?

- Sim. — Responde pensativo — Mas é isso mesmo… É fantasia, irreal, romantismo meu. Acho que vivo o seu amor, o dela, sem ao menos perceber. Por isso que não sei o que é o amor, o que é ele na realidade em si, na própria vivência. Pois achava que ele era algo… Bah! Fantasia… Meu problema é que idealizei demais. Perco tempo e proveito buscando algo impossível no real amor enquanto vivo cegamente o amor dela. Devo aproveitá-lo assim como o é, cada segundo.

- Mas não acho que é isso. Se pensas que o amor é dessa forma, algo para além do suposto “amor real”, então é porque você age da forma que convém a esse amor; faz por onde que ele se manifeste externamente, direcionado a ela, e, para isso, manifesta-se anteriormente em você; ele então existe. É o contrario! — Rir — Você no fundo acha que é ela quem não percebe tamanho amor que demonstras.

- Não sei… Não é isso.

Ambos falavam gritando em meio a dezenas de conversas paralelas que competiam em um mesmo espaço na tentativa de superá-las juntamente a música que tocava ainda mais alto. Ao passo em que, dentro da casa, Ivan, vítima dos sentimentos mais belos e profundos que possam atingir a um indivíduo, imergia dentro de si, ia sentindo-se incomodado com todo aquele barulho; um amontoado de falas, gargalhadas, gritos; de sons de trombetas, bateria, saxofone, oriundos da grande radiola da sala de estar. Tinha a impressão de que estava passando a escutar tudo mais alto. Nada mais a fazer do que sair da perturbação que o impedia de estar consigo mesmo, privativamente. Aos outros, já dedicara suficiente tempo.

- Vou ali fora. — Ivan levanta afirmando a seu parceiro de conversa. Estava apertado em um sofá, onde estavam ele, seu amigo, e mais duas pessoas desconhecidas conversando, também em voz alta.

Instante depois, ao sair, senta-se abaixo de uma árvore, na rua. Ouve o barulho daqueles que falam incansavelmente na pequena casa à suas costas, de onde estivera. A porta está semi-aberta, o som do jazz que toca, lá nos fundos, ecoa em seus ouvidos e por quase toda a vizinhança. Momento antes, lá estava ele com seus amigos, a festejar o aniversário de alguém a qual mal conhecia.

Ali acomodado na calçada, fita seu olhar à luz de um dos postes que iluminam aquela noite. Observa os pequenos mosquitos que nela voam rapidamente em sua volta, pega sua cerveja descansada ao seu lado para tomar um gole e, nesse instante, a garrafa suada desliza de suas mãos e cai em suas pernas molhando-as. Nada sente. Apenas encara a situação como um acaso; nada a ser feito, nada para se aborrecer. Sacode um pouco a calça cinza, que pegara emprestada de seu tio mais velho, a fim de tirar o excesso de cerveja em sua perna e põe a garrafa ao seu lado novamente. Foi tudo tão rápido em sua percepção que, ao pensar nisso, sente-se engraçado e esbanja um grande sorriso no rosto. Logo, volta novamente seu olhar à luz daquele poste, ainda rindo; respira fundo e percebe que não está mais sóbrio.

Passam-se cinco minutos. Apenas observando, com mente vazia, o que paira em sua frente; a rua de calçamento, os fuscas estacionados, as árvores podadas da calçada, as casinhas bem juntas… Ele, por vez, não aguenta mais o brilhar. A intensidade das luzes passa a causar-lhe um incômodo. Tudo está mais sensível, sua audição, e, por hora, sua visão. Deseja ir a um lugar mais escuro e então lembra do estacionamento; agora tem desejo de observar o céu. Lá é recluso e aberto, um terreno baldio não cercado ao qual as pessoas passaram a utilizá-lo para pôr seus carros. Levanta-se e caminha não por muito tempo. Ao chegar, senta abaixo de uma árvore assim como fez na rua. Lamenta sobre o que vê. Não há estrelas no céu, e ele não parece tão escuro, profundo. É alaranjado, esmaecido pelas luzes da cidade. Neste momento, na casa em que estava, começa a tocar uma suave música de João Gilberto, um som familiar aos seus ouvidos, mas incompreensível àquela distância. Novas sensações surgem em si, um clima de tranquilidade é construído ao ouvir em um baixo volume os pequenos ecos da música; sob a árvore, sob o céu, sente-se bem ao estar ali sentado na areia e cascalho ao chão. Agora, atenta ao vento que sopra por aquele terreno aberto, o tocar em seu corpo daquela brisa semi-fria; vê as árvores balançando em sua simplicidade e logo ele põe-se a pensar…

- Carminha deve estar dormindo à uma hora dessas… — Lamenta falando em voz baixa. — Amanhã irei lá. E se ela estiver de pé? Posso ir lá agora e jogar uma pedrinha em sua janela… — “Mas não queira acordá-la, de fato, deve estar dormindo.” Pensa — Que horas são? — (…) — Onze e quarenta… — Ivan olha para a casa. Há um homem em frente a ela apoiado na árvore, provavelmente tonto por álcool. Volta sua visão ao céu:

- Maldito céu. Maldito homem e suas luzes. Há de se ter luz onde deve-se haver escuridão? Há de se mexer com o ciclo da natureza pondo luz à noite? Quando criança, era capaz de observar as estrelas e nelas buscar refúgio para longe das minhas aflições! Agora, não posso enxergar a mais natural luz, irmã da noite, pelo impedimento da luz humana, artificial. Que engraçado! — Rir — Mas trágico, uma contradição! E onde está Carminha, diga-se de passagem? Pode estar mais outro enquanto penso que estás adormecida. Ah se estivesse aqui comigo… Diria: “Tu não sabes o quão ingênuo sou perante ti. Mas guia-me… Guia-me em teu afeto. Guia-me sob o teu mistério e deixa-me explorar-te. Conduza-me à tua satisfação e leva-me a teu coração, pois tu já estás no meu…”

- Ei… Ei! — Alguém fala interrompendo-o.

Ivan se assusta voltando seu olhar para trás.

- O que está fazendo aqui, homem? — Com um sorriso no rosto, indaga seu amigo, a quem conversara na casa.

- O que foi? Veja, mal está se equilibrando. Volte à casa e não beba mais. — Fala Ivan com tom de desprezo. Como quem tivera sido impedido de um beijo eminente, apaixonado; de namorar profundamente a alguém querida.

- Não, eu vim pegar o beco. Chega. A aniversariante já está é deitada. Tenho pena dela amanhã. Sua casa está ao léu. Sabe-se lá o que o pessoal aprontará.

- Ninguém vai roubar nada. Devem ser todos amigos dela.

- Ah! Sabe-se lá! Não falo só disso.

- Que seja; vai dirigir assim?

- Sim, pegar meu Chevette. Boa noite… E não dorme aí. — Rir.

“Vai acabar é morrendo num acidente.” Pensa, e não mais.

(…)

Após perdê-lo de vista, preocupa-se: “De fato, sofrerá um acidente.”

O vento neste momento já lhe passa pelo corpo de forma despercebida. Já não ouve mais a música, apesar de ainda está tocando. Ivan tem a impressão de que algo lhe falta, como um vazio no peito, alguma angústia da qual não consegue identificar a sua causa. Abstinência? Isto porque fora cessado o clima tranquilo, ou melhor, os pensamentos dedicados à Carminha? Foram-se aqueles de amor. Trégua induzida.