
Interrompido
-Conto-
Dezembro, 1710. Olinda, em algum latifúndio.
(…)
- Está lá no galpão, se recuperando dos açoites. Melhor não ir.
- Disse para onde mandou seu filho?
- Não.
- Então por que diabos está no galpão se ainda não falaste nada?! Maravilha, morrerá caso não fale! Aquela peste de menino não pode ficar solto por aí! Sabes do perigo? Ele vai contar onde o deixou! Ora se não…
- Não, não vai. Se até agora não contou, então é porque presa pelo seu filho e não contará, está claro. Ele dará a vida pelo seu filho, mas não contará. E se continuarmos, perderemos mais um escravo. Não temos mais finanças para outro, principalmente para um como ele. Esqueça isso, o crioulinho não sobreviverá nessas matas aí afora. Ele nasceu aqui, daqui nunca saiu, não conhece nada dos arredores.
- Veremos! Um dia ele volta… Olhe o que estou lhe dizendo. Que deus haja para pôr alguma causalidade que me tire fora daqui neste dia!
- Podes me deixar aqui em paz, Antonino?! Não posso ter um momento a sós para contemplar essa bela vista que nos passa despercebida? Caso contrário, acalma-te, sente-se aqui comigo, puxa teu fumo e esperemos minha esposa… Mas esqueça Tuban!
- Não o mato porque Vossa Senhoria não quer, mas verei se ainda consigo algo dele em relação ao seu filho. Isso não vai ficar assim…
- Não já bastam as cem chibatadas neste sol de meio dia, Antonino?! Misericórdia, ele ficará sem comer e beber por todo o dia! Quer mais que isso? Basta, ou ele morrerá! Vá buscar o que fazer e não mais entre hoje naquele galpão. Já está me aborrecendo essa sua sanguinolência!
- Perdão, patrão. — Com amargura no peito, o capitão do mato Antonino, negro alforriado e convertido, sai.
Péricles, sentado em sua cadeira de balanço na varanda de sua casa, volta a observar a paisagem que descansa em sua frente. Vê-se um comprido caminho de terra batida que se dirige até a entrada do engenho e finda em um grande portão de ferro, moldado em Portugal, cujo Péricles havia encomendado. O movimento ali, já fora mais intenso. Os fundos financeiros igualmente beiravam a estagnação. Era a maior das preocupações dele e de todos os outros homens e suas mulheres dependentes. O menino solto, não era nada em vista à perda econômica. Ora, com fundos, o pai já teria morrido açoitado e reposto, assim como o seu filho, por dois fortes negros e mais dez, se quisesse. O valor vem, surge; aliás, ressurge, em falta e perdas. Foram-se os tempos dali.
Para distrair a cabeça do que lhe preocupa, tenta lembrar dos bons momentos que passaste nessa imensa propriedade herdada de seu pai. Dos devaneios da época de infância, vai mais adiante no tempo e então lembra-se de Isaías, grande companheiro seu que morrera de tifo há três anos. Péricles costumava ir à sua casa para caminharem, como costumeiramente faziam, pelos campos de algodão aos quais Isaías plantava. Não era um grande latifúndio, sua produção atendia apenas ao mercado interno. Por lá eles caminhavam por uma hora. Isaías sempre aproveitava para acender seu cachimbo, pois sua esposa reclamava quando o fazia em casa e, após a caminhada pelo campo, iam tomar café ao fim da tarde e continuar a conversa; agora, compartilhada com toda a família.
Certo dia, em uma das visitas à casa de Isaías, Péricles presenciou o que hoje lhe deixa desconfortável ao lembrar. Fora justamente num dia de sábado. Ele costumava fazer as visitas nas tardes. Nesse dia, fora de manhã. Em certo momento, ao caminharem para sentir o leve ar daquela manhã de sábado, Isaías chama-o para ver algo que ocorrera em sua propriedade. “Um grande ato da materialização da justiça”, como disse entusiasmado a Péricles. Lá se encontrava, em estado grave de saúde pelas feridas abertas e insolação, um homem negro amarrado de busto para fora em um enorme tronco fincado na terra. Estava alí por três dias, disse Isaías a Péricles, e que de lá só sairia o corpo sem alma, continuou. “Maldita manhã de sábado, eu tinha que ter ido de manhã, quebrar com o acostumado”. Daí em diante Péricles nunca mais quis ver mal tratos com escravos, apesar de não deixar de dá ordens a esse fim.
Passam-se mais alguns minutos de recordação. Péricles ainda continua esperando ansiosamente por sua esposa que está por vir de Recife, da casa de sua mãe adoentada.
- Convenhamos de que ela possa chegar com a notícia do falecimento de dona Alva… — Supõe falando em voz baixa. — Pobrezinha, já viveu setenta anos… Deus a abençoe nessa má hora.
Em seguida, fita seu olhar àquele imenso portão ao longe. Vê uma nuvem de poeira que sobe por lá e, logo em seguida, surge um cavalo galopando rapidamente em direção à grande casa. Não uma carruagem, para o lamento de Péricles, mas um homem montado e fardado que cada vez mais se aproxima da varanda:
- Desculpe-me interromper… — Fala o homem gritando lá debaixo, de onde se avista a varanda — Gostaria de falar com o Sr. Péricles Austino, ele se encontra?
- É com ele mesmo que estais a falar. O que desejas?
- Senhor, deixe-me informá-lo… Sua esposa não mais virá hoje. Ela se encontra internada no hospital de Recife, afligida por um infortúnio golpe de cavalo.
Péricles sente um calor a subir interiormente pelo seu tórax que, por fim, atinge a faringe causando-lhe um incomodo e engasgo.
- O que…rrr… o que está dizendo, homem?
- A irmã dela, Lucéia, pediu-me para lhe informar para que fosse lá o mais rapidamente possível, pois sua esposa está gravemente ferida, imóvel. Desculpe, mas foi tudo dito na pressa, não tenho explicações claras. — Gagueja o homem soando, tendo a impressão de que iria ser alvo de todo um escárnio, ao perceber a mudança repentina da expressão de Péricles que, por hora, está tensionada, apática.
- Como um cavalo a pegou em cheio? Impossível. Ela é louca por não se atentares à rua? Isso é um engano… Aliás, obra de um puto mascate! Que raça! Que raça! Praga que nos inferniza! Como pode isso acontecer com minha querida esposa?! Quer dizer que ela está imóvel em uma cama? Blasfêmia!
- É verdade… Lucéia clama pelo senhor para que vá imediatamente.
Eram dez da manhã. Péricles levanta-se da cadeira de balanço atordoado e a suar frio. Como, em um instante, um momento de bom prazer e contemplação pode transformar-se de tal maneira a findar tais sensações? Em sua cabeça, neste momento, só há confusão. Tudo o que sentira de bom, pensara, nem sequer existe mais em seu corpo. Péricles, repentinamente entra em profunda agonia. Mira seu olhar ao chão e tenta pensar em algo.
(…)
- Antonino?! Antonino! — Grita.
- Sim, patrão… O que houve? — Fala mais ao longe, debaixo da varanda, ao chegar correndo.
- Dá-me teu bacamarte! — Ordena descendo rapidamente para onde o empregado estava.
Antonino mal retira do ombro a alça que segura a arma, pois, em um movimento brusco, Péricles a toma das suas mãos e dirige-se, em passos largos, ao galpão. Antonino o segue sem compreender a situação assim como o fatigado mensageiro.
- O que houve senhor? — Indaga mais uma vez enquanto caminham.
- Cala-te! Malditos mascates! Que Recife beire ao inferno! Caia em um poço profundo onde nunca mais torne a ser o que é! Tramaram contra minha esposa! Tramaram contra mim, à minha família!
De dentro do galpão, ouvem um tremendo estrondo, o bater das portas que em um forte empurrão Péricles abriu.
- Onde…rr…está Tuban?! — Engasgando-se, Péricles grita com as escravas que lá se encontravam limpando em bacias de metal panos ensanguentados.
Ambas, caladas e apavoradas pela expressão nunca antes vista de atordoamento de seu patrão, apontam na direção que Tuban estava, deitado de bruços, expondo suas costas à carne viva.
- Está descansando, an? Terás o que merece!
Antonino, por detrás, observa toda a cena. Apesar de estranhar a atitude de seu patrão, e seu tremendo estresse, sorri levemente ao deduzir sobre o destino do escravo.
- Antonino! Traga-o até aqui! — Ordena balbuciando.
Posto à sua frente, apavorado e olhando ao chão, Tuban fica de pé. Tamanho temor toma posse de seu corpo, impedindo-o até mesmo de gritar ao sentir as feridas que ardiam em suas costas com todo aquele movimento.
- Vira-o de costas!
E então, com violência, Antonino faz o ordenado, provocando um enorme gemido de dor em Tuban. Logo em seguida soca sua boca para que cale. O golpe fora tão forte que o desequilibrou, fazendo-o cuspir sangue. Ergue-se novamente.
- Está carregada?
- Sim, meu senhor.
- Vai tomar um tiro… Na nuca… E pode ficar aí! Segurando ele! — Balbucia empalidecido, dirigindo-se a Antonino — Não irei lhe acertar. Confia não?
Ergue com dificuldade a arma, mirando no dito local em Tuban. Péricles, molhado ao suor, para. Sente seus braços mais pesados, assim como suas pernas. Sua visão escurece e, de repente, uma fina pontada surge na região do seu peito. A dor é tamanha que deixa-o ainda mais estático. Tivera a impressão de que um dos escravos havia metido um longo alfinete nas suas costas, atravessando o corpo de tal forma a atingir o coração. Mas ninguém estava à sua traseira. Perplexos, estavam ali a sua frente as duas escravas, Tuban e Antonino, ambos observando confusos a situação que Péricles se encontrava.
Ainda de pé, veem sua expressão de ódio, com sobrolhos franzidos, lentamente relaxando… Sua boca entorta e abre, permitindo que caísse saliva pelo canto; os olhos tornam a mirar acima das pálpebras, em alguns instantes cai bruscamente ao chão e lá permanece, com olhos semiabertos… A pesada arma juntamente cai, disparando, num tiro certeiro, no pé de Antonino empurrando-o fortemente para trás e fazendo todo o corpo cair, ao qual, em uma ação de reflexo, apoia-se aos ombros ensanguentados de Tuban. Vê-se um imenso buraco tingido de sangue pela sua bota. Ambos explodem em dor.
Ouvem de fora os imensos gritos de dor… Voam assustados os pássaros que descansavam nas árvores próximas.