Animais na arte — como a relação entre humanos e bichos se manifesta na produção contemporânea
por Marcela Rossiter, curadora de conteúdo da plataforma Artikin
O livro "Por que olhar para os animais", de John Berger, nos ajuda a refletir sobre as relações construídas entre humanos e bichos na arte contemporânea. Conheça suas principais ideias e alguns artistas brasileiros que se conectam com elas.
Nós sempre olhamos para os animais. Seja através de uma perspectiva espiritual, de dominação, de admiração ou repulsa, eles constantemente foram e são representados na literatura, na religião… E na arte contemporânea não é diferente.
Então por que questionar essas relações dentro das artes é frequentemente considerado polêmico ou chocante? Existem limites com relação ao uso desses seres vivos em obras de arte? Se positivo, quais seriam?

O ser humano é um espelho do animal?
“O que distinguia os humanos dos animais era a capacidade dos primeiros para o pensamento simbólico, capacidade a qual era indiferenciável do próprio desenvolvimento da linguagem — em que palavras não são meros significantes, mas também signos, algo além delas mesmas. Porém, os símbolos iniciais foram os animais. Ou seja, o que distingue os humanos dos animais, nasceu de seu próprio relacionamento.”
John Berger, trecho de Porque olhar para os animais?
Aristóteles, em “ História dos Animais”, diz que as capacidades dos bichos podem ser comparadas às dos humanos, em qualidade, porém essas se diferenciam em quantidade. Ou seja, um animal pode ser corajoso ou tímido, mas em um nível muito menor do que um homem ou mulher poderia ser.

Certo? Berger aponta que esse argumento pode ser facilmente derrubado. Essa seria uma visão um tanto quanto antropomórfica das coisas. Porém, antropomorfismo, até o século XIX, era o resíduo das metáforas antes comumente utilizadas e que aproximavam esses dois seres. Na história da literatura, podemos encontrar diversos exemplos dessa forma de conceber conexões humanas e não-humanas. Agora, com o desaparecimento crescente dos animais nas nossas vidas urbanas, nos tornamos, segundo o autor, solitários. E o antropomorfismo já não nos é mais tão palatável.
A valorização da alma em detrimento do corpo
Há outra perspectiva sobre essa relação: Descartes e o dualismo. Em sua teoria, “alma” e “corpo” podem ser analisadas separadamente. O animal configura o ideal de “corpo” (que é só físico, um tanto quanto mecânico) e “alma” pertence apenas ao humano. Com o surgimento da indústria, as pessoas, assim como os animais, são vistas como máquinas. Nas sociedades pós industriais, esses seres são tratados como matéria crua, a ser processada e consumida.

Na obra de Raquel Nava, essa temática surge na forma de instalação e fotografia. Linguiças, presuntos, e até o pigmento carmim (que é derivado de um inseto e pode ser encontrado tanto em alimentos, quanto cosméticos), em contraste com as ossadas de animais, nos atenta para essas relações de poder e consumo — escondidas pelos metais que as trituram.
Um misto de afeto e desvalorização
A equação companheiros+filhos+cachorro/gato/pássaro/peixe também é e foi fundamental para mais uma transformação na relação entre seres humanos e animais. Afinal, essas mudanças ocorrem também, no âmbito privado. Como afirma Berger, dessa vez, o animal irá cumprir outro papel: o de completar esse humano. Na interação entre dono e pet de estimação, o primeiro adquire para si uma nova identidade: "com meu pet, sou o que não sou para mais ninguém". Enquanto o segundo, perde sua autonomia e singularidade.

Românticas canalhas 24, 2014
Óleo sobre tela
Assim, esses animais estão em um constante trânsito de significados e valores: como o animal sagrado e ritualístico, como o espelho do homem, como o próprio homem, como o outro, etc, etc, etc — um ciclo infinito de transformações.
Na obra de Dalton Paula, que se referencia às religiões de matriz africana em muitos de seus trabalhos, o jabuti pode representar questões como ancestralidade, cura e processos ritualísticos de purificação. Já na imagem do bode, o artista brinca com o imaginário popular sobre o animal, visto frequentemente como “demoníaco”.


Na obra de Fábio Magalhães, destaca-se o processo de criação das imagens ↓
“Para chegar a essas imagens, o artista cria em seu ateliê, com vísceras de animais, as cenas que vemos, fotografando-as, para finalmente transportá-las para a tela. Nesse processo, o retrato fica mais evidente. Mas também evidencia-se a obstinação de um olhar que busca a precisão, os múltiplos tons de vermelhos, as dobras da carne que se fundem em massa e o volume do ar. Um olho que não cansa de mirar o avesso de sua própria imagem.” — Gabriela Motta

O medo de ser animal

O desconforto generalizado (vide caso Queer Museu e a obra de Varejão) que surge quando se trata da relação entre humanos e animais — e suas implicações nas formas como nós mesmos nos enxergamos — pode ser fruto de incertezas: somos diferentes ou não? Sempre tivemos e ainda temos uma relação dúbia com esses seres. E arte é mais uma representação dessa questão.
Afinal, teríamos medo de sê-los?



As obras de Raquel Nava e Dalton Paula podem ser vistas atualmente em Brasília, nas exposições Transborda Brasília 2018, na Caixa Cultural, e Ex Africa, no CCBB.
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