Residências artísticas do Brooklyn abrem as portas para artistas brasileiros

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May 8 · 6 min read

Chantal Feitosa

Durante as temporadas de primavera e verão no hemisfério norte, espaços independentes e autogeridos apresentam trabalhos e promovem intercâmbios de jovens artistas do Brasil.

É sabido que o Brooklyn, mega distrito de Nova York com cerca de 2.6 milhões de habitantes, mantém a cena mais cool e experimental da cidade em comparação com a atmosfera institucional que domina a ilha de Manhattan; não só pelas coleções reconhecidas de seus museus abarrotados de turistas do mundo todo, como também pelo sucesso das galerias privadas que mantém relações comerciais em stands monumentais nas feiras de arte e casas de leilões quase que diariamente.

Os reflexos diretos da globalização no sistema da arte não poderiam deixar de atingir seus produtores, os artistas millennials — nascidos entre o início dos anos 1980 e final dos anos 1990 — enfrentam, mesmo que indiretamente, situações que comentam fronteiras e limites em suas práticas artísticas, seja por conta da hibridização de suas linguagens ou pela escolha de pesquisas multidisciplinares.

No Brasil isso não é diferente e o caráter do artista migrante e administrador da própria carreira, divulgando notícias de sua agenda principalmente através das mídias sociais, vem ganhando mais e mais destaque. Este fluxo de informação pelas redes facilita o trânsito entre artistas, curadores e galeristas internacionais, proporcionando acessibilidade a outras listas de contatos para além dos horizontes da comunidade artística ao seu redor; fator imprescindível do mercado global no qual vivemos. Mas essa troca não pode acontecer apenas no espaço virtual, ela precisa se dar através de conversas, experiências em outras geografias e ateliês. Em vista disso, os programas de residência artística são saídas espertas para reunir, em um curto período de tempo, toda essa movimentação social inerente à produção em arte, somada ao aprofundamento nas pesquisas e práticas poéticas do artista.

Acomodações e programas de residências artísticas estão espalhados em diversos lugares, especialmente em Nova York, mas três iniciativas em diferentes bairros do Brooklyn chamaram atenção por conta da preocupação em construir intercâmbios saudáveis entre artistas que detém laços com o Brasil de alguma maneira. Um sinal positivo e animador de que a seleção de portfólios, apesar do processo criterioso, está cada vez mais internacional e diversa.

No espaço multifuncional da Residency Unlimited (RU), que elabora programas para artistas e curadores, são preparados projetos customizados de acordo com os interesses de cada residente. As artistas Chantal Feitosa e Pauline Batista, baseadas no Queens e Londres respectivamente, estão passando por um período de três meses no espaço e já integram a primeira edição da Contemporary and Digital Art Fair (CADAF), que ocorreu entre 3 e 5 cinco de maio, com programação cheia de atividades relacionadas à arte multimédia. Pauline Batista que obteve um mestrado em artes na Goldsmiths, em Londres, acredita no compartilhamento e na brincadeira como prática de produção e tem pesquisado as diferenças entre conhecimento x informação através da imagem fotográfica. A artista que pensa seus trabalhos a partir de teorias científicas e filosóficas acredita que o programa de residência viabiliza uma imersão ao mesmo tempo em que coloca o artista em contato com outros repertórios. Já Chantal, que cresceu entre o Brasil e Nova York estudou na Rhode Island School of Design (RISD), e trabalha na intercessão do filme e da performance abordando questões de raça, gênero e identidade. Ao ser perguntada sobre o que tem feito na RU ela conta que o mais interessante é a oportunidade de diálogo com os pares e a possibilidade de contar sobre seu trabalho para outras públicos, o que segundo a artista ainda é uma lacuna nas escolas de arte.

Chantal Feitosa. Machine Learning Bias, 2018. 7 minutos. Cortesia da artista.

Localizado no bairro Bushwick está o estúdio do AnnexB, fundado em 2016, por Larissa Ferreira e atual diretora executiva do projeto, o programa tem como premissa receber apenas artistas brasileiros, naturalizados ou que tem alguma ligação com o país. Larissa conta que o AnnexB está longe de ser uma empreitada nacionalista e também não está preocupado em definir o que é arte brasileira, pelo contrário, o interesse do AnnexB enquanto instituição é alargar conceitos, indicando a pluralidade de discursos e narrativas criados dentro e fora do território do país. Além da experiência adquirida em outros programas de residência, Larissa conta na equipe com a visão curatorial da diretora criativa Tatiane Schilaro. E afirma que apesar da estrutura organizada é necessário muito planejamento para manter a única iniciativa como essa no mundo.

Lucas Simões. Corpo de prova corpo de prova #35, 2019, papel, concreto e folha de ouro. Cortesia do artista e AnnexB.

Atual residente, o artista Lucas Simões apresenta a exposição individual “Awaiting Masses”, na PATRON Projects New York, onde reuniu o resultado do trabalho produzido durante o mês de experiência no AnnexB. Simões, que produz a partir de seus estudos em design e arquitetura, chegou a cidade sem um projeto fechado, apenas com uma vaga ideia do que pretendia executar e se deixou contaminar pelas caçambas com material de demolição, introduzindo novos materiais e elementos em sua prática. A agenda para 2019 já está completa e a próxima artista a desembarcar no prédio da BX Space to Create e ocupar o ateliê é Regina Parra, que atualmente exibe a instalação em luz neon “Chance”, na Pinacoteca de São Paulo. Recentemente o programa de residência do AnnexB ganhou atenção ao lançar convocatória em parceria com a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, do Rio de Janeiro. A chamada que se direcionava aos alunos e ex-alunos da EAV, recebeu 95 inscrições e cobrirá os custos do selecionado Rafael Bqueer, com uma bolsa de dois meses para residir e produzir na cidade.

Lucas Simões. Corpo de prova #35, 2019, papel, concreto e folha de ouro, detalhe. Cortesia do artista e AnnexB.

Também com endereço no Bushwick está o The Border Project Space, sob gestão do artista-curador Jamie Martinez. O espaço que funciona em um prédio projetado para a comunidade artística, se preocupa em apresentar apenas artistas imigrantes. Nas palavras do idealizador, o nome e o programa de exposições na The Border são uma resposta à comunidade artística em meio ao cenário político e polarizado que respinga no universo das artes. Durante o último mês de março a artista Anna Costa e Silva apresentou o trabalho “The filling glass”, na exposição coletiva “Verge” com artistas da França, Peru e Paquistão. Indicada ao Prêmio Marcantônio Vilaça deste ano, a artista encerrou temporada de residência na Pivô Arte e Pesquisa, em São Paulo, e foi apresentada a Jamie por outro curador residente em Nova York.

Anna Costa e Silva. Sopro, 2018. Fotografia.Cortesia da artista.

Ainda, ingressar em um programa de residência é uma maneira de desviar da crise que assola o país, em que a esfera artística tem sido abertamente afetada com cortes de verbas e sucateamento nos diferentes setores culturais. Um sintoma deste problema é a escassez de chamadas públicas com incentivos para montagens de exposições em artes visuais. Em outras palavras, as trocas de experiências fomentadas pelos programas de residência permitem ao artista ampliações de repertório, e contando com outras perspectivas de mundo podem contribuir para um terreno mais diverso e igualitário no campo da arte.


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Artikin é um coletivo de curadoria, conteúdo e experiência em arte — www.artik.in

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