HU

(rascunho gravado no meu Google Drive desde fevereiro de 2012)

A novela da ala sul do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho começou há mais de 60 anos e deveria ter acabado em 19 de dezembro de 2010. Mas a triste e ridícula história ganhou uns episódios a mais que, ainda que não sejam polêmicos, mostram bem como funcionam as coisas na UFRJ.

O HU começou a ser construído em setembro de 1950, quando o reitor da então Universidade do Brasil era Pedro Calmon. Foi o primeiro prédio da Ilha do Fundão, com 10 andares, 1.800 leitos e 220.000m² de área. A obra foi andando no ritmo lento da liberação de recursos, até que em 1955 foi totalmente paralisada.

Doze anos depois, depois de iniciado um movimento dos estudantes da Faculdade de Medicina pela retomada das obras, o então reitor Moniz de Aragão decidiu criar uma comissão para rever o projeto. Em 1970 essa comissão resolveu que o hospital ocuparia apenas metade da área original. Em 1971 as obras recomeçaram. Em 1972 o ritmo começou a diminuir. E parou de novo.

Em 1973, logo depois de tomar posse, o reitor Hélio Fraga reorganizou a comissão, que passou a ser presidida por Clementino Fraga Filho. As obras só foram retomadas em 1975. Finalmente, em 1o de março de 1978, o Hospital Universitário foi inaugurado.

Ou seja, 28 anos depois de iniciada a construção do prédio, a ala norte foi inaugurada. Os 110.000m² restantes da ala sul estavam ali, de pé, mas sem qualquer uso. Uma construção enorme, com área maior que o próprio campus da Praia Vermelha, totalmente abandonada. Não apenas sem uso, mas sem manutenção.

Três décadas se passaram, você nasceu, cresceu, e a situação continuava igual. A falta de manutenção na ala fantasma era visível. A estrutura da ala sul estava comprometida, e isso colocava em risco todo o hospital.

Em junho de 2010, o HU foi evacuado depois que foram ouvidos estalos na base da ala sul. Engenheiros constataram que o prédio corria o risco de cair a qualquer momento, e a princípio seria feita uma obra de reforço nos pilares, a um custo de R$ 16 milhões.

Mas apenas reforçar os pilares não adiantaria por muito tempo. E mesmo se fosse levado adiante um projeto de ocupação da ala sul, a recuperação da estrutura custaria muito caro. A solução então era, 60 anos depois, se livrar de um prédio que nunca serviu pra nada.

A implosão foi a primeira saída encontrada. Mas os engenheiros desistiram da idéia e decidiram derrubar o prédio de uma forma mais lenta e sem espetáculo. Mas aí os engenheiros desistiram de novo e resolveram que iam mesmo implodir o HU e pronto.

Na manhã de 19 de dezembro de 2010, 723 meses depois de começarem as obras e quase 33 anos depois da “inauguração”, a ala sul do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho foi posta ao chão.

A história podia ter acabado aí. Mas não seria a UFRJ se fosse tão “simples” assim.

Os 110.000m² da ala sul do HU foram transformados numa pilha de 137.500 toneladas de entulho e, claro, o entulho não ia sair de lá sozinho ou simplesmente evaporar. Logo depois da implosão deveria começar o trabalho de limpeza da área. Mas não, a UFRJ não tinha dinheiro pra fazer a limpeza e decidiu deixar o entulho lá, esperando, até que sobrasse um trocado no caixa.

Com o ridículo da situação ficando cada vez mais evidente, a reitoria chegou a fazer um acordo de doação dos escombros para a Cruz Vermelha, que seria responsável pela remoção e reutilização do material. Mas não deu certo e a UFRJ teve que procurar outra saída: em agosto de 2011, já passados 8 meses da implosão, foi realizado um leilão dos escombros. Quem pagasse mais levaria todo aquele material, que poderia ser reaproveitado em outras obras. Assim a UFRJ se livrava do problema e ainda recebia um trocado.

O “trocado” foi um trocado mesmo: houve apenas uma proposta de compra, por 1 real. (O texto acaba aqui, nunca cheguei a terminá-lo.)

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