Terra dos Louros

Eduardo era um louro. Morava na casa dos pais, os quais eram como água e fogo. Seu pai bradava virilidade, construía muros e assistia ao jogo. Sua mãe era do povo. Escrevia poesia e abria um buraco no muro, para ver qual era o homem mais burro.

Eduardo ouvia gritos e muito choro. E quando saía com o pai, repetia em casa o que ouvia o tempo todo. Assoviava para a mãe, a prima e até o cachorro. Eduardo não sabia que aquilo era um nojo. Mas seu pai seguia todo orgulhoso. Dono do próprio mundo, encasulado frente ao completo fracasso do lado de lá. Num mundo feito para homens como o pai de Eduardo, fora justo ele naufragar.

Mas nada que um muro não resolva. De sua família tinha as rédeas, fazia sua sociedade a pleno vapor. Eduardo ouvia e repetia, enquanto a mãe um dia fugira para a casa da tia. Era água demais para pouco fogo. O pai de Eduardo então, mudou de canal e assistiu a outro jogo.

Solto, Eduardo não repetia nada de novo. O pai, que há muito vivia sozinho dentro de si, agora conseguira trazer para fora e começara a sorrir.

Quando andava na rua, o pai de Eduardo assoviava e lembrava do filho. Assediava mulheres, cuspia no chão e nem limpava seu gozo.

Eduardo cresceu, bateu asas e se debateu pelas ruas. Repetia o que o pai dizia que era a verdade pura. Gerou risada, pegou a estrada e fez tantos como ele. Eduardo nunca conseguira entender aquilo que repetia. Assoviava, assoviava e sua mente seguia em trânsito. Ninguém ia a lugar algum. Talvez Eduardo seja só mais um, nesse mundo doente em que insistem em taxar a vítima como culpada pela própria dor.

E quem a tudo assiste, de bico calado, o faz por medo de ser julgado. Contribui, certamente, para que tudo assim continue. Eduardo é perdoado pela sua inocência. Pela falta de crítica da própria crença. Quem pede calma, pede clemência. Não sofre um a e pede paciência.

Até quando?

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